
A RENDIO DE SUZANNA
(Suzanna's Surrender)

Nora Roberts

4 Histria das Mulheres Calhoun


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PRLOGO

Bar Harbor, 1965
Assim que a vi minha vida mudou. Passaram mais de cinqenta anos desde aquele momento, e j sou um homem velho de cabelo branco e corpo frgil. Entretanto, minhas lembranas transbordam cor e fora.
Desde que sofri o ataque ao corao, tenho que descansar todos os dias. Por isso fiquei aqui, na sua ilha, onde tudo comeou para mim. Mudou, igual a mim. O grande incndio do quarenta e sete destruiu muito. Chegaram edifcios novos e tambm pessoas novas. Os carros lotam as ruas sem o encanto do atraio das carruagens. Mas sou afortunado de poder v-la como foi e como .
Meu filho agora  um homem, um bom homem que escolheu ganhar a vida no mar. Jamais nos entendemos, mas mesmo sim nos levamos bem. Tem uma mulher boa e um filho. O jovem Holt me produz um jbilo especial. Possivelmente  porque se parece comigo com grande claridade. A impacincia, o fogo, as paixes que uma vez foram minhas. Possivelmente o tambm sinta e deseje muito. Mas no posso lament-lo. Se pudesse lhe dizer uma s coisa, insistiria em que se aferrasse  vida e tomasse o que esta lhe oferecesse.
Minha vida foi plena e dou obrigado pelos anos que tive com a Margaret. Eu j no era jovem quando se casou comigo. O que compartilhamos no foi um resplendor, a no ser o calor sereno de um fogo controlado. Brindou-me com carinho e eu espero lhe haver dado felicidade. Se foi a  quase dez anos, e as lembranas que tenho dela so doces.
Entretanto,  a lembrana de outra mulher o que me persegue.  uma lembrana dolorosamente clara, completa. O tempo no pode consumi-la. Os anos no mitigaram a imagem que tenho dela nem alteraram um pice o amor desesperado que senti. Sim, que ainda sinto...que sempre sentirei. Embora esteja perdida para mim.
Possivelmente agora que estive to perto da morte possa me abrir outra vez a ele, me permitir recordar o que nunca fui capaz de esquecer. No passado foi muito doloroso, e afoguei a dor em uma garrafa. Quando ali no encontrei consolo, enterrei minha vida no trabalho. Voltei a pintar e viajei. Mas sempre, sempre retornava aqui, onde uma vez tinha comeado a viver. Onde sei que algum dia morrerei.
Um homem ama dessa maneira s uma vez, e unicamente se for afortunado. Para mim, foi Bianca. Sempre foi Bianca.
Era junho, o vero de mil novecentos e doze, antes de que a Grande Guerra rasgasse o mundo. O vero da paz e a beleza, da arte e a poesia, quando o povo de Bar Harbor se abriu aos ricos e lhe brindou refgio aos artistas.
Ela apareceu nos penhascos onde eu trabalhava, segurando a mo de um menino. Com o pincel ainda entre os dedos, afastei a vista da tela, imbudo ainda do estado de nimo do mar e do quadro. A estava, esbelta e bela, com o cabelo banhado pelo crepsculo. O vento o agitava junto com a saia do vestido de cor azul plida que levava. Tinha os olhos da cor do mar que com tanta fria eu tentava passar para o tecido. Observaram-me, curiosos, precavidos. Sua pele exibia a palidez e luminosidade dos irlandeses.
Assim que a vi, soube que devia pint-la. E acredito que soube, enquanto nos erguamos ao vento, que deveria am-la.
Desculpou-se por interromper meu trabalho. Sua voz suave e corts tinha a leve deixe musical da Irlanda. O menino que j tinha passado a seus braos era seu filho, chamava-se Bianca Calhoun e era a mulher de outro homem. Sua casa do vero se achava acima. As Torres, o magnfico castelo que Fergus Calhoun tinha construdo. Embora eu levava pouco tempo no Mount Desert Island, tinha ouvido falar do Calhoun e de seu lar. Certamente, tinha admirado suas linhas arrogantes e chamativas,  as torres e os parapeitos.
Um lugar assim fazia honra  mulher que tinha diante. Possua uma beleza atemporal, uma firmeza serena, uma graa que jamais se poderia adquirir pelo ensino, e paixes contidas que ferviam em seus olhos verdes e grandes. E, j estava apaixonado, mas ento s era pela sua beleza. Sendo um artista, queria interpretar essa beleza a minha prpria maneira, ao leo ou ao lpis-carvo. Possivelmente a assustei ao olh-la to fixamente. Mas o menino, cujo nome era Ethan, mostrava-se intrpido e amigvel. Ela parecia to jovem, to imaculada, que me custou acreditar que era dele, e que alm disso tinha outros dois filhos.
Aquele dia no ficou muito tempo, mas sim se levou a seu filho e se foi a sua casa junto a seu marido. Observei-a caminhar entre as rosas silvestres, com o sol em seu cabelo.
Aquele dia foi impossvel pintar o mar. Seu rosto j tinha comeado a me perseguir.


Captulo 1

No o desejava, mas sabia que terei que faz-lo. Suzanna arrastou at a caminhonete uma bolsa de hmus de vinte e cinco quilogramas e a subiu at a parte de trs. Essa pequena tarefa fsica no representava o problema. De fato, agradava-lhe fazer aquela entrega, fora sua segunda parada a caminho de casa.
Era a primeira parada a que preferia ter evitado. Mas para a Suzanna Calhoun Dumont, o dever jamais se podia esquivar.
Tinha prometido a sua famlia que falaria com o Holt Bradford, e era uma mulher que mantinha suas promessas. "Ou tentava", pensou enquanto passava o brao sobre a testa suada. Maldio, estava cansada. Tinha trabalhado todo o dia no Southwest Harbor, trabalhando em um jardim de uma casa nova, e no dia seguinte tinha uma agenda completa. Sem contar que sua irm Amanda se casava em pouco mais de uma semana, nem que As Torres era um caos pelos preparativos do casamento e a restaurao da ala oeste. Nem sequer tinha que ver com o fato de que a esperavam dois filhos cheios de vitalidade que essa noite quereriam, e mereceriam, o tempo e a ateno de sua me. Nem com a papelada que se amontoava em seu escritrio...nem com o fato que um de seus empregados tinha ido aquela manh.
"Bom, queria meu negcio", recordou-se. E o tinha conseguido. Girou a cabea para observar sua loja, fechada para a noite com a cristaleira de flores do vero, com o estufa bem atrs do local principal. Cada crisntemo, begnia e petunia eram dela, "e do banco", pensou com um leve sorriso. Tinha demonstrado que no era a perdedora incompetente que uma e outra vez seu ex-marido a tinha acusado de ser.
Tinha dois filhos maravilhosos, uma famlia que a amava e um negcio de paisagismo de jardins que seguia  adiante. Nem sequer acreditava que nesse momento pudesse sustentar a afirmao do Bax de que era uma mulher aborrecida. No quando se achava em uma aventura que tinha comeado oitenta anos atrs.
Certamente, no era algo corriqueiro a busca de um colar de esmeraldas de valor incalculvel, ou que seguissem os passos da busca alguns ladres internacionais de jias que no se deteriam ante nada para se apoderarem do legado de sua bisav Bianca.
"Embora at o momento no tenha desempenhado mais que um papel secundrio", refletiu enquanto subia  caminhonete. Tudo  tinha se iniciado com sua irm C.C., ao apaixonar-se pelo Trenton St.James III, dos Hotis St. James. Ele tinha tido a idia de transformar parte do lar familiar pressionada pelos credores em um retiro de luxo. Ao faz-lo, a antiga lenda das esmeraldas Calhoun se filtrou numa imprensa ansiosa, provocando uma reao em cadeia, cujo curso tinha passado do absurdo ao perigoso.
Tinha sido Amanda quem estivera a ponto de morrer quando o desesperado e obcecado ladro chamado William Livingston tinha roubado alguns papis familiares com a esperana de que o conduziriam at as esmeraldas perdidas. E tinha sido a vida de sua irm Lilah que tinha sido ameaada durante a ltima tentativa.
Na semana transcorrida desde aquela noite, a polcia no tinha encontrado rastro algum de Livingston, ou do ltimo nome pelo qual era conhecido, Ellis Caufield.
" estranho como Las Torres e as Esmeraldas tinha afeitado toda sua famlia", pensou ao somar-se  corrente de trfico. As Torres tinham unido C.C. e ao Trent. Logo tinha chegado Sloan O'Riley para desenhar o refgio e apaixonar-se pela Amanda. O tmido professor de histria, Max Quatermain, tinha perdido o corao pela independente irm de Suzanna, Lilah, e ambos tinham estado a ponto de morrer. E mais uma vez o motivo era as esmeraldas.
Havia ocasies nas que Suzanna desejava que todos pudessem esquecer o colar que outrora tinha pertencido a sua bisav. Mas sabia, igual aos outros, que o destino do colar que Bianca tinha escondido antes de morrer era ser encontrado.
Por isso continuavam detrs de todas as pistas, explorando cada caminho poeirento. E nesse momento era seu turno. Durante a investigao levada a cabo pelo Max, este tinha descoberto o nome do artista ao qual Bianca tinha amado.
Era uma histria que jamais deixava de despertar a nostalgia em Suzanna, mas devido a sua m sorte a conexo com o artista conduzia ao neto deste.
Holt Bradford. Suspirou enquanto conduzia pelas ruas lotadas do povoado. No podia afirmar que o conhecia bem...no estava segura de que ningum pudesse afirm-lo. Mas o recordava de adolescente. spero, mal-humorado e distante. Certamente, s garotas tinha encantado sua atitude de "v ao inferno". Atrao que sem dvida potencializava seu cabelo escuro e seus irados olhos cinzas.
Pareceu-lhe estranho ser capaz de recordar a cor de seus olhos. Embora a nica vez que os tinha visto de perto ele virtualmente a tinha queimado viva com o olhar.
Disse-se que o mais provvel era que tivesse esquecido a briga. Isso esperava. As brigas a agitavam e a deixavam nervosa, e j se fartara delas em seu matrimnio. Holt no guardaria nenhum rancor...tinham passado mais de dez anos. Depois de tudo, no tinha se machucado muito quando voou da moto. "Alm disso, foi sua culpa", pensou erguendo o queixo. Ela tinha estado na preferncial.
De qualquer modo, tinha prometido a Lilah que falaria com ele. Terei que seguir qualquer conexo com as esmeraldas perdidas da Bianca. Por ser o neto do Christian Bradford, possivelmente escutara alguma histria.
Desde de sua volta a Bar Harbor h alguns meses atrs, tinha residido na mesma cabana em que morava seu av durante o romance mantido com a Bianca. Suzanna era irlandesa o bastante para acreditar no destino. Havia um Bradford na cabana e vrios Calhoun em Las Torres. Sem dvida entre eles poderiam encontrar as respostas do mistrio que tinha perseguido as duas famlias durante geraes.
A cabana dava  gua, protegida por dois grandiosos salgueiros. A singela estrutura de madeira recordou uma casa de bonecas, e lhe deu pena que ningum se importara com ela o suficiente para plantar flores. A grama estava recm podada, mas seu olho profissional notou que havia partes que precisavam ser replantados e que no iria mal um fertilizante em todo o lugar.
Dirigia-se para a porta quando o latido de um co e a voz de um homem fiozeram que seu olhar se desviar-se.
Uma cais se estendia por cima da gua tranqila e escura. Amarrado se via um iate pequeno de uma resplandecente cor branca. Ele se sentava na popa e com pacincia lhe tirava brilho ao lato. No levava camisa e sua pele bronzeada se via tensa sobre os msculos brilhantes pelo suor. O cabelo negro estava ondulado por onde a gola da camisa cobriria.  Pelo que podia ver no lhe parecia necessrio cobrir-se com algo mais que uns jeans curtos e gastos. Notou suas mos, esguias, de dedos largos, e se perguntou se as tinha herdado de seu av artista.
A gua batia com calma contra a embarcao. Fixou no rosto o que considerou um sorriso educado e caminhou em sua direo.
-Perdo.
Quando Holt levantou a cabea, Suzanna engoliu em seco. Experimentou a rpida, mas vvida impresso de que se ele tivesse tido uma arma, estaria lhe apontando com ela. Em um instante tinha passado de relaxamento total a uma tenso de mxima alerta, com um tipo de violncia nervosa na postura do corpo que lhe ressecou a boca.
Enquanto lutava para frear o corao que batia loucamente, notou que tinha mudado. O menino spero nesse momento era um homem perigoso. No lhe ocorreu outra palavra para descrev-lo. O rosto tinha madurado e estava bem definido. A sombra de uma barba de dois dias potencializava seu aspecto duro.
Mas foram seus olhos os que voltaram a lhe ressecar a garganta. Um homem com olhos to intensos e poderosos no precisava de nenhuma arma.
Observou-a com olhos entrecerrados, sem levantar-se nem pensar. Teve que brincar um momento para adaptar-se. Se tivesse uma arma, sabia que j a teria sacado. Esse era um dos motivos pelos que se achava ali, e pelo que agora era um civil.
Poderia haver-se obrigado a relaxar-se, sabia como faz-lo, mas recordava o rosto dela. Um homem no esquecia esse rosto. Deus sabia que ele no o tinha feito. Em uma de suas fantasias juvenis a tinha imaginado como uma princesa, perdida e bela com um traje de seda. E ele um cavalheiro que teria matado a cem drages para t-la.
A lembrana lhe fez franzir o cenho.
Pensou que virtualmente no tinha mudado. A pele ainda era da palidez das rosas e o leite irlndes, o rosto de uma forma clssica. A boca tinha permanecido cheia e romanticamente suave, e os olhos desse profundo, profundo e sonhador azul, com pestanas esculpidas e exuberantes. Nesse momento o observavam com uma espcie de alarme desconcertado enquanto ele a estudava.
Levava o cabelo preso em um rabo de cavalo, mas Holt recordava como era lindo solto e loiro sobre os ombros.
Era alta, uma caracterstica de todas as mulheres Calhoun, mas muito magra. Tinha ouvido falar que se casou e divorciado, e que ambas tinham sido experincias difceis. Tinha dois filhos, um menino e uma menina. Custava acreditar que essa mulher to esbelta vestida em uns jeans e uma camiseta velha tivesse dado a luz alguma vez.
Sem deixar de olh-la, seguiu lhe tirando brilho ao metal.
-Quer algo?
Ela soltou o ar que no se deu conta de que continha.
-Lamento me apresentar desta maneira. Sou Suzanna Dumont. Suzanna Calhoun.
-Sei quem .
-OH, bom... -pigarreou-. Compreendo que est ocupado, mas eu gostaria de falar com voc alguns  minutos. Se este for um bom momento...
-Sobre o que?
"J que se mostra to educado", pensou irritada, "vou logo ao assunto".
-Sobre seu av. Era Christian Bradford, verdade? O artista?
-Sim, e da?
-  uma histria longa. Posso me sentar -ao ver que ele s se encolhia de ombros, dirigiu-se ao iate, que rangeu e se balanou sob seus ps-. Na realidade, comeou l por mil novecentos e doze ou treze, com minha bisav Bianca.
-J conheo o conto de fadas -nesse momento podia cheir-la, flores e suor, e sentiu um n no estmago-. Era uma mulher infeliz com um marido rico e difcil. Compensou-o com um amante. Em algum ponto, ao  que parece escondeu seu colar de esmeraldas. Como um seguro se por acaso tinha pressa de partir. Mas em vez de partir para o crepsculo com seu amante, atirou-se pela janela da torre, e as esmeraldas jamais foram encontradas.
-No foi precisamente...
-Agora sua famlia decidiu comear uma busca do tesouro -continuou como se ela no tivesse falado-. Teve muita repercusso da imprensa e mais problemas do que queriam.Pelo que estou sabendo h algumas semanas tiveram certa diverso.
-Se chama diverso quase matarem minha irm com um faca -o fogo tinha chegado at seus olhos. No sempre era boa defendendo-se a si mesmo, mas quando se tratava de sua famlia, no se arredava ante ningum-. O homem que trabalhava com o Livingston, ou como se chama agora esse canalha, esteve a ponto de matar a Lilah e a seu noivo.
-Quando se tm esmeraldas de um valor incalculvel unidas a uma lenda, os ratos fazem ato de presena -conhecia  Livingston. Holt tinha sido polcia dez anos, e embora tinha passado quase todo o tempo em entorpecentes, tinha lido o informe sobre o ladro de jias escorregadio e freqentemente violento.
-A lenda e as esmeraldas so assunto de minha famlia.
-Ento, para que vem ver-me? Entreguei meu distintivo. Retirei-me.
-No vim em busca de ajuda profissional.  algo pessoal -respirou fundo, querendo ser clara e concisa-. O noivo de Lilah era professor de histria no Cornell. Faz um par de meses, Livingston, sob o nome de Ellis Caufield, contratou-o para analisar os papis familiares que nos tinha roubado.
-No parece que Lilah tenha desenvolvido muito o gosto -seguiu lustrando o metal.
-Max no sabia que os papis eram roubados -explicou Suzanna com os dentes apertados-. Quando o averiguou, Caufield esteve a ponto de mat-lo. Em qualquer caso, Max se apresentou em Las Torres e prosseguiu com a busca para ns. Documentamos a existncia das esmeraldas e entrevistamos uma criada que trabalhou em Las Torres o ano em que Bianca morreu.
-Estiveram ocupados -Holt trocou de postura e continuou trabalhando.
-Sim. Sabemos a histria de que o colar oculto e que Bianca estava apaixonada e planejava deixar  seu marido. O homem de que estava apaixonada era um artista -aguardou um momento-. Se chamava Christian Bradford.
Algo titilou nos olhos dele, mas desapareceu imediatamente. Com lentido deliberada deixou o trapo. Tirou um cigarro da caixinha, acendeu-o e logo soltou uma baforada de fumaa.
-Espera que eu acredite nessa pequena fantasia?
Suzanna tinha contado com a surpresa, inclusive o assombro. Mas tinha recebido aborrecimento.
- verdade. Estava acostumado a reunir-se com ele nos penhascos perto de Las Torres.
-Viu-os, no? -sorriu-lhe com uma expresso prxima ao desdm-. Sim , eu tambm ouvi falar dos fantasmas -deu outro trago e com gesto preguioso soltou a fumaa-. O esprito melanclico de Bianca Calhoun, que vaga por sua casa de vero. Os Calhoun esto cheios de...histrias.
Os olhos dela se obscureceram, mas a voz permaneceu muito controlada.
-Bianca Calhoun e Christian Bradford estavam apaixonados. O vero que ela morreu, viram-se freqentemente nestes penhascos bem debaixo Das Torres.
Isso tocou algo em seu interior, mas encolheu os ombros.
-E o que?
-H uma conexo. Minha famlia no pode passar por cima nenhuma conexo, em especial uma to vital como esta.  muito possvel que lhe contasse onde tinha guardado as esmeraldas.
-No vejo que tem que ver com as esmeraldas um flerte, um flerte sem importncia, entre duas pessoas h uns oitenta anos.
-Se pudesse deixar de lado esta birra que parece ter em relao a minha famlia, poderamos chegar a deduzi-lo.
-No me interessa nenhuma das duas coisas -abriu a tampa de uma geladeira pequena-. Quer uma cerveja?
-No.
-Bom, pois fiquei sem champanha -sem deixar de olh-la, abriu a garrafa, atirou o anel em um cubo de plstico e deu um bom gole-. Sabe?, se pensar bem, ver que  dificil acreditar na relao de uma  senhora da manso, de educao criteriosa e rica, com o artista pobre. No encaixa, baby. Ser melhor que esquea o assunto e se concentre em plantar suas flores. No  isso o que faz na atualidade?
Podia enfurec-la, mas no ia dissuadi-la de seu objetivo.
-A vida minhas irms se viram ameaadas, entraram a fora em meu lar. H idiotas que entram em meu jardim e arrancam minhas roseiras -se ergueu, alta, esbelta e furiosa-. No tenho nenhuma inteno de me esquecer do assunto.
- seu assunto -atirou longe o cigarro antes de saltar sem esforo no barco. Oscilou sob seu peso-. Mas no espere me arrastar para ele.
-Muito bem, ento. Deixarei de desperdiar meu tempo e o seu.
Aguardou at que ela saiu do embarcadero.
-Suzanna -gostava de como soava. Suave, feminino e antigo-. Chegou a aprender a conduzir?
Com expresso tormentosa, ela retrocedeu um passo.
-Isso  o que o move? -quis saber-. Continua zangado porque caiu daquela estpida moto e golpeou seu inchado ego masculino?
-Ele no foi o nico que foi golpeado...ou arranhado ou rasgado -se lembrava de seu aspecto naquela poca. No podia superar os dezesseis anos. Tinha descido correndo do carro, com o cabelo ao vento, o rosto plida, os olhos cheios de preocupao.
E ele tinha estado estendido no caminho, com o orgulho de vinte anos to esfolado como a pele que o asfalto tinha arrancado.
-No acredito -dizia ela-. Continua furioso, depois de... quanto, doze anos?, por algo que claramente foi sua culpa.
-Minha culpa? -inclinou a garrafa em sua direo-. Foi voc quem me atropelou.
-Nunca atropelei ningum. Caiu.
-Se no tivesse jogada a moto no cho, teria me atropelado. No olhava por onde ia.
-Tinha prioridade de passagem. E voc estava muito rpido.
-Tolice -comeava a se sentir  bem-. Ficou olhando seu belo rosto no retorvisor.
-Sob nenhum conceito. Em nenhum momento afastei a vista do caminho.
-Se tivesse tido os olhos aonde conduzia, no teria chocado comigo.
-Eu no... -calou e soltou uma maldio-. No vou ficar aqui discutindo por algo que aconteceu a doze anos!
-Veio para  para me envolver em algo que ocorreu h oitenta anos.
-Foi um engano bvio.- teriam sido suas ltimas palavras, mas um co muito grande e muito molhado atravessou a grama dando saltos. Com dois latidos felizes o animal saltou e plantou as duas patas sujas sobre seu ombro, fazendo-a balanar.
-Sadie, desce! -enquanto emitia a ordem seca sustentou Suzanna antes de que caisse no cho. A cadela se sentou movendo o rabo-. Voc est bem? -tinha-a rodeada com os braos, junto a seu peito.
-Sim, estou bem -ele tinha  msculos rgidos. Era impossvel no notar. Assim como era impossvel no notar seu hlito ao longo da tmpora. Fazia muito tempo que um homem no a tinha nos braos.
A fez girar devagar. Por um momento, um momento muito longo, teve-a face a face, apanhada no crculo de seus braos. Baixou o olhar para os lbios dela. Uma gaivota grasnou no alto e sulcou o ar em cima da gua. Sentiu o corao dela palpitar contra o seu. Uma, duas, trs vezes.
-Sinto -disse ao solt-la-. Sadie ainda se considera uma cachorrinha. Sujou sua blusa.
-Trabalho com terra -necessitando de tempo para recuperar-se, agachou-se para acariciar a cabea do animal-. Ol, Sadie.
Holt, colocou as mos nos bolsos enquanto Suzanna conhecia sua cadela. A garrafa seguia onde a tinha atirado, com o contedo vertendo-se sobre a grama. Desejou que ela no estivesse to bonita, que a risada que soltava enquanto o co lhe lambia o rosto no acalmasse tanto seus nervos.
Naquele momento que a teve em braos, tinha encaixado to bem como uma vez tinha imaginado que aconteceria. Fechou as mos nos bolsos porque desejava toc-la. No, isso nem sequer servia para explicar o que sentia. Queria lev-la para a cabana, atir-la sobre a cama e lhe fazer coisas incrveis.
-Possivelmente o homem que tem um co to agradvel no  to mau -olhou por cima do ombro e o sorriso precavido morreu em seus lbios. O modo como a olhava, com olhos intensos e ferozes, o rosto tenso, fez que contivesse o flego. Ao redor dele vibrava a violncia. J tinha provado a violncia de um homem e a lembrana daquilo lhe enfraquecia as pernas.
Devagar, Holt relaxou os ombros, os braos, as mos.
-Possivelmente no  -comentou com jovialidade-. Mas neste ponto  ela minha proprietria.
Suzanna se sentiu mais cmoda encarando a cadela do que seu amo.
-Temos um cachorrinho. Embora no pare de crescer e logo ser to grande como Sadie. De fato, parece muito com ela. Teve alguma ninhada faz alguns meses?
-No.
-Mmm... Tem a mesma pelagem, a mesma forma de cara. Meu cunhado o encontrou meio morto de fome. Tinham-no abandonado.
-Eu no abandono cachorrinhos necessitados.
-No pretendia dar a entender... -calou porque uma nova idia tinha entrado em sua cabea. No era mais descabelada que procurar esmeraldas perdidas-. Seu av tinha um co?
-Sempre  teve, estava acostumado a lev-lo aonde fosse. Sadie  uma de seus descendentes.
-Teve um co chamado Fred? -com cuidado voltou a levantar-se..
Holt j sabia com claridade que no gostava do rumo que comeava a tomar a conversao.
-O primeiro co que teve se chamava Fred. Foi antes da Primeira guerra mundial. Pintou-o em um quadro. E quando Fred se dedicou a inseminar  parte da vizinhana canina, meu av ficou com um casal de cachorrinhos.
Suzanna esfregou umas mos sbitamente midas nos jeans. Necessitou de todo seu controle para manter a voz baixa e firme.
-O dia antes de que Bianca morresse, levou um cachorrinho para casa, para seus filhos. Um pequeno animal negro ao que batizou Fred -viu que a expresso dos olhos dele mudava e que dispunha de sua ateno-. O tinha encontrado nos penhascos...os mesmos aos que ia reunir-se com o Christian -umedeceu os lbios-. Meu bisav no deixou que o co ficasse. Discutiram por isso, uma discusso bastante sria. Pudemos encontrar a uma criada que tinha trabalhado para eles e presenciado essa discusso. Ningum estava certo do que tinha acontecido a esse co. Ate agora. 
-Embora fosse verdade -comentou Holt devagar-, no muda a realidade. No h nada que eu possa fazer por voc.
-Pode pensar nisso, tratar de lembrar se ele disse algo alguma vez, se te deixou algo que pudesse ajudar.
-J tenho suficiente no que pensar -afastou alguns passos. No queria ver-se envolto em nada que o pusesse uma e outra vez em contato com ela.
Suzanna no o questionou. Tinha o olhar cravada na cicatriz que ia do ombro at quase a cintura. Holt se voltou, topou-se com o olhar horrorizado e ficou rgido.
-Sinto muito, se soubesse que viria teria vestido uma camisa.
-Que...? -teve que engolir o n  de emoo que fechava sua garganta-. O que lhe aconteceu?
-Fui polcia uma noite a mais que devia -no desviou os olhos de seu rosto-. No posso ajud-la, Suzanna.
Ela conteve a compaixo que sem dvida ele odiaria.
-No quer faz-lo.
-O que preferir. Se quisesse escavar os problemas dos outros, ainda estatria no corpo de polcia.
-S te peo que pense um pouco, que nos comunique se recordar algo que possa nos ser de ajuda.
Comeava a impacientar-se. Holt considerava que j lhe tinha dado mais do que lhe correspondia por um dia.
-Era um menino quando ele morreu. Acredita mesmo que ele teria contado suas aventuras com uma mulher casada?
-Voc faz parecer srdido.
-Algumas pessoas no consideram romntico o adultrio -encolheu os ombros.  Seja como for, para ele no representava nada.
-No me interessa seu ponto de vista sobre a moralidade. S suas lembranas. E j ocupei muito seu tempo.
Ele no soube o que havia dito para lhe provocar essa expresso triste e magoada. Mas no podia deix-la ir e se atormentar com essa lembrana.
-Acredito que est dando batendo contra um muro, mas se me lembrar dealgo comunicarei-lhe isso. Pelos antepassados do Sadie.
-Agradeceria.
-Mas no espere nada.
-Acredite, no o farei -riu e se voltou para dirigir-se para a caminhonete. Surpreendeu-a ao atravessar a grama com ela.
-Fiquei sabendo que montou seu prprio negicio.
-Assim  -olhou em torno-. Poderia usar meus servios.
-No sou um apaixonado pelas rosas -manifestou com desdm.
-A cabana sim -impassvel, tirou as chaves do bolso-. No precisaria de muito para lhe dar um ar acolhedor.
-No procuro botes no mercado. Deixo o trabalho com as roseiras para voc.
Suzanna pensou em seus musculos doloridos quando chefava em casa a noite.
-Ns mulheres adoramos trabalhar no jardim. A propsito, Holt, sua grama precisa de fertilizante.Eu tenho certeza que voc tem de sobra ara espalhar por ai.
Arrancou, ps marcha r e saiu.

































Captulo 2

Os meninos saram da casa correndo, seguidos de um enorme co negro. O menino e a menina desceram pelos desgastados degraus de pedra com o equilbrio gil e a graciosidade da juventude. O co tropeou com suas prprias patas e deu um salto mortal. "Pobre Fred", pensou Suzanna ao descer da caminhonete. Dava a impresso de que nunca superaria sua estupidez de cachorrinho.
-Mama! -cada menino se agarrou a uma das pernas da Suzanna.
Com seis anos, Alex j era alto para sua idade, e com o cabelo moreno como o de um cigano. Suas pernas bronzeadas tinham feridas cicatrizadas  altura dos joelhos e arranhes  altura dos cotovelos magros. Suzanna sabia que no se devia  estupidez, a no sim por seu esprito travesso. Jenny, um ano menor e loira como uma princesa de conto de fadas, exibia as mesmas marcas de honra. Assim que se agachou para beij-los, Suzanna esqueceu sua irritao e fadiga.
-O que estiveram fazendo?
-Construmos um forte -informou Alex.
-Sloan disse que no domingo poderia nos ajudar em sua construo.
-Voc poder? -perguntou Jenny.
-Depois de trabalhar -se inclinou para acariciar o Fred, que tentava abrir espao entre os meninos para obter sua parte de afeto-. Ol, moo. Acredito que hoje conheci  um de seus parentes.
-Fred tem parentes? -quis saber Jenny.
- o que parece -avanou com os meninos para sentar-se nos degraus. Era um luxo poder cheirar o mar e as flores, ter a um filho sob cada brao-. Acredito que conheci sua prima Sadie.
-Onde? Podemos visita-la?  bonita?
-No povoado-respondeu s perguntas a queima roupa-. No sei, e sim,  muito bonita. Grande, como vai ser Fred quando terminar de crescer. Que mais fizeram hoje?
-Loren e Lisa  vieram aqui-informou Jenny-. Matamos milhares de invasores.
-Bom, esta noite poderemos dormir tranqilos.
-E Max nos contou uma histria sobre a invaso da Normania.
-Acredito que era Normandia -rindo baixinho, beijou a parte superior da cabea de Jenny.
-Lisa e Jenny tambm brincaram com as bonecas -Alex lanou a sua irm uma careta tpica.
-Ela queria. Em seu aniversrio lhe deram de presente uma Barbie nova e um carro.
-Era um Ferrari -explicou Alex com ares de importncia, mas no quis reconhecer que Loren e ele tinham brincado com o carro quando as garotas saram do quarto. Aproximou-se mais para olhar para sua me-. A semana que vem Loren e Lisa vo para Disney World.
Suzanna conteve um suspiro. Sabia que seus filhos sonhavam em ir a este reino encantado que havia no centro geogrfico da Florida.
-Um dia iremos.
-Logo? -insistiu Alex.
Quis prometer-lhe mas no pde.
-Um dia -repetiu. O cansao tinha retornado quando se levantou para tomar a cada um da mo-. Corram e digam  tia Cody que estou em casa. Preciso tomar uma ducha e trocar de roupa. Certo?
-Podemos te acompanhar ao trabalho amanh?
Apertou a mo do Jenny.
-Carolanne amanh est na loja. Eu tenho que ir a uma casa -sentiu a decepo de sua filha com tanta intensidade como a sua prpria-. Na semana que vem. Vo agora -insistiu ao abrir a slida porta dianteira-. Olharei seu forte depois do jantar.
Satisfeitos, correram vestbulo abaixo com o co atrs.
"No pedem muito", pensou Suzanna ao subir pela escada ao primeiro andar. E queria lhes dar muito mais. Sabia que eram felizes e que se achavam a salvo e seguros. Tinham uma famlia enorme que os adorava. Com uma de suas irms casada e as outras duas comprometidas, seus filhos tinham homens em sua vida. Possivelmente os tios no substituam um pai, mas era o melhor que podia fazer.
H meses no sabiam nada de Baxter Dumont. Alex nem sequer tinha recebido uma postal em seu aniversrio. A penso de manuteno dos meninos voltava a atrasar-se...como todos os meses. Bax era muito bom advogado para descuidar por completo dos pagamentos, mas se assegurava que chegassem semanas mais tarde que sua data. Sabia que o fazia para p-la a prova. Para ver se chegaria a suplicar. Agradecia a Deus no ter necessitado faz-lo at o momento.
Fazia um ano e meio que lhes tinham concedido o divrcio, mas ele seguia manifestando seus sentimentos por ela ante os meninos...a nica coisa realmente valiosa que tinham feito juntos.
Possivelmente essa era a causa pela qual ainda tinha que superar a persistente desiluso, a sensao de traio e perda. J no amava seu ex-marido. Esse amor tinha morrido antes de que Jenny nascesse. Mas a dor...moveu a cabea. Estava trabalhando nisso.
Entrou em seu quarto. Como a maioria das quartas de Las Torres, o dormitrio de Suzanna era enorme. Seu bisav tinha construdo a casa no comeo do sculo. Tinha sido uma pea de exposio, um testamento a sua vaidade, a seu gosto pelo opulento e a sua necessidade de aparecer. Tinha chamativas torres, parapeitos e terraos escalonadas. O interior tinha tetos altos, madeira nobre e labirintos de corredores. Parte castelo, parte manso, primeiro tinha sido uma casa de vero, logo uma residncia permanente.
Ao longo dos anos e dos reversos financeiros, a casa tinha visto tempos duros. O dormitrio dela, como todas as habitaes, mostrava rachaduras na parede. O teto estava marcado pelas filtraes . Os Calhoun adoravam sua casa familiar. Nesse momento que restauravam a ala oeste, esperavam que logo comeasse a ser independente e cobrisse seus gastos.
Foi ao armrio em busca de um robe e pensou que tinha tido sorte. Tinha podido ficar com seus filhos, um lar verdadeiro, quando o seu prprio se desmoronou. No tinha tido que entrevistar adesconhecidos para que cuidassem deles enquanto trabalhava. A irm de seu pai, que tinha criado a suas irms e a ela depois da morte de seus pais, nesse momento tambm se ocupava de seus filhos. Embora consciente de que Alex e Jenny tinham muita energia, sabia que no havia ningum melhor preparado para a tarefa que a tia Cody.
E um dia encontrariam as esmeraldas da Bianca e tudo voltaria ao normal na casa Calhoun.
-Suze -Lilah bateu na porta e apareceu a cabea-. O viu?
-Sim.
-Estupendo -Lilah, cujo cabelo vermelho caa em ondas at sua cintura, entrou. Estendeu-se em posio diagonal sobre a cama e apoiou o travesseiro contra a cabeceira. No lhe custou nada adotar sua postura favorita: a horizontal-. Bom, me conte.
-No mudou grande coisa.
-OH, OH.
-Mostrou-se brusco e grosseiro -tirou a camiseta-. Acredito que at pensou em atirar por entrar sem permisso em sua propriedade. Quando tentei de lhe explicar o que acontecia, foi desdenhoso -recordou a expresso ao mesmo tempo que baixava a cala jeans-. Basicamente, foi desagradvel, arrogante e grosseiro.
-Mmm. Parece um prncipe.
-Acredita que nos inventamos isso tudo para conseguir publicidade para As Torres quando abrir no prximo ano.
-Que imbecil -isso agitou  Lilah o suficiente para sentar-se-. Max esteve a ponto de morrer. Acha que somos loucas?
-Exato -assentiu e colocou o robe-. No sei por que, mas parece ter algo contra todos os Calhoun em geral.
-Segue magoado porque o atirou de sua moto -Lilah sorriu com gesto sonolento.
-Eu no o... -esta bem-. Esquece; a questo  que no acredito que recebamos ajuda dele -depois de tirar o lao que segurava seu cabelo, se sentou-. Embora depois do tropeo com o co, disse que pensaria.
-Que co?
-A prima do Fred -respondeu por cima do ombro ao dirigir-se banheiro para abrir a ducha.
Lilah se plantou na soleira no momento em que Suzanna fechava a cortina.
-Fred tem uma prima?
Por cima do barulho da gua, Suzanna lhe falou de Sadie e de seus antepassados.
-Isso  fabuloso. Um elo mais na cadeia. Tenho que informar a Max.
Com os olhos fechados, Suzanna tirou a cabea de debaixo da gua.
-Lhe diga que siga sozinho. O neto do Christian no est interessado.


No queria est. Holt se achava sentado na varanda de trs, com o co aos ps, observando como a gua adquiria uma tonalidade ndigo no crepsculo. Havia msica, a sinfonia dos insetos na erva, o vento entre as folhas, a melodia da gua contra a madeira. Do outro lado da baa, Bar Island comeava a nublar-se e a fundir-se com a penumbra. Perto, na rdio soava um solitrio saxo alto que no desafinava com seu estado de nimo.
Isso era o que queria. Tranqilidade, solido, ausncia de responsabilidades. "Ganhei isso, no?", pensou enquanto bebia um gole de cerveja. Tinha entregue dez anos de sua vida aos problemas, as tragdias e as misrias de outros.
Sentia-se queimado, ressecado e cansado como mil demnios.
Nem sequer sabia se tinha sido um bom policial. Tinham-lhe entregue menes e medalhas que confirmavam que o tinha sido. Mas tambm tinha uma cicatriz de trinta centmetros nas costas que lhe recordava que tinha faltado pouco para ser um policial morto.
Nesse momento s queria desfrutar de seu retiro, reparar uns poucos motores, recolher alguns ignorantes e possivelmente navegar um pouco. Sempre levara jeito com coisas manuais e sabia que podia ganhar vida de forma decente reparando navios. Dirigir seu prprio negcio, a seu prprio ritmo e estilo. Sem informe que redigir, sem pistas que seguir, sem becos escuros que investigar.
Sem bandidos com facas na mo que saltavam das sombras para te rachar e te deixar sangrando no cimento.
Fechou os olhos e bebeu outro gole de cerveja. Tinha tomado uma deciso durante a larga e dolorosa estadia no hospital. Em sua vida no haveria mais compromissos, j no tentaria salvar o mundo. A partir desse momento ia comear a cuidar de si mesmo. S dele.
Tinha recolhido o dinheiro herdado e tinha voltado para casa, para fazer o menos possvel com o resto de sua vida. Sol e mar no vero, fogo e o uivo do vento no inverno. No era muito a pedir.
Tinha comeado a assentar-se, a sentir-se bem. At que ela apareceu.
Como se no tivesse sido suficientemente mau olh-la e sentir...Deus, igualmente como tinha se sentido com vinte anos. Ardente e faminto.
A formosa e inalcanvel Suzanna Calhoun, dos Calhoun de Bar Harbor. A princesa na torre. Ela tinha vivido em seu castelo no alto dos penhascos. E ele em uma cabana nos subrbios do povoado. Seu pai tinha sido pescador de frutos do mar, e Holt freqentemente tinha levado pescado  porta de servio dos Calhoun...sem passar nunca alm da cozinha. Mas s vezes tinha ouvido vozes, risadas ou msica. E isso tinha despertado sua curiosidade e desejo.
E nesse momento ela tinha ido busc-lo. Mas Holt j no era um adolescente embevecido. Era um realista. Suzanna estava fora de sua vida, como sempre o tinha estado. E embora tivesse sido diferente, no lhe interessava uma mulher que tinha escrito na testa que era pura "lar".
E no referente s esmeraldas, no havia nada que pudesse fazer para ajud-la. Nada que queria fazer.
Certamente, tinha ouvido falar das jias. Essa historia em particular tinha chegado at a imprensa nacional. Mas o que lhe resultava fascinante era a idia de que seu av tivesse estado envolto, que tivesse sido amado por uma Calhoun a que tambm tivesse sido amado.
Inclusive com a coincidncia dos ces, no estava de todo seguro de acredit-lo. Holt no tinha conhecido  sua av, mas seu av tinha sido uma figura intrpida e misteriosa que tinha viajado pelo estrangeiro e retornado com histrias fabulosas. Tinha sido o homem capaz de realizar magia com um tecido e um pincel.
De menino recordava subir as escadas at o estudio para ver trabalhar o homem alto com o cabelo branco como a neve. Entretanto, parecia  mais um combate que um trabalho. Um duelo elegante e apaixonado entre seu av e o tecido.
O jovem e o ancio tinham dado longos passeios pela praia e as rochas. Pelos penhascos. Com um suspiro, reclinou-se. Muito freqentemente tinham chegado at debaixo Das Torres. Em uma ocasio se sentaram sobre as rochas e seu av lhe tinha contado uma histria sobre o castelo no alto dos penhascos e a princesa que tinha vivido ali.
Perguntou-se se teria estado falando sobre As Torres e Bianca.
Inquieto, levantou-se para entrar. Sadie ergueu a vista, e ao fechar a porta mosqueteira voltou a acomodar a cabea sobre as patas dianteiras.
A cabana se adaptava a ele muito mais que o lar no que tinha crescido. Este tinha sido um lugar sem alma, de linleo gasto e paredes de frisos escuros. Tinha-o vendido  morte de sua me, trs anos atrs. Fazia pouco tinha empregado os benefcios para realizar algumas reparaes e modernizao da cabana, embora preferia mant-la quase tal como tinha estado em poca de seu av.
Era uma casa quadrada, com paredes de estuque e chos de madeira. Tinha limpado a chamin de pedra original, e estava ansioso para que chegasse a primeira noite fria para que pudesse experiment-la.
O dormitrio era diminuto, quase uma idia tardia que se sobressaa da estrutura principal. Tinha reforado a escada que conduzia ao estudio de seu av, igualmente ao corrimo que bordeaba o terrao aberto. Subiu nesse momento para contemplar o amplo espao iluminado somente pela luz do crepsculo.
De vez em quando pensava em pr clarabias no teto, mas em nenhum momento pensou em voltar a polir o cho. A velha e escura madeira estava salpicada com pintura que tinha jorrado da paleta ou o pincel. Havia nervuras de carmesim e turquesa, gotas de verde esmeralda e amarelo canrio. Seu av tinha preferido o vivido, apaixonado-o, inclusive o violento em sua obra.
Contra a parede se empilhavam leos, o legado de um homem que em seus ltimos anos tinha comeado a encontrar xito financeiro e da crtica. Sabia que lhe reportariam uma boa soma. Mas assim como nunca tinha pensado em eliminar a pintura do cho, tampouco lhe tinha passado pela cabea desprender-se dessa parte de sua herana.
Ficou no estdio para inspecionar os quadros. Conhecia-os todos, tinha-os estudado em inumerveis vezes, perguntando-se como podia descender de um homem com semelhante viso e talento. Girou o retrato, sabendo bem que esse era o motivo pelo que tinha subido.
A mulher era to linda como um sonho...com o rosto ovalado de feies delicadas, a pele de alabastro. O cabelo vermelho dourado estava preso para exibir um pescoo gracioso. Os lbios cheios e suaves estavam curvados em um sorriso leve. Mas foram os olhos os que o atraram, como sempre. Eram verdes como um mar brumoso. Hipnotizava-o a emoo que a habilidade de seu av tinha capturado ali.
Semelhante tristeza serena e dor interior. Era quase doloroso de contemplar, pois se demorava um pouco na contemplao podia quase sentir. Nesse mesmo dia tinha visto a mesma expresso nos olhos da Suzanna.
Perguntou-se se a mulher do quadro seria Bianca. Tinham parecido na forma do rosto, na curva da boca. A cor do cabelo no se assemelhava em nada e as similitudes eram leves. Salvo os olhos. Quando os olhava, pensava em Suzanna.
Levantou-se, mas no girou o quadro para que ficasse para a parede. Permaneceu ali de p, contemplando-o um longo momento, perguntando-se se seu av tinha amado  mulher que tinha pintado.


Suzanna pensou que ia ser outro dia de calor. Embora faltasse pouco para as sete, o ar estava pegajoso. Precisavam de chuva, mas a umidade flutuava no ar e com obstinao se negava a cair.
No interior de sua loja, conferiu os botes refrigerados e deixou uma nota para Carolanne para que vendesse o estoque de cravos colocando-os em oferta.
s sete e meia conferia os botes na estufa, feliz de que o inventrio estivesse diminuindo. s oito teria carregada a caminhonete e ia de caminho ao Seal Harbor. Ali a esperava um dia completo de trabalho em uma casa de recente construo. Os compradores eram de Boston, e queriam que sua casa de vero tivesse um quintal estruturado, completo com arbustos, rvores e flores.
Sabia que seria um trabalho caloroso e suarento. Mas tambm estaria tranqila. Os Anderson se encontravam em Boston essa semana, assim disporia do ptio para ela apenas. Adorava trabalhar com terra e coisas vivas, cuidando de algo que ela mesma tinha plantado.
"Igual a meus filhos", pensou com um sorriso. Seus pequenos. Cada vez que os agasalhava de noite ou os via correr sob o sol, sabia que nada do que lhe tivesse passado com antes, nada do que fosse passar no futuro, apagaria o resplendor de jbilo de saber que eram deles.
O fracasso de seu matrimnio tinha sacudido seus alicerces, e havia ocasies em que at experimentava dvidas terrveis sobre si mesma, como mulher. Mas no como me. Seus filhos tinham o melhor que ela podia lhes dar. O vnculo sustentava a ambas as partes.
Nos ltimos dois anos tinha comeado a acreditar que poderia ter xito no negcio. Sua habilidade com a jardinagem tinha sido sua salvao nos ltimos meses de seu fracassado matrimnio. Desesperada, tinha vendido as jias e pedido um emprstimo para lanar-se a Jardins da Ilha.
Tinha-lhe feito bem poder utilizar seu nome de solteira. O primeiro ano do negcio tinha sido duro, em especial porque no tinha deixado de investir cada centavo em pagar faturas legais do julgamento pela custdia dos meninos.
Pensar que poderia hav-los perdido ainda lhe gelava o sangue.
Bax no os tinha querido, mas tinha desejado lhe dificultar as coisas. Uma vez que tudo terminou, Suzanna tinha perdido sete quilos, inumerveis horas de sono e ficado endividada at o pescoo. Mas tinha  seus filhos. Tinha ganho a feia batalha e o preo no significava nada.
Pouco a pouco ia se recuperando. Tinha recuperado alguns quilos, algumas horas de sono e de forma meticulosa e lenta pagava suas dvidas. Nos dois anos transcorridos desde que abriu o negcio, ganhou uma reputao de mulher confivel, razovel e imaginativa. Dois dos hotis de temporada tinham provado seus servios e parecia que queriam negociar contratos a longo prazo.
Isso significaria comprar outra caminhonete e contratar pessoal a jornada completa. E possivelmente, poder realizar aquela viajem ao Disney World.
Subiu pela entrada de veculos da bonita casa de Cape Cod. Recordou-se que era hora de  trabalhar.
O terreno abrangia aproximadamente meio acre. Tinha mantido trs reunies minuciosas com os donos para determinar o plano a seguir. A senhora Anderson queria muitas rvores com flores e arbustos, e o fator de intimidade a longo prazo que proporcionavam as flores de folha perenes. Desejava desfrutar de um ptio que requeresse poucos cuidados e estivesse cheio de cor. No queria passar os veres cuidando das flores, em especial na parte lateral, que teria uma inclinao mais pronunciada.
Ao meio dia, j tinha marcada cada zona com estacas e cordas. Tinha plantado as robustas azleas. O atalho de pedra estava flanqueado por duas roseiras que j tinham comeado a adoar o ar. Como a senhora Anderson tinha manifestado sua predileo pelas lils, colocou um trio de flores compactas perto da janela do dormitrio principal, onde a brisa da prxima primavera introduziria os aromas no interior.
O ptio comeava a ganhar vida. Ajudou-a a relaxar os msculos doloridos dos braos enquanto regava as flores novas. Os pssaros cantavam e em alguma parte na distncia prxima soava uma gaivota.
Algum dia passaria por ali e saberia que tinha sido parte de tanto cor. Era importante, mas do que podia lhe reconhecer a ningum, que deixasse um rastro. Precisava recordar-se que no era a mulher fraca e intil que com indiferena tinham colocado de lado.
Suada, recolheu a garrafa de gua e a p e se dirigiu  parte dianteira da casa. Tinha plantado a primeira amendoeira em flor e cavava o buraco para o segundo quando um carro estacionou detrs de sua caminhonete. Apoiou-se na p e observou Holt descer do veculo.
Soltou o ar, aborrecida porque tinha invadido sua solido, e voltou a cavar.
-Saiu para dar um passeio? -perguntou quando a sombra dele a cobriu.
-No, a garota na loja me disse onde te encontrar. Que demnios est fazendo?
-Trabalhando -tirou mais terra-. Que quer?
-Largue essa p antes que se machuque. No deveria estar escavando.
- meu trabalho...mais ou menos. Repito, Que quer?
Observou-a cavar outros dez segundos antes de lhe arrebatar a p.
-Me d essa maldita coisa e sente-se.
A pacincia sempre tinha sido uma das caractersticas de Suzanna, embora nesse momento lhe custasse encontr-la, ajustou-se a viseira do bon.
-Sigo um plano bem esboado, faltam seis rvores, duas roseiras e uns setenta metros quadrados de terreno que plantar. Se tiver algo que dizer, bem. Fala enquanto trabalho.
Holt ps a p fora de seu alcance.
-Que profundidade quer? -ela arqueou uma sobrancelha-. Me refiro ao buraco.
Olhou-o de acima a abaixo.
-Diria que pouco mais de um metro oitenta bastaria para te enterrar nele -a surpreendeu com um sorriso.
-E pensar que estava acostumado a ser to doce -comeou a escavar-. Simplesmente me diga quando parar.
Pelo geral ela devolvia amabilidade com amabilidade. Mas ia fazer uma exceo.
-Pode parar agora mesmo, no preciso de ajuda. E no quero a companhia.
-No sabia que era teimosa -ergueu a vista enquanto tirava terra-notou que ela estava acalorada e tinha sombras de fadiga sob os olhos. Irritou-o muito-. Acreditava que vendia flores.
-Vendo-as. E tambm as planto.
-At eu sei que essa coisa  uma rvore.
-Tambm as planto -rendendo-se, tirou um leno e comeou a secar o pescoo-. O buraco tem que ser mais largo, no mais profundo.
Moveu-se um pouco para agrad-la. Considerou que possivelmente devia reavali-la.
-Como  que no h ningum que faa o trabalho duro por voc?
-Porque eu posso faz-lo.
"Sim, havia teimosia no tom, e um leve deixa desagradvel". Gostou mais.
-Me d a impresso de que  um trabalho para duas pessoas.
--mas a outra pessoa se foi ontem para ser uma estrela de rock. Seu grupo tinha uma atuao em Brighton Beach. Mmm. Est bom -indicou, e se voltou para levantar pelas razes uma rvore de um metro. Enquanto Holt a observava carrancudo, elevou-a e cuidando o introduziu no buraco.
-Suponho que agora ter que preench-lo.
-Voc tem a p -assinalou. Enquanto ele trabalhava, Suzanna aproximou com uma bolsa de turfa que comeou a mesclar com a terra.
Enquanto ela colocava os dedos na terra, Holt notou que suas unhas eram curtas e arredondadas. No levava nenhum anel de matrimnio. De fato, no levava nenhuma jia, embora fossem mos feitas para ostentar coisas belas.
Suzanna trabalhou com pacincia e a cabea encurvada, oculta sob a bon. Ele pde lhe ver a nuca e se perguntou o que sentiria ao apoiar os lbios ali. Nesse momento teria a pele ardente, alm de mida. Ento ela se levamtou e ligou a mangueira do jardim para limpar terra.
-Faz isto diariamente? 
-Tento estar um ou dois dias na loja. Ali posso ter os meninos comigo -firmou a terra. Quando a rvore ficou segua, com movimentos experientes estendeu uma camada grosa de adubo-. Na primavera prxima isto se achar cheio de flores -passou o dorso da mo pela fronte. O pequeno col que usava exibia uma linha de suor nas partes dianteira e traseira que s realava sua frgil compleio-. Eu tenho uma tarefa a seguir de verdade, Holt. Tenho que plantar alguns lamos e pinheiros brancos na parte de trs, de modo que se tiver que falar comigo, dever me acompanhar.
-Fez isto hoje? -olhou ao redor do ptio.
-Sim. Que te parece?
-Acredito que vai sofrer uma insolao.
-Agradeo a avaliao mdica -apoiou uma mo na p, mas ele no a soltou-. Preciso dela.
-Eu a levarei.
-Bem -carregou as bolsas de turfa e adubo em um carrinho de mo.
Ele soltou um palavro, jogou a p em cima das bolsas e a fez chegar para um lado para levantar o carrinho de mo e empreender a marcha.
-Em que parte de trs?
-Junto s estacas que h perto das cercas -o seguiu carrancuda.
Holt comeou ento a escavar sem consult-la, de modo que ela se dedicou a esvaziar o carrinho de mo e logo foi  caminhonete. Quando ele ergueu a vista, viu-a tirar outras duas rvores. Plantaram o primeiro juntos e em silncio.
Holt no tinha imaginado que colocar uma rvore na terra pudesse ser um trabalho que relaxasse. Mas quando se ergueu sob o sol deslumbrante, sentia-se apaziguado.
-Pensava no que disse ontem -comeou quando punham a segunda rvore em seu oco.
-E?
Quis soltar uma maldio. Havia tanta pacincia nessa nica palavra, como se em todo momento ela tivesse sabido que ia chegar  ao tema.
-E ainda acredito que no h nada que eu possa, ou queira, fazer, mas possivelmente tenha razo a respeito da conexo.
-Sei que tenho razo -se limpou a turfa das mos nos jeans-. Se tiver vindo at aqui para me dizer isso, desperdiou uma viagem -levou o carrinho de mo vazio at a caminhonete. Estava a ponto de baixar as seguintes duas rvores quando ele subiu ao veculo para ficar ao seu lado.
-Eu descerei as malditas rvores -balbuciando, encheu o carrinho de mo e a levou outra vez at a parte de trs do ptio-.Vov jamais o mencionou. Possivelmente a conhecesse, possivelmente tivessem uma aventura, embora no vejo no que possa te ajudar isso.
-Amava-a -comentou Suzanna enquanto recolhia a p para escavar-. Isso significa que ele sabia como sentia e pensava ela. Talvez tivesse uma idia de onde teria escondido as esmeraldas.
-Est morto.
-Sei -permaneceu um momento em silncio enquanto trabalhava-. Bianca tinha um dirio...ao menos estamos quase seguros que tinha, e de que o escondeu com o colar. Possivelmente Christian tambm tivesse um.
-Jamais o vi -irritado, agarrou outra vez a p.
Ela conteve o impulso de lhe responder. Sem importar o muito que pudesse irrit-la, possivelmente Holt fosse um elo.
-Imagino que quase toda as pessoas guarda um diario particular em um lugar privado. Ou possivelmente tenha guardado algumas cartas dela. Encontramos uma que Bianca lhe escreveu e que jamais pde lhe enviar.
-Persegue moinhos de vento, Suzanna.
-Isto  importante para minha famlia -introduziu com cuidado um pinheiro branco no buraco-. No  pelo valor monetrio das esmeraldas.  pelo que significavam para ela.
Ele a observou trabalhar, as mos competentes e delicadas, os ombros assombrosamente fortes. A suave curva do pescoo.
-Como pode saber o que significaram para ela?
-No conseguiria explicar-lhe o de nenhum modo que pudesse entender ou aceitar -respondeu sem erguer a vista.
-Tente.
-Ao parecer todas temos uma espcie de vnculo com ela...em especial Lilah -no levantou os olhos quando o ouviu cavar o seguinte buraco-. Nunca vimos as esmeraldas, nem sequer em fotografia. Depois de que Bianca morrera, Fergus, meu bisav, destruiu todas as fotos dela. Mas Lilah...uma noite fez um desenho das pedras. Foi depois de que realizamos uma sesso esprita -levantou a cabea e captou sua expresso de divertida incredulidade-. Sei como soa -manifestou com voz rgida e  defensiva-. Mas minha tia acredita nesse tipo de coisas. E depois daquela noite, acredito que com razo. Minha irm menor, C.C., teve uma...experincia durante a sesso. Viu as esmeraldas. Foi nesse momento quando Lilah riscou o esboo. Semanas mais tarde, o noivo do Lilah encontrou uma foto das esmeraldas em um livro na biblioteca. Eram exatamente como Lilah as tinha desenhado, iguais que como as tinha visto C.C.
Enquanto colocava em seu lugar a seguinte rvore, ele no disse nada.
-No me interessa muito o misticismo. Possivelmente uma de suas irms tenha visto a foto antes e se esqueceu.
-Se alguma de ns tivesse visto uma foto, no o teramos esquecido. No obstante, a questo  que todas ns consideramos que  importante encontrar as esmeraldas.
-Pode ser que foram vendidas, faz oitenta anos.
-No. No encontramos nenhum registro disso. Fergus era um manaco na ordem de suas finanas -inconscientemente arqueou as costas e girou os ombros para aliviar a dor-.Acredite, repassamos cada fragmento de papel que encontramos.
Holt o deixou acontecer e ruminou a questo enquanto plantavam o ltima das rvores.
-Conhece o ditado "encontrar uma agulha em um palheiro"? -perguntou enquanto a ajudava a espalhar o adubo-. Geralmente a gente no encontra a agulha.
-Encontrariam-na se continuassem procurando -curiosa, apoiou-se nos tales e o estudou-. No acredita na esperana?
Estava o bastante perto para toc-la, para lhe tirar a terra da bochecha ou lhe acariciar. No fez nada disso.
-No, s acredito no que .
-Ento o sinto por voc -se levantaram juntos e seus corpos quase se roaram. Suzanna sentiu algo pela pele, algo que correu por seu sangue, e automaticamente retrocedeu-. Se no acredita no que poderia ser, no tem nenhum sentido plantar rvores, ter filhos ou inclusive ver o por do sol.
Ele tambm o havia sentido. E lamentou e temeu tanto como ela.
-Se no manter um olho sobre o que  real, o que est agora, termina passando toda a vida em um sonho. Eu no acredito no colar, Suzanna, nem em fantasmas, tampouco no amor eterno. Mas se alguma vez tenho a certeza de que meu av esteve relacionado com a Bianca Calhoun, farei o que possa para te ajudar.
-No acredita na esperana ou no amor, e ao 	que parece me nada mais -emitiu uma risada seca-. Por que aceitaria nos ajudar?
-Porque se ele a amou, teria querido que o fizesse -se inclinou para recolher a p e entregar - Tenho coisas que fazer.






Captulo 3

Suzanna se sentiu feliz de ver lotado o estacionamento da loja. Algumas pessoas olhavam as flores anuais enquanto um casal jovem deliberava sobre as rosas. Uma mulher com um embarao enorme dava voltas com algumas vasos de barro mistos. O pequeno que ia a seu lado sustentava um gernio como se fora uma bandeira.
Carolanne fechava uma venda e paquerava um jovem que sustentava uma urna de cermica com umas begnias rosas.
-A sua me vo adorar -comentou enquanto agitava suas pestanas largas-. No h nada como as flores para um aniversrio. Ou qualquer ocasio. Temos os cravos em oferta -sorriu e se afastou o cabelo castanho da face-. Se por acaso tem namorada.
-Bom, no... -pigarreou-. Na realidade ..no momento no.
-OH -o sorriso subiu vrios graus de calidez-.  uma pena -lhe entregou a compra-. Venha quando quiser. Geralmente me encontrar aqui.
-Claro. Obrigado -olhou por cima do ombro, virou-se e esteve de se chocar com a Suzanna-. OH, sinto muito.
-No foi nada. Espero que sua me goste -rindo, reuniu-se com sua coquete empregada no caixa-.  assombrosa.
-No era um tesouro? Eu adoro quando se ruborizam. Bom -sorriu para Suzanna-. Voltou cedo.
-No demorei tanto como tinha pensado -no considerou necessrio acrescentar que tinha recebido uma ajuda inesperada e no desejada. Carolanne era uma trabalhadora estupenda, uma hbil vendedora e uma consumada fofoqueira-. Como vai tudo por aqui?
-Em andamento. Todo este sol deve estar inspirando s pessoas a renovar o jardim. OH, voltou a senhora Russ. Gostou tanto dos narcisistas, que fez que seu marido lhe abrisse outra janela para poder comprar mais. Como estava predisposta, vendi-lhe dois hibiscos... e dois desses vasos de barro de terracota para plant-los.
-A senhora Russ te adora e o senhor Russ vai aprender a te odiar. -Carolanne riu e ela olhou atravs dos vidros-. Irei ver se posso ajudar aquelas pessoas a decidir que rosas querem.
-So o senhor e a senhora Halley. Acabam de casar-se, os dois so garons em Capito Jack e acabam de comprar uma casinha. Ele estuda para ser engenheiro e em setembro ela vai comear a ensinar na escola primria.
-Como falei,  assombrosa -riu Suzanna, movendo a cabea.
-No, s curiosa -Carolanne sorriu-. Alm disso, as pessoas compram mais quando a gente conversa. E sabe que eu adoro falar.
-Do contrrio, teria que fechar a loja.
-Trabalharia o dobro, se isso fosse possvel -agitou uma mo sem deixar que Suzanna protestasse-. Antes de que v, estive perguntando por a para ver se algum necessitava um trabalho a tempo parcial. Ainda no houve sorte.
Suzanna pensou que no tinha sentido queixar-se.
-A temporada est muito em cima e todo mundo j est trabalhando.
-Se Tommy o louco Parotti no tivesse abandonado a nave...
-Querida, teve a oportunidade de fazer algo que sempre havia querido. No podemos culp-lo por isso.
-Voc no -murmurou Carolanne-. Suzanna, no pode continuar fazendo todo o trabalho de campo.  muito duro.
-Vamos arrumando -respondeu distrada, pensando na ajuda que tinha tido aquele dia-. Escuta, Carolanne, depois de nos ocupar destes clientes, tenho que realizar outra entrega. Poder se  encarregar de tudo at o fechamento?
-Claro -suspirou-. Eu tenho um banco e um ventilador,  voc a que dirige a cavulcadeira e a p.
Uma hora mais tarde, detinha-se ante a cabana do Holt. "No  s um impulso", disse-se. E tampouco porque queria pression-lo. E sob nenhum conceito porque desejasse sua companhia. Mas era uma Calhoun, e os Calhoun sempre pagavam suas dvidas.
Dirigiu-se aos degraus que davam ao alpendre, e de novo pensou que era um lugar precioso. Faltavam-lhe uns pequenos toques... uma trepadeira pelo corrimo, uns leitos de aquilinas e begonias, com um pouco de petunias e lavandas.
Poderia ser como uma cabana de contos de fadas... mas o homem que vivia nela no acreditava nos contos de fadas.
Bateu na porta, notou que o carro estava ali. Igual a antes, rodeou a casa, mas nesta ocasio Holt no estava no navio. Encolheu os ombros e decidiu que faria aquilo para o que tinha ido.
J tinha escolhido o lugar, entre a gua e a casa, onde poderia ver os arbusto e desfrutar da vista no que ela achava ser a janela da cozinha. No era muito, mas acrescentaria um pouco de cor ao vazio ptio de trs. Desceu o que necessitava e comeou a cavar na terra.
Dentro de seu abrigo de trabalho, Holt desmontou o motor do navio. Reconstrui-lo requereria concentrao e tempo. Justo o que ele necessitava. No desejava pensar nos Calhoun, em relaes amorosas trgicas ou em responsabilidades.
Nem sequer ergueu a vista quando Sadie se levantou de sua cesta sobre o fresco cimento para trotar para fora. A cadela e ele tinham um pacto. Ela fazia o que gostava e ele a alimentava.
Mesmo ouvindo-a latir continuou trabalhando. Como co de guarda, Sadie era um fiasco. Ladrava para os esquilos, o vento na grama, e tambm em sonhos. Um ano antes tinham tentado roubar sua casa em Portland. Holt tinha impedido que o ladro levasse sua equipamento de msica enquanto Sadie dormia tranqila no tapete do salo.
Mas levantou a cabea e deixou de trabalhar quando ouviu a risada feminina e rouca. Percorreu-lhe a pele, ligeira e clida. Ao afastar do banco de trabalho, j sentia um n no estmago. Ao plantar-se na porta e olh-la, o n se esticou.
"Por que no quer me deixar em paz?", perguntou-se, colocando as mos nos bolsos. "Acaso no lhe disse o que pensava?". No tinha nada que fazer ali.
Nem sequer combinavam. Fosse o que fosse o que Suzanna lhe provocava fisicamente, era seu prprio problema, e at o momento tinha conseguido manter as mos longe dela.
Mas ali estava, de p em seu ptio, falando com seu co. E escavando um buraco.
-Que diabos faz? -perguntou carrancudo ao cruzar a soleira.
Ela levantou a cabea. Holt viu seus olhos, grandes, azuis e alarmados. A face, acalorada pela temperatura e o esforo, ficou muito plida. Ele j tinha visto essa expresso... o medo rpido e instintivo de uma vtima encurralada. Desapareceu com tanta rapidez que quase se convenceu de que  tinha imaginado. A cor retornou s bochechas dela quando conseguiu sorrir.
-Pensei que no estava.
-Assim decidiu abrir um buraco em meu ptio -perguntou sem deixar de franzir o cenho.
-Suponho que se poderia dizer isso -irritada consigo mesma pelo sobressalto instintivo, voltou a aprofundar o buraco com a p-. Lhe trouxe umas mudas.
Nessa ocasio no pensava lhe tirar a p das mos para escavar ele mesmo o buraco. Mas sim andou at situar-se a seu lado.
-Por que?
-Gostaria de agradecer a ajuda que voc me deu hoje. Economizou-me mais de uma hora.
-E decidiu agradecer cavando mais um buraco.
-Mmm. A brisa sopra da gua - ela elevou o rosto-.  agradvel.
Olha-l provocava suor nas Palmas das mos, baixou a vista ao arbusto cheio de flores amarelas.
-No sei como cuidar de uma planta. Se a puser a, vai condenar a morte.
-No tem que fazer grande coisa -riu-. Esta  bastante robusta, inclusive quando est seca, e florescer para voc na primavera. Posso usar sua mangueira?
-O que?
-Sua mangueira?
-Sim. No tinha nem idia de como se supunha que devia reagir. Certamente, era a primeira vez que algum lhe dava flores de presente... a menos que contasse o buque que lhe levaram os companheiros da delegacia de polcia quando esteve internado no hospital-. Claro.
Relaxada com sua tarefa, ela continuou falando enquanto ele ia at aparde de fora e pegava o mangueira.
- ue arbusto que no alcanara mais que um  metro de altura -acariciou a cabea do Sadie, que dava voltas em torno da planta-. Se preferir alguma outra coisa...
-No me importa -no ia se comover por uma planta idiota ou a gratido desconjurada dela-. No saberia reconhecer um arbusto de outro.
-Bom, este  um hypericum kalmianum.
-Isso me explica muito -moveu os lbios no que poderia ter sido um sorriso.
- uma planta de sol -riu baixinho enquanto a colocava em seu lugar. Sem deixar de sorrir, inclinou a cabea para olh-lo. Pelo jeito que ele estava, parecia estar morto de calor.-. Pensei que te faria bem um pouco de cor. Por que no me ajuda a plant-la? Dessa maneira significar mais para voc.
-Est segura de que no se trata de um suborno? -havia dito que no se deixaria comover e pensava cumpri-lo-. Para que te ajude?
-Pergunto-me o que faz que uma pessoa seja to cnica e pouco amigvel -suspirou e se apoiou sobre os joelhos-. Estou segura de que tem seus motivos, mas aqui esto fora de lugar. Hoje me fez um favor e eu lhe devolvo isso. Assim simples. Se no quer o arbusto, diga-me , eu o darei a outra pessoa.
- assim que  mantm a raia a seus filhos? -arqueou uma sobrancelha ante o tom empregado por ela.
-Quando  necessrio. Bom, o que vai ser?
Possivelmente fosse muito duro com ela. Fazia um gesto e o rechaava. Se ela podia mostrar-se amigvel, ele tambm podia.
-O buraco j esta bom -se ajoelhou junto  Suzanna. O co se tombou ao sol para observar-. Bem podemos pr algo dentro.
-Perfeito -imaginou que esse era o que Holt considerava um agradecimento.
-Quantos anos tm seus filhos? -disse-se que se no era importante. S  perguntava para comear uma conversao amigvel.
-Cinco e seis. Alex  o maior, logo vem Jenny -seus olhos se suavizaram ao pensar neles-. Crescem to depressa que logo no conseguirei seguir o ritmo deles.
-O que a fez voltar aqui depois do divrcio?
As mos dela se esticaram na terra, logo voltaram a trabalhar. Foi um gesto leve e rapidamente oculto, mas Holt tinha olhos muito penetrantes.
-Porque aqui est meu lar.
Ele compreendeu que se tratava de um ponto delicado.
-Ouvi que vo transformar As Torres em um hotel.
-S a ala oeste.  o negcio do marido de C.C.
-Acho difcil imaginar  C.C. casada. A ltima vez que a vi devia ter doze anos.
-J cresceu, e  uma mulher bonita.
-Parece que  de famlia.
Ela ergueu a vista surpreendida, para voltar a baix-la.
-Acredito que acaba de dizer algo agradvel.
-Constato um fato. As irms Calhoun sempre mereceram uma segunda olhada . Sempre que os meninos se reuniam, as quatro terminavam sendo tema de conversao.
-Estou segura de que nos haveramos sentido lisonjeadas -riu um pouco e pensou em quo fcil tinha sido a vida ento.
-Estava acostumado a olh-la -exps Holt devagar-. Muito.
-De verdade? -precavida, levantou a cabea -. Nunca percebi.
- normal -deixou cair a mo-. As princesas no prestam ateno nos plebeus.
-Isso  ridculo -franziu o cenho, no s pelas palavras, mas sim pelo tom seco dele.
-Era mais simples pensar em voc dessa maneira... a princesa no castelo.
-Um castelo h anos vem desabando -afirmou-. E se no me falhe a memria, estava muito ocupado paquerando as garotas para se haver olhado para mim.
-OH, entre paqueras -teve que sorrir-, olhava para voc.
Algo nos olhos de Holt ativou um pequeno alarme. Fazia tempo que no ouvia esse som em particular, mas o reconhecia e dava ateno a ele. Voltou a baixar a vista para aplanar a terra ao redor do arbusto.
-Foi a muito tempo. Imagino que tenhamos mudado bastante.
-No posso discutir isso -empurrou terra.
-No, no empurre, aperte... com firmeza e suavidade -se aproximou e colocou as mos sobre as dele para lhe ensinar-. S falta... -calou quando Holt girou as mos para agarrar as suas.
Achavam-se prximos; os joelhos se roavam e os torsos se buscavam. Ele notou que as mos de Suzanna eram duras, com calos, um contraste direto e fascinante com os olhos suaves e a pele de porcelana. Havia uma fora em seus dedos que o teria surpreendido a no ser tivesse visto por si mesmo quo duro trabalhava. Por motivos que no conseguiu entender, isso lhe era incrivelmente ertico.
-Tem mos fortes, Suzanna.
-Mos de jardineira -comentou, tratando de manter seco o tom de voz-. E as necessito para terminar de plantar o arbusto.
Apertou mais quando ela tentou soltar-se.
-J nos ocuparemos disso. Sabe? Levo quinze anos pensando em beij-la -viu como o sorriso dela se desvanecia e uma expresso de alarme se apoderava de seus olhos. No lhe importou. Poderia ser melhor para ambos se perdesse medo-.  muito tempo para pensar em algo -lhe soltou uma mo, mas antes de que ela pudesse suspirar aliviada, tinha-lhe tomado a nuca com dedos firmes e decididos.
Ela no disps de tempo para recha-lo. Holt foi rpido. antes de que pudesse negar-se ou protestar, sentiu sua boca nos lbios, cobrindo-lhe e conquistando. No tinha nada de suave. A boca, as mos, o corpo quando a segurou contra ele, tudo era duro e exigente. Tentou interpor uma mo entre os dois, mas foi como querer mover uma rocha.
Mas ento o medo se transformou em desejo. Fechou a mo e se obrigou a lutar contra si mesmo, no contra Holt.
Estava tensa como um cabo. Ele pde sentir os nervos dela crepitar e romper-se ao pression-la a seu corpo. Sabia que era maldade, que era injusto, inclusive desprezvel, mas precisava rancar essa febre que no parava de arder nele. Precisava convencer-se de que no era nada mais que uma mulher, que as fantasias que tinha sobre ela no eram outra coisa que os restos dos sonhos tolos de um jovem.
Ento ela experimentou um calafrio, seguido de um som suave de entrega. E entreabriu os lbios sob os de Holt, em convite irresistvel e vido. Amaldioando, lhe jogou a cabea atrs e mergulhou em suas profundezas, para poder tomar mais do que Suzanna oferecia sem esforo.
A boca dela era um banquete, e ele estava muito faminto para conter a cobia. Cheirava seu cabelo, fresco como a gua de chuva, sua pele, acesa pelo trabalho, e a rica e primitiva fragrncia da terra arada.
Suzanna no podia respirar, nem pensar. Todas as preocupaes srias se desvaneceram. Em seu lugar surgiram umas sensaes inomeveis. Os msculos tensos de Holt sob seus dedos, o sabor quente e desesperado da boca dele, o trovo de seus prprios batimentos do corao que corriam a uma velocidade vertiginosa. Nesse momento o rodeava com seus braos, cravava-lhe os dedos e sua boca era to urgente e impaciente quanto a dele.
Fazia tanto tempo que no a tocavam. Tanto tempo que no provava o desejo de um homem em seus lbios. Tanto desde que tinha desejado  um homem... Mas nesse instante queria sentir as mos dele, speras e exigentes, cobrindo-lhe o corpo sobre a grama suave e ensolarada. Ser selvagem e luxuriosa at mitigar esse desejo que a consumia.
Sentiu que o poder desse desejo a percorria e saa de seus lbios em um gemido mido.
Os dedos dele se achavam fechados sobre a camiseta de Suzanna, quase a tinha quebrado antes de conter-se e amaldioar-se. E solt-la. A respirao entrecortada dela era ao mesmo tempo uma condenao e uma seduo. Os olhos de Suzanna tinham adquirido uma tonalidade cobalto e estavam muito abertos pela comoo.
"No sente saudades", pensou cheio de desprezo para si mesmo. Tinha-a esmagado contra a terra e a ponto tinha estado de possui-la a plena luz.
-Espero que agora se sinta melhor -ela baixou as pestanas antes que ele pudesse ver a vergonha.
-No -tinha as mos to inseguras que as fechou-. No  assim.
Ela no o olhou, no foi capaz. Tampouco pde permitir o luxo de pensar no que tinha feito. Para consolar-se, comeou a estender turfa ao redor do arbusto recm plantado.
-Se ficar seco, ter que reg-lo com regularidade at que se assente.
Pela segunda vez, tomou as mos. Nessa ocasio ela se sobressaltou.
-No vai me bater?
Ela se obrigou a relaxar e levantou o olhar. Em seus olhos havia algo escuro e apaixonado, mas sua voz soou muito serena.
-No teria muito sentido. Estou segura de que  da opinio de que uma mulher como eu estaria... necessitada.
-No pensava em suas necessidades quando a beijei. Foi um ato puramente egosta, Suzanna. O egoismo cai bem em mim.
-Tenho certeza que sim -como a segurava com suavidade, conseguiu soltar-se. passou-se as palmas das mos pelos jeans antes de levantar-se. Quo nico tinha na cabea era correr, mas se obrigou a carregar o carrinho de mo com calma. At que lhe agarrou o brao e a obrigou a virar-se.
-Que diabos  isto? -em sua voz bulia a tormenta e era to spera como suas mos. Queria que lhe gritasse... necessitava-o para aplacar a conscincia-. Virtualmente te possu na terra, sem me importar se voc gostasse ou no, e agora pensa em carregar seu carrinho de mo e ir ?
Suzanna temia muito ter gostado de tudo aquilo. Por isso era imperativo que mantiversse a calma e o controle.
-Se quer ter uma briga ou uma amante casual, Holt, recorreu  pessoa equivocada. Meus filhos me esperam em casa, e j estou cansada de ser arranca-rabo.
"Sua voz estava serena", pensou ele, "inclusive firme, mas o brao tremia um pouco". Compreendeu que ali havia algo, alguns segredos que guardava atrs desses olhos tristes e belos. A mesma teimosia que o tinha impulsionado a atravessar seu escudo dourado fazia que fosse essencial que os descobrisse.
-Arranca-rabo em geral ou s por mim?
- voc quem me est agarrando -comeava a esgotar-se a pacincia-. Eu no gosto.
- uma pena, porque tenho a impresso de que o voltarei a fazer antes de que tenhamos acabado.
-Possivelmente no me expliquei. Acabamos -se soltou e pegou o carrinho de mo.
-Agora comea a ficar furiosa -sorriu devagar e paralisou o carrinho de mo pondo todo seu peso sobre ela. No estava seguro se Suzanna compreendia que acabava de lanar um desafio irresistvel.
-Sim. Sente-se melhor?
-. Prefiro que tente arrancar meus olhos do que v-la fugir como um pssaro ferido.
-No fujo -soltou com os dentes apertados-. Vou para minha casa.
-Esquece a p -comentou, ainda sorrindo. Ela a tirou e a jogou no carrinho de mo. Holt esperou at que avanou uns dez passos-. Suzanna.
-O que? -soltou por cima do ombro, sem deter-se.
-Lamento-o.
-Me deixe - encolheu os ombros e o mau humor se tornou menos denso.
-No -colocou as mos nos bolsos-. Lamento no t-la beijado assim h quinze anos.
Com uma praga contida, ela acelerou o passo. Quando a perdeu de vista, Holt observou a planta. Voltou a pensar que  lamentava, mas estava decidido a recuperar o tempo perdido.

Necessitava um pouco de tempo para si mesma. No era algo do que pudesse desfrutar com freqncia em uma casa to cheia de gente como As Torres. Mas nesse momento, com a lua alta e os meninos na cama, dispunha de uns alguns momentos.
Era uma noite limpa, e o calor do dia tinha sido substitudo por uma suave brisa impregnada com os aromas do mar e das rosas. Do seu terrao podia ver a sombra escura dos penhascos que sempre a atraam. O murmrio distante da gua era como uma cano de ninar, to doce como a chamada de um ave noturna do jardim.
Entretanto, essa noite no a ajudavam a dormir. Sem importar quo cansado tinha o corpo, sua mente se achava muito agitada. Suspirou e se obrigou a relaxar as mos. Se Holt no a tivesse zangado tanto. Desprezava perder os nervos, e aquele dia tinha estado perigosamente perto de faz-lo. E sabia que a culpa s era dela.
Necessidades. No queria necessitar de ningum apenas de sua famlia... essa famlia que podia amar, com a que podia contar e da que se preocupava. J tinha aprendido uma lio dolorosa sobre necessitar de um homem, um s homem. No tinha inteno de repeti-la.
Recordou-se que a tinha beijado por um impulso. Para ele no tinha sido mais que uma espcie de desafio. No ato no tinha existido afeto, nem suavidade nem romance. O fato de que a tivesse agitado era uma questo qumica. Levava mais de dois anos isolada dos homens. E o ltimo ano de seu matrimnio... bom, tampouco tinha existido afeto, suavidade ou romance. Tinha aprendido a prescindir dessas coisas no referente aos homens. Poderia seguir fazendo-o.
Se ao menos no tivesse respondido a seu contato de maneira to... descarada. Apesar da brutalidade mostrada pelo Holt, ela tinha se agarrado ao momento e respondido aos lbios duros com um ardor que jamais tinha sido capaz de mostrar a seu prprio marido.
E com isso unicamente tinha conseguido humilhar-se a si mesmo e divertir  Holt. E apesar disso ainda podia senti-lo. Embora possivelmente no teria que ser to dura consigo mesma. Apesar do muito que a envergonhava o momento, tinha provado algo. Continuava viva. No estava morta como Bax dizia. Podia sentir e desejar.
Fechou os olhos e levou uma mo ao estmago. Ao parecer desejava muito. Era como a fome, e o beijo, como um pedao de po depois de um comprido jejum, tinha revolto todos os sucos. Podia sentir-se satisfeita de ser capaz de sentir algo outra vez, alm do remorso e a desiluso. E ao senti-lo podia control-lo. O orgulho lhe impediria de esquivar ao Holt. Assim como a salvaria de qualquer nova humilhao.
Recordou-se que era uma Calhoun. As mulheres Calhoun brigavam. Se tinha que voltar a tratar com ele com o fim de ampliar o rastro das esmeraldas, poderia faz-lo. Nunca, jamais, permitiria que um homem voltasse a despreza-la e destrui-la.
-Suzanna, est ai?.
-Tia Cody -se voltou para ver sua tia atravessar as portas do terrao.
-Sinto muito, querida, mas me cansei de chamar. Como a luz estava acesa, apareci.
-Est bem -passou um brao pela cintura robusta de Cody. Era uma mulher a que tinha amado por quase toda sua vida. Uma mulher que tinha sido me e pai durante mais de quinze anos-. Suponho que eu estivesse perdida na noite.  to bonita.
Cody  concordou com um murmrio e no disse nada de momento. De todas as garotas, a que mais a preocupava era Suzanna. Tinha-a visto ir-se de casa, uma noiva jovem, radiante de esperana. Tinha estado presente quando quatro anos mais tarde retornou, uma mulher plida e devastada com dois meninos pequenos. Nos anos transcorridos aps, havia-se sentido orgulhosa de ver como voltava a levantar-se, dedicando-se  tarefa difcil de ser uma me s e trabalhar com afinco para estabelecer seu negcio.
E tinha esperado, com dor, que a expresso triste e perdida que nublava os olhos de sua sobrinha se desvanecesse para sempre.
-No conseguia  dormir? -perguntou-lhe Suzanna.
-Ainda nem me tinha passado pela cabea -Cody suspirou-. Essa mulher est me pondo louca.
Suzanna obteve no sorrir. Sabia que essa mulher era sua tia av Colleen, a mais velha dos filhos de Bianca e irm do pai de Cody. A mulher rabugenta, exigente e caprichosa havia chegado a  uma semana. Cody estava convencida que o nico objetivo que tinha era fazer maldade.
-Ouviu-a no jantar? -alta e majestosa com sua tnica, Cody ficou a ir de um lado a outro. Suas queixas soaram em um sussurro indignado. Colleen podia superar os oitenta anos e seu dormitrio estar situado a muitos metros, mas tinha ouvidos de gato-. "O molho est muito forte e os aspargos muito suaves". Se atrevou a me dizer como preparar o meu frango ao vinho... me deu vontade de lhe sentar com a bengala na cabea...
-O jantar estava magnfico, como sempre -apaziguou Suzanna-. Tinha que queixar-se de algo, tia Cody, do contrrio seu dia no teria sido completo. E se bem me recordo, no deixou nenhuma gota no prato.
- verdade -respirou fundo e soltou o ar devagar-. Sei que no deveria deixar que essa mulher me crispe os nervos. A verdade  que sempre me assustou muito. E ela sabe. Se no fosse pelo ioga e a meditao, estou segura de que j teria perdido a prudncia. Enquanto vivia em um desses cruzeiros, a nica coisa que tinha que fazer era lhe enviar uma carta de vez em quando. Mas viver sob o mesmo teto... -no pde evistar   experimentar um calafrio.
-No demorar para cansar-se de ns e partir de novo pelo Nilo, o Amazonas ou o que seja.
-Desejo que chegue esse dia. Temo-me que decidiu ficar at que encontremos as esmeraldas. O que me recorda o motivo de minha presena -se acalmou o suficiente para voltar a apoiar-se contra a parede-. Usava minha bola de cristal para meditar e tinha comeado a deixar ir quando uns pensamentos e imagens de Bianca encheram minha cabea.
-No me surpreende -interveio Suzanna-. Est na mente de todos.
-Mas isto foi muito forte, querida. Muito ntido. Havia tanta melancolia. Fez-me chorar -tirou um leno do bolso da tnica-. E de repente me pus a pensar em voc, com igual preciso e nitidez. A conexo entre a Bianca e voc era inconfundvel. Compreendi que devia haver um motivo e ao refletir acredito que tem que ver com o Holt Bradford -os olhos brilhavam de entusiasmo-. Acho que ao falar com ele fechou a distncia que separava  Bianca e  Christian.
-No acredito que possa considerar minha conversao com o Holt uma ponte.
-No, ele  a chave, Suzanna. Duvido que possa compreender a informao que possivelmente tenha, mas sem ele no podemos dar o seguinte passo. Estou convencida.
Com gesto inquieto, Suzanna se apoiou na parede.
-Seja o que for o que ele entenda, no est interessado.
-Ento dever convenc-lo do contrrio -tomou a mo de sua sobrinha e a apertou-. Precisamos dele. At que encontremos as esmeraldas, nenhum de ns se sentir completamente a salvo. A polcia no foi capaz de encontrar  aquele ladro miservel, e desconhecemos o que poder tentar a prxima vez. Holt  nosso nico vnculo com o homem ao que Bianca amou.
-Sei.
-Ento voltar a v-lo. Falar com ele.
Suzanna olhou em direo aos penhascos, para as sombras.
-Sim, voltarei a v-lo.

Sabia que voltaria. Sem importar o imprudente ou equivocado que pudesse ter sido isso, busquei-a cada tarde. Os dias que ela no aparecia nos penhascos, encontrava-me erguendo a vista s Torres, desejando a de um modo que no teria direito a desejar a esposa de outro homem. Os dias que caminhava comigo, com seu cabelo como fogo fundido, com um sorriso leve e tmido nos lbios, me fazia conhecer um jbilo inimaginvel.
Ao princpio nossas conversaes eram corteses e distantes. O clima, rumores sem importncia do povo, arte e literatura. Com o passado do tempo, comeou a sentir-se mais a gosto comigo. Falava-me de seus filhos, aos que cheguei a conhecer atravs dela. A pequena Colleen, apaixonada pelos vestidos bonitos e que desejava ter um poni. O jovem Ethan, que s desejava correr e encontrar aventuras. E o pequeno Seam, que estava aprendendo a engatinhar.
No precisava ser muito perceptivo para dar-se conta de que seus filhos eram sua vida. Estranha vez falava das festas, os musicais aos que assistia, as reunies sociais s que eu sabia que assistia quase cada noite. Jamais falava do homem com que se casou.
Reconheo que ele despertava minha curiosidade. Certamente, era do conhecimento geral que Fergus Calhoun era um homem ambicioso e rico, que no transcurso de sua vida tinha convertido uns poucos dlares em um imprio. No mundo dos negcios despertava respeito e medo. Mas isso no me importava nada.
Quem me obcecava era o homem privado. O homem que tinha direito a cham-la esposa. O homem que se deitava junto a ela de noite, que a tocava. O homem que conhecia a textura de sua pele, o sabor de sua boca. O homem que sabia a sensao que provocava quando ela se movia embaixo dele na escurido.
J estava apaixonado por ela. Possivelmente o tinha estado no instante em que a vi caminhar com o menino entre as rosas silvestres.
Teria sido melhor para minha prudncia se tivesse eleito outro lugar no que pintar. No pude. Sabendo j que no teria mais dela, que no poderia ter mais que umas horas de conversao, retornei. Uma e outra vez.
Ela aceitou deixar que a pintasse. Comecei a ver, tal como um artista tem que ver,  mulher que levava no interior. alm de sua beleza, de sua serenidade e educao, havia uma mulher desesperadamente infeliz. Quis tom-la em meus braos, exigir que me contasse o que lhe tinha provocado essa expresso triste nos olhos. Mas s a pintei. No tinha direito a mais.
Nunca fui um homem paciente ou nobre. Mas com ela descobri que podia ser ambas as coisas. Sem me tocar nunca, ela me mudou. Nada seria igual para mim depois daquele vero muito breve...aquele vero em que aparecia para sentar-se nas rochas e contemplar o mar.
Inclusive agora, uma vida mais tarde, posso ir a esses penhascos e v-la. Posso cheirar o mar que nunca muda e perceber seu perfume. S tenho que recolher uma rosa silvestre para recordar as luzes acesas de seu cabelo. Ao fechar os olhos, ouo o murmrio da gua sobre as rochas abaixo e sua voz volta to clara e doce como ontem.
Recorda-me a ltima tarde daquele primeiro vero, quando se ergueu a meu lado, o bastante perto para toc-la, to distante como a lua.
-Partimo-nos pela manh -disse sem me olhar-. Os meninos lamentam ir-se.
-E voc?
Um leve sorriso apareceu a seus lbios, mas no em seus olhos.
-s vezes me pergunto se tiver tido uma vida anterior. Se meu lar foi uma ilha como esta. A primeira vez que vim aqui, foi como se tivesse estado esperando para voltar a v-la. Sentirei falta do mar.
Quando ela me olhou, possivelmente foram minhas prprias necessidades as que me fizeram pensar que tambm sentiria falta de mim. Logo apartou a vista e suspirou.
-Nova Iorque  to diferente, to cheio de rudo e pressas. De p aqui me custa acreditar que existe um lugar assim. ficar a passar o inverno na ilha?
Pensei no frio e nos meses duros que me esperavam e amaldioei ao destino por me provocar com o que jamais poderia ter.
-Meus planos mudam com meu estado de nimo -respondi com ligeireza, me esforando por manter a amargura fora de minha voz.
-Invejo-lhe sua liberdade -ento retornou at o retrato quase acabado no cavalete -. E seu talento. Plasmou-me de forma superior ao que sou.
-Inferior -Tive que apertar com fora as mos para evitar toc-la-. Algumas virtudes jamais se podem capturar em um tecido.
-Como o chamar?
-Bianca. Seu nome  suficiente.
Voc perceber meus sentimentos, embora tratei desesperadamente de cont-los dentro de mim. Algo se refletiu em seus olhos ao me olhar, e manteve o contato visual mais do recomendvel. Logo retrocedeu com cautela, como uma mulher que se aproximou muito ao bordo de um penhasco.
-Um dia ser famoso, e a gente suplicar por ter sua obra.
-No pinto pela fama -me era impossvel lhe tirar os olhos de cima, sabendo que podia ser a ltima vez que a via.
-No, e por isso a conseguir. Quando chegar esse momento, recordarei este vero. Adeus, Christian.
Afastou-se de mim, no que considerei que era a ltima vez que a via, afastou-se das rochas e atravessou a erva e as flores silvestres que se agitavam em busca do sol.


Captulo 4

Cody Calhoun McPike no acreditava em deixar as coisas ao azar...em particular quando seu horscopo do dia aconselhava que tomasse uma parte mais ativa no assunto familiar e que visitasse um antigo conhecido. Considerava que podia cumprir ambas as coisas se o fazia uma visita informal ao Holt Bradford.
Recordava-o como um jovem de cabelo escuro e olhos acesos que tinha repartido lagostas e dado voltas pelo povo,  espera de que houvesse problemas. Tambm recordava que uma vez a ajudou a trocar a roda do carro enquanto ela tratava de decifrar que lado do macaco teria que pr debaixo do pra-lama. Ficou ofendido quando eu lhe paguei, subiu em sua moto e eu no pude nem agradecer.
"Orgulhoso, arrogante, rebelde", pensou enquanto colocava o carro na entrada da casa do Holt. Entretanto, de um modo bem arisco, cavalheiresco. Possivelmente era inteligente, e Cody acreditava s-lo, poderia manipular todos esses traos para conseguir o que queria.
"Assim que esta era a cabana do Christian Bradford", refletiu. J a tinha visto antes, mas no desde que conhecia a conexo existente entre as duas famlias. Deteve-se um instante. Com os olhos fechados tentou sentir algo, sem dvida devia haver algum resto de energia, algo que o tempo e o vento no se levou.
Cody gostava de se considerar uma mstica. J fora uma avaliao real ou uma constatao de que tinha uma imaginao viva, estava segura de que sentia um vestgio de paixo no ar. Agradada consigo mesma, dirigiu-se para a casa.
Vestiu-se com supremo cuidado. Queria estar atrativa,  obvio. Sua vaidade no permitiria outra coisa. Mas tambm tinha querido parecer distinta e com um leve ar maternal. Considerava que o velho e clssico traje Chanel de cor azul era perfeita.
Chamou e exibiu na cara o que acreditou que era um sorriso sbio e tranqilizador. Os latidos fortes e a corrente de pragas procedentes do interior fizeram que se levasse uma mo ao peito.
Recm sado da ducha, com o cabelo jorrando e de mau humor, Holt abriu a porta de repente. Sadie saltou. Cody chiou. Uns bons reflexos impulsionaram  Holt a reter o carinhoso animal pela coleira antes de que pudesse enviar a Cody alm do corrimo da varanda.
-Santo Deus -Cody olhou do co ao homem, enquanto fazia malabarismos com a bandeja de po-doces de chocolate que sustentava-. Santo Deus. Que co imenso. Sem dvida se parece com nosso Fred, tinha esperana que no cresceesse tanto. Pode at montar em cima dele, verdade? -sorriu para  Holt-. Sinto muito. Interrompi-o?
Ele continuou lutando com o co, que tinha percebido o aroma dos po-doces e queria sua parte. Naquele momento.
-Perdoe?
-Interrompi-o -repetiu Cody-. Sei que  cedo, mas em dias como este no posso ficar na cama. Tanto sol e o canto dos pssaros. Acredito que gostar de um? -sem esperar uma resposta, Cody tirou um dos po-doces-. E agora sente-se e se comporte -com o que sem dvida era um sorriso, Sadie deixou de lutar, sentou-se e olhou a Cody com olhos de adorao-. Bom co -Sadie aceitou o carinho com educao, pegou o doce e logo trotou para interior da casa para desfrut-lo-. Bem -agradada com a situao, sorriu ao Holt-. Provavelmente no lembra de mim. Cus, passaram anos.
-Senhora McPike -a recordava, certamente, embora a ltima vez que a tinha visto, o cabelo dela tinha sido de um loiro escuro. Tinham passado dez anos, mas a via mais jovem. Ou tinha recebido um magnfico retoque esttico ou tinha descoberto a fonte da eterna juventude.
-Sim. Adula-me que um homem atraente se lembre de mim. Embora a ltima vez que nos vimos no era mais que um menino. Bem-vindo a casa -ofereceu a bandeja de po-doces.
E no lhe deixou mais alternativa que aceit-la e convid-la a entrar.
-Obrigado -entre flores e po-doces, as Calhoun comeavam a ter o costume de lhe levar presentes-. Posso fazer algo por voc?
-Para ser sincera, estava morrendo de vontade de ver a casa. Pensar que aqui  onde vivia Christian Bradford, e trabalhava -suspirou-. E sonhava com a Bianca.
-Bom, em todo caso viveu e trabalhou aqui.
-Suzanna me contou que no est convencido de que se amassem. Posso compreender sua relutncia a aceit-lo imediatamente, mas faz parte da histria de minha famlia. E da sua. OH, que quadro glorioso! -cruzou o aposento para uma nebulosa paisagem marinha que estava pendurava em cima da chamin. Inclusive atravs da nvoa as cores eram intensas e vvidas, como se a vitalidade e a paixo estivessem lutando por liberar da minguante tela de fundo cinza. Ondas brancas e turbulentas, o rebordo negro e irregular da rocha, as sombras das ilhas estavam imveis  em um mar frio e escuro-.  frio -murmurou-. E solitrio. Ele pintou, no ?
-Sim.
-Se quisesse contemplar esta vista -suspirou com tom trmulo-, s teria que passear pelos penhascos abaixo Das Torres. Suzanna o fazia, s vezes com os meninos, s vezes sozinha. Muito freqentemente sozinha -girou, desterrando o estado de nimo sombrio-. Minha sobrinha parece perceber que voc no se encontra especialmente interessado em confirmar a relao de Bianca e Christian, e em ajudar a encontrar as esmeraldas. No posso acreditar.
-No deveria ser assim, senhora McPike -deixou a bandeja de lado-. Mas o que disse a sua sobrinha foi que se eu me convencer que havia alguma conexo relevante, faria o que pudesse para ajudar. O que, segundo meu parecer,  pouco.
-Voc foi oficial de polcia, no?
-Sim -enganchou os dedos polegares nos bolsos, sem confiar muito na mudana de tema.
-Tenho que reconhecer que me surpreendi quando soube que escolheu essa profisso, mas estou certa de que se encontrava bem preparado para o trabalho.
-Estava acostumado com ele - a cicatriz nas costas pareceu latejar.
-E suponho que ter solucionado casos.
-Alguns -curvou um pouco os lbios.
-De modo que procurou pistas e as seguiu at conseguir as respostas adequadas -sorriu-. Sempre adimirei os polciais na televiso que solucinam os mistrios e atam os fios soltos para achar a resposta.
-A vida no  assim to organizada.
-No, sob nenhum conceito, mas  indubitvel que seria timo ter algum de sua experincia -retornou a seu lado; j no sorria-. Serei sincera.Se soubesse dos problemas que passaramos teria deixado a lenda das esmeraldas morresse comigo. Quando meu irmo e sua mulher morreram, e deixaram a suas filhas a meu cuidado, tambm assumi a responsabilidade de lhes transmitir a histria das esmeraldas Calhoun... quando fosse o momento propcio. Ao cumprir com o que considerava meu dever, pus a minha famlia em perigo. Farei tudo o que esteja a meu alcance, e empregarei a ajuda de quem for preciso, para evitar que lhes faam mal. At que se encontrem essas esmeraldas, no posso estar segura de que minha famlia se encontre a salvo.
-Procurou a policia? -comeou.
-Fiz o  que pude. No  suficiente -estendeu o brao e apoiou a mo na de Holt-. Os agentes no esto envoltos pessoalmente, e  impossvel que o entendam. Voc sim pode.
-Superestima minha capacidade -a f e a lgica obstinada dela o punham incmodo.
-No acredito -sustentou a mo dele mais um momento, logo a apertou com delicadeza antes de solt-la-. Mas no  minha inteno pression-lo. S vim para poder somar minha energia a da Suzanna. Custa-lhe tanto insistir para obter o que quer...
-No o faz to mal.
-Bom, alegra-me ouvir isso. Mas com seu trabalho e o casamento de Mandy, somado a tudo o que esteve passando, sei que no teve tempo para falar com voc estes dias. Nossas vidas se viraram ao avesso esses ltimos meses. Primeiras o casamento de C.C., e as obras da casa, agora Amanda e Sloan... com Lilah a ponto de fixar uma data para casar-se com o Max -calou e esperou parecer melanclica-. Se pudesse encontrar um homem agradvel para a Suzanna, teria  todas as garotas assentadas.
Ao Holt no lhe passou por cima o olhar especulativo.
-Estou seguro de que ela mesma se ocupar disso quando estiver preparada.
- Se ela se permitir um momento para que isso ocorra. E depois do que aquele homem lhe fez-se calou. Sabia que se comeasse a falar de Baxter Dumont, custaria a parar. E no era um tema adequado de conversao-. Bom, de qualquer jeito, os filhos e o negcio a manm muito ocupada, assim eu gosto de ter um olho atento a ela. Voc no est casado, verdade?
Divertido, Holt pensou que ao menos ningum poderia acus-la de ser sutil.
-Sim. Tenho mulher e seis filhos no Portland.
Cody piscou, logo riu.
-Foi uma pergunta grosseira -reconheceu-. E antes de que lhe faa outra, deixarei-o tranqilo -se dirigiu para a porta, feliz por ele ter educao sufuciente para lhe acompanhar e abri-la.  A propsito, o casamento de Amanda  na sbado, s seis. Celebraremos a recepo no salo de baile de Las Torres. Eu gostaria que assistisse.
-No acredito que seja apropriado -a mudana inesperada o desconcertou.
-Certamente que sim -corrigiu ela-. Nossas famlias se conhecem a muito tempo tempo, Holt. Ns adoraramos sua presena -foi para o carro, mas se deteve e voltou-se-. E Suzanna no tem acompanhante.  uma pena.

O ladro chamava-se a si mesmo por muitos nomes. A primeira vez que se apresentou em Bar Harbor em busca das esmeraldas, tinha empregado o nome do Livingston, fazendo-se passar por um homem de negcios britnico. No tinha conseguido um xito completo e tinha retornado sob a guisa do Ellis Caufield, um rico excntrico. Devido  m sorte e  estupidez de seu scio, tinha tido que abandonar esse disfarce.
Seu scio estava morto, o que representava um pequeno inconveniente. O ladro nesse momento respondia no nome do Robert Marshall e comeava a desenvolver certo carinho por seu alter ego.
Marshall era magro, estava bronzeado e tinha um ligeiro acento de Boston. Levava o cabelo escuro quase at os ombros e exibia bigode. Graas a lentes de contato, seus olhos eram castanhos. Tinha os dentes um pouco torcidos. O aparelho bocal o incomodara bastante, mas tambm tinha mudado a forma de sua mandbula.
Encontrava-se muito a vontade como Marshall, e adorava que o tivessem contratado como operrio na restaurao de Las Torres. Tinha falsificado as referncias, o que tinha incrementado seus gastos. Mas as esmeraldas valiam a pena. Pretendia consegui-las, sem importar o preo.
Nos ltimos meses tinham deixado de ser um trabalho para converter-se em uma obsesso. No s as queria. Necessitava-as. O risco de trabalhar to perto das Calhoun acrescentava mais vida ao jogo. De fato, tinha passado a um metro de Amanda quando se apresentou na ala oeste para falar com o Sloan O'Riley. Nenhum dos dois, que o tinham conhecido como Livingston, prestaram muita ateno a ele.
Fazia bem seu trabalho de dirigir maquinaria e recolher escombros. E nunca se queixava. Mostrava-se amigvel com seus companheiros e inclusive de vez em quando ia tomar uma cerveja com eles ao final da jornada.
Logo retornava a sua casa alugada frente  baa e rascunhava planos.
A segurana de Las Torres no mostrava problema... no quando seria to fcil para ele desconect-la do interior. Ao trabalhar para as Calhoun podia estar perto e sem dvida inteirar-se de qualquer novidade na busca do colar. E com cuidado e destreza poderia realizar alguma busca pessoal.
Os papis que lhes tinha roubado ainda no lhe tinham dado nenhuma pista. A menos que a proporcionasse a carta que tinha descoberto. Ia escrita para a Bianca e assinada unicamente por "Christian". "Uma carta de amor", pensou enquanto empilhava madeiras. Era algo que devia inspecionar.
- Bob. Tem um minuto?
Marshall ergueu a vista e ofereceu um sorriso afvel ao seu capataz.
-Claro.
-Precisam mudar algumas mesas ao salo de baile para o casamento de amanh. Rick e voc dem uma mo s senhoras.
-Feito.
Partiu, contendo uma excitao trmula por dispor de liberdade para andar pela casa. Recebeu instrues de uma acalorada Cody, logo ergueu o extremo de uma pesada mesa de caa que deviam mudar dali para o andar de cima.
-Acredita que vir? -perguntava-lhe C.C. a Suzanna ao terminar de limpar a parede de espelho.
-Duvido.
-No vejo por que no -C.C. afastou o cabelo negro ao tornar-se para trs em busca de alguma marca-. E possivelmente que se insistirmos todos, termine por ceder e unir-se a ns.
-No  desses -Suzanna olhou ao redor e viu os dois homens com a mesa-. OH, pode deixar contra essa parede. Obrigado.
-De nada -conseguiu responder Rick com os dentes apertados.
Marshall simplesmente sorriu e no disse nada.
-Possivelmente se ver a foto de Bianca e escutar a  entrevista que Max e Lilah tiveram com a criada que estava acostumado a trabalhar aqui ento, aceite-o.  o nico familiar vivo do Christian.
-!-Rick conteve um juramento quando ao Marshall lhe inclinou a mesa.
-No me parece que lhe importe muito a famlia -indicou Suzanna-. Uma coisa que no mudou no Holt Bradford  que se trata de um solitrio.
Holt Bradford. Marshall fixou o nome em sua memria antes de dizer:
-H algo mais que possamos fazer por vocs, senhoras?
-No, agora no -respondeu Suzanna por cima do ombro com gesto distrado-. Muito obrigado.
-No tem de que-Marshall sorriu.
-Que bonitas, no acha? -murmurou Rick ao partir.
-OH, sim -mas Marshall pensava nas esmeraldas.
-Direi-te uma coisa, amigo, eu gostaria... -Rick se interrompeu quando outras duas mulheres com um menino pequeno chegaram at o alto das escadas. Dedicou a ambas um sorriso de grandes dentes. Lilah lhe devolveu um sorriso e seguiu andando-. Ai ai... -Rick se levou uma mo ao corao-. Este lugar est cheio de crianas.
-Desculpe -indicou Lilah com voz suave-. Quase todos so inofensivos.
A loira esbelta esboou um sorriso fraco. Dois operrios lascivos nesse momento eram a ltima de suas preocupaes.
-De verdade que no quero ser um aborrecimento -comeou com seu delicado acento do sudoeste-. Sei o que disse Sloan, mas de verdade acredito que seria melhor se Kevin e eu passssemos a noite em um hotel.
-Com a temporada to avanada, no conseguiriam passar a noite nem em uma loja de campanha. E a queremos aqui. Todos ns. A famlia do Sloan agora  nossa famlia -Lilah lhe sorriu ao pequeno de cabelo escuro que olhava boquiaberto tudo o que aparecia  vista-.  um lugar peculiar, verdade? Seu tio est encarregando de no faze-lo cair sobre nossas cabeas-entrou no salo de baile.
Suzanna se achava em uma escada, tirando brilho a um cristal, enquanto C.C., sentada no cho, ocupava-se da superfcie inferior.
Suzanna girou a cabea. Esperava-os j a algumas semanas. Mas v-los ali, sabendo quem eram, deixou-a tensa.
A mulher no s era a irm de Sloan, nem o pequeno s seu sobrinho. A pouco tempo Suzanna tinha se inteirado que Megan O'Riley tinha sido amante de seu marido, e o pequeno filho daquele. A mulher que a olhava nesse momento, com a mo do menino na sua, logo que tinha dezessete anos quando Baxter a seduziu com juramentos de amor eterno e promessas de matrimnio para levar-lhe  cama. Mas estava planejando casar-se com a Suzanna.
"Qual de ns foi a outra?", perguntou-se Suzanna. Enquanto pensavapercebu que  j no era importante. No quando podia ver com toda claridade a ansiedade nos olhos de Megan Ou'Riley, a tenso em seu corpo e seu orgulho no ngulo do queixo.
Lilah realizou as apresentaes com tanta suavidade que algum de fora teria acreditado que reinava uma atmosfera prazerosa no salo. Quando Suzanna lhe ofereceu a mo, Megan s pde pensar em que se excedeu na forma de vestir-se. Sentiu-se rgida e tola com seu traje sbrio de cor bronze, enquanto Suzanna parecia to relaxada e bonita com seu jeans velhos.
Essa era a mulher a que durante anos tinha odiado por lhe tirar o homem ao que tinha amado e lhe roubar o pai de seu filho. Inclusive depois que Sloan lhe tivesse explicado a inocncia de Suzanna, inclusive ao saber que o dio tinha sido em balde, Megan no era capaz de relaxar-se.
-Fico feliz em conhece-la -Suzanna tomou a mo rgida do Megan entre as suas.
-Obrigado -incmoda, Megan retirou a mo-. Estou aniosa para assistir ao casamento.
-Como todas ns -depois de um momento de incerteza, Suzanna se permitiu baixar o olhar ao Kevin, o meio-irmo de seus filhos. O corao se derreteu um pouco. Era mais alto que seu filho e um ano mais velho. Mas os dois tinham herdado a atrativa pele morena de seu pai. Inconscientemente, estendeu a mo para lhe afastar uma mecha de cabelo da frente, igual ao de Alex. Megan rodeou os ombros do pequeno em um gesto instintivo de defesa. Suzanna baixou a mo-.  um prazer te conhecer, Kevin. Alex e Jenny quase no puderam dormir ontem  noite ao saber que viria hoje.
Kevin lhe ofereceu um sorriso fugaz, logo olhou a sua me. Havia-lhe dito que ia conhecer seus meio-irmos e no sabia muito bem se isso o alegrava. Acreditava que a sua me acontecia o mesmo.
-Por que no descemos para busc-los? -C.C. apoiou uma mo no ombro de Suzanna.
Megan notou que Lilah j passara para o lado da irm. No as culpou por apoiar-se contra uma estranha.
-Possivelmente seria melhor se...
Nunca chegou a terminar a frase. Alex e Jenny entraram correndo no salo, ofegantes e acalorados.
-Est aqui? -quis saber Alex-. A tia Cody h dito que sim, e queremos ver... -interrompeu-se ao deixar de patinar sobre o cho recm lustrado.
Os dois meninos se observaram, interessados e precavidos, como dois sabujos. Alex no soube se gostava que seu novo irmo fosse maior que ele, mas j tinha decidido que estaria bem ter algo mais que uma irm.
-Sou Alex, e esta  Jenny -disse, ocupando-se das apresentaes-. S tem cinco anos.
-Cinco e meio -corrigiu Jenny e se aproximou do Kevin-. E posso te vencer se tiver que faz-lo.
-Jenny, no acredito que isso seja necessrio -Suzanna falou com suavidade, mas suas sobrancelhas arqueadas o diziam tudo.
-Bom, mas poderia -murmurou Jenny, sem deixar de avali-lo-. Mas mame diz que temos que ser agradveis porque somos famlia.
-Conhece algum ndio? -inquiriu Alex.
-Sim -Kevin j no se agarrava  mo de sua me
-Quer ver nosso forte? -perguntou Alex.
-Sim -olhou a sua me com expresso de splica-. Posso?
-Bom, eu...
-Lilah e eu levaremos eles -C.C. apertou por ltima vez o ombro da Suzanna.
-Estaro bem -assegurou Suzanna a Megan quando suas irms levaram os meninos-. Sloan desenhou o forte, ento  robusto -voltou a recolher o trapo para limp-las mos-. Sabe Kevin?
-Sim -Megan no deixou de lhe dar voltas  bolsa-. No queria que conhecesse seus filhos sem entend-lo -respirou fundo e se preparou para lanar-se ao discurso que tinha preparado-. Senhora Dumont...
-Suzanna. Isto  difcil para voc.
-No imagino que seja fcil ou cmodo para nenhuma de ns. No teria vindo se no fosse to importante para o Sloan -continuou-. Amo meu irmo e no faria nada para estragar seu casamento, mas tem que compreender que se trata de uma situao impossvel.
-Vejo que  doloroso para voc. Sinto -ergueu as mos, logo as deixou cair-. Talvez se eu tivesse sabido antes... sobre voc, sobre o Kevin.  improvvel que tivesse podido mudar algo referente ao Bax,  -baixou o olhar para o tecidoo que sustentava com mos tensas, depois o deixou de lado-. Megan, compreendo que enquanto voc dava a luz ao Kevin, sozinha, eu me encontrava na Europa, de lua de mel com o pai do Kevin. Tem direito de me odiar por isso.
Megan s pde mover a cabea e olh-la fixamente.
-No  nada do que tinha esperado. supunha-se que tinha que ser indiferente, distante e estar ofendida.
-Seria-me impossvel guardar rancor de uma jovem de dezessete anos a que decidiu criar sozinha seu filho apesar das dificuldades. Eu no era muito mais velha quando me casei com  Bax. Sei como  atraente e convincente . E tambm cruel.
-Pensei que depois viveramos felizes para sempre -Megan suspirou-. Bom, no demorei para amadurecer e aprender -olhou para Suzanna-. Odiei-a por ter tudo o que eu queria. Inclusive quando deixei de am-, lhe odiar me ajudou a seguir adiante. E temia conhece-la.
-Outra coisa que temos em comum.
-No acredito que esteja aqui, te falando desta maneira -para aliviar seus nervos, deu voltas pelo salo-. A imaginei tantas vezes no passado. Enfrentaria a voc, exigiria meus direitos -riu em voz baixa-. Inclusive hoje tinha um discurso pensado. Era muito sofisticado, amadurecido... possivelmente um pouco cruel. No queria acreditar que no tinha sabido nada do Kevin, que voc tambm tinha sido uma vtima. Porque era muito mais fcil me considerar a nica a que tinham trado. Mas ento apareceram seus filhos -fechou os olhos-. Como supera a dor, Suzanna?
-Lhe deixarei a par quando descobrir.
Com um leve sorriso, Megan olhou pela janela.
-A eles no os afetou. Olhe.
Suzanna se aproximou. No ptio pde ver seus filhos e ao filho de Megan subir ao forte de madeira.

Holt pensou muito. At o momento em que tirou o traje do armrio tinha tido a certeza de que no ia aceitar o convite. Que diabos se supunha que ia fazer em um casamento? No gostava dos atos sociais, nem as conversaes intrascendentes nem comer esses canaps diminutos. Nunca se sabia do que eram.
No gostava de estrangular-se com uma gravata ou ter que engomar uma camisa.
Perguntou-se por que o faria.
Afrouxou-se o odiado n da gravata e carrancudo se observou no espelho que havia em cima da mesa. Porque era um idiota e queria ver Suzanna outra vez .
Tinha passado mais de uma semana desde que plantaram o arbusto amarelo. Uma semana desde que a tinha beijado. E uma semana desde que tinha reconhecido que esse beijo, sem importar quo turbulento tinha sido, no ia ser suficiente.
Queria compreend-la e pensava que o melhor modo para consegui-lo era observ-la em meio a famlia que parecia amar tanto. No estava muito seguro que era a princesa indiferente e remota de sua juventude, a mulher ardente que tinha tido nos braos ou a mulher vulnervel cujos olhos os perseguiam em seus sonhos.
Holt era um homem que gostava de saber exatamente o que enfrentava, fora um suspeito, um motor quebrado ou uma mulher. Assim que analisasse Suzanna, moveria-se a seu prprio ritmo.
No queria admitir que o tinha comovido com sua ardente crena de que existia uma conexo entre seus antepassados. Mais ainda, odiava reconhecer que a visita de Cody McPike o tinha feito sentir culpado e responsvel.
Recordou-se que no ia ao casamento para ajudar a ningum. No ia estabelecer compromisso algum. Ia satisfazer-se a si mesmo. Nessa ocasio no ia ter que deter-se na porta da cozinha.
No era um trajeto muito longo, mas se tomou seu tempo. A primeira olhada de Las Torres o devolveu doze anos ao passado. Era, como sempre tinha sido, um lugar chamativo, um labirinto de contrastes. Estava construdo com pedras escuras, mas flanqueado por torres romnticas. De um ngulo parecia formidvel, de outro gracioso. Nesse momento havia um andaime no lado oeste, mas em vez de enfear a construo, parecia algo produtivo.
O jardim em pendente era de um verde esmeralda, protegido por rvores nodosas e dignas e salpicadas com flores fragrantes e frgeis. J havia muitos carros, e Holt se sentiu idiota entregando as chaves de seu velho Chevy ao manobrista uniformizado.
O casamento ia ser celebrado no terrao. Como estava a ponto de comear, manteve-se na parte de trs da multido. Soou uma msica de rgo. ouviram-se uns poucos comentrios murmurados e suspiros quando as damas de honra avanaram pelo largo tapete branco que cobria a erva.
Quase no foi capaz de reconhecer a C.C. como a deslumbrante deusa embainhada no vestido rosa com sua larga cauda. "No restava dvida de que as meninas Calhoun sempre foram atraentes", pensou, cravando a vista na mulher que ia atrs dela. O vestido que levava era da cor da espuma de mar, mas apenas o notou. Era o rosto... o rostro do retrato que havia no apartamento de cobertura de seu av. Holt soltou o ar contido. Lilah Calhoun era uma cpia de sua bisav. E Holt j no ia ser capaz de negar a ligao.
Colocou as mos nos bolsos e desejou no ter assistido.
Ento viu a Suzanna.
Essa era a princesa de sua imaginao juvenil. O cabelo de um ouro plido caa em suaves cachos at seus ombros sob um vu de um azul tnue. O vestido da mesma cor flua a seu redor movimentado com a brisa. Nas mos levava flores; havia mais espalhadas por seu cabelo. Quando passou a seu lado, com olhos to suaves e sonhadores como o vestido, ele sentiu um desejo to profundo, to intenso, que quase pronuncia seu nome.
No recordou nada da cerimnia breve e bonita exceto a expresso do rosto de Suzanna quando a primeira lgrima caiu por sua face.
Tal como tinha acontecido tantos anos atrs, o salo de baile estava cheio de luz, msica e flores. Quanto  comida, Cody se tinha superado. Os convidados foram tratados com ateno com croquetes de lagosta, ameixas ao vapor e mousse de salmo, tudo acompanhado com champanha. Dzias de cadeiras se acomodaram nas esquinas e ao longo das paredes de espelhos; as portas da terrao se aberto para permitir que os convidados sassem para o  exterior.
Holt se manteve afastado, bebendo champanha frio e dedicando-se a observar. Como sua primeira visita s Torres, decidiu que era um espetculo. Os espelhos devolviam o reflexo de mulheres de p, sentadas ou danando. A msica e a fragrncia a gardnias enchiam o ar.
A noiva estava arrebatadora, alta e imponente em encaixe branco, o rosto luminoso enquanto danava com o homem alto e de cabelo bronze que nesse momento era seu marido. "Fazem um bonito casal", pensou Holt. "Como se supe que acontece quando est apaixonado". Viu Cody danar com um homem alto e loiro que parecia ter nascido com o smoking.
Ento voltou a contemplar a Suzanna. Nesse momento se inclinava para dizer algo a um menino de cabelo escuro. Perguntou-se se seria seu filho. Era evidente que o pequeno se achava perto de uma espcie de rebelio. Movia os ps impaciente. Ganhou a simpatia do Holt. No podia haver nada pior para um menino que estar vestido com um mini smoking em uma noite do vero e ficar com adultos. Suzanna lhe sussurrou algo ao ouvido, e logo puxou a sua orelha. A expresso amotinada do pequeno ficou dominada por um sorriso.
-Vejo que segue ruminando nas esquinas.
Voltou-se e uma vez mas ficou assombrado com a semelhana que Lilah Calhoun tinha com a mulher que seu av tinha pintado.
-S observo o espetculo.
-Vale o preo da entrada. Max -Lilah apoiou uma mo no brao do homem alto e magro que a acompanhava-. Apresento ao Holt Bradford, de quem estive loucamente apaixonada durante vinte e quatro horas faz uns quinze anos.
-Nunca me contou isso - Holt arqueou uma sobrancelha.
-Claro que no. Ao terminar o dia decidi que no queria estar apaixonada por algum spero e perigoso. Apresento ao Max Quartermain, o homem que vou amar pelo resto de minha vida.
-Felicidades -Holt aceitou a mo estendida de Max. Um aperto forte e olhos firmes e um sorriso ligeiramente amigvel-.  o professor, no?
-Era. E voc  o neto do Christian Bradford.
-Sim -respondeu com voz mais distante.
-No se preocupe, no vamos persegui-lo enquanto for um convidado -Lilah o estudou-.Deixaremos para mais tarde. Pedirei  a Max que lhe mostre a cicatriz que ganhou enquanto realizvamos nossa montagem publicitria.
-Lilah -a voz do Max soou suave com uma ordem subjacente.
Esta se encolheu os ombros e bebeu champanha.
-Lembra-se de C.C.? -indicou quando sua irm se reuniu com eles.
-Lembraava-me de uma garota desajeitada com graxa na cara -relaxou o suficiente para sorrir-. Parace que melhorou.
-Obrigado. Meu marido, Trent. Holt Bradford.
Enquanto os dois homens realizavam um comentrio corts durante a apresentao, Holt viu que se tratava do companheiro de baile de Cody.
-Aos noivos -anunciou Lilah, brindando pelo casal antes de voltar a beber.
-Ol Holt -embora ainda resplandecessem, os olhos de Amanda irradiavam firmeza e cautela-. Me alegro que tenha podido vir.
Enquanto apresentava ao Sloan, Holt compreendeu que o tinham rodeado. No o pressionaram. Em nenhum momento foi mencionada as esmeraldas. "Mas uniram foras", pensou; tinham formado uma slida parede de determinao que teve que admirar, mesmo que lhe desagradasse.
-O que  isto, uma reunio familiar? -inquiriu Suzanna ao chegar a seu lado-. Acho que devemos nos misturar com os convidados, no nos juntar em uma rodinha. OH. Holt -o sorriso vacilou um pouco-. No sabia que estava aqui.
-Sua tia me convidou.
-Sei, sei mas... -calou e recomps seu sorriso de anfitri-. Me alegro que tenha podido vir.
"Falsa", pensou ele ao levantar a taa.
-Foi... interessante at agora.
Ante um sinal mudo, a famlia se dispersou, deixando-os sozinhos no canto da sala junto a  algumas gardnias.
-Espero que no lhe tenham incomodado.
-Claro que no.
- possvel, mas no quero que lhe importunem durante o casamento de minha irm.
-Mas no te incomoda se for em outra parte.
Antes de que pudesse replicar, umas mos pequenas e impaciente atiravam de seu vestido.
-Mame, quando podemos comer o bolo?
-Quando Amanda e Sloan estejam preparados para cort-lo -baixou um dedo pelo nariz do Alex.
-Mas estamos com fome.
-Ento v  mesa do buffet e comam alguma coisa.
O pequeno emitiu uma risada, mas no retrocedeu em seu empenho.
-O bolo...
- para mais tarde. Alex, apresento-lhe ao senhor Bradford.
No muito interessado em conhecer outro adulto que lhe daria um tapinha na cabea e lhe diria quo grande era, olhou-o com uma careta. Quando lhe ofereceu um aperto de mos de homem, aprumou-se um pouco.
- voc um policial?
-Fui.
-Recebeu alguma vez um tiro na cabea?
-No, sinto-viu que perdia a  imagem diante do garoto-. Mas uma vez me deram na perna.
-Srio? -Alex se animou-. Sangrou muito?
-Muito -teve que sorrir.
-Ah. Disparou em muitos homens maus?
-A dzias.
-Nossa! Espere um momento -saiu correndo.
-Sinto -comeou Suzanna-. Est passando por uma fase de assassinato e mutilao.
-Oh, no  nada -riu-, compensou-o ao lhe dizer que lhe tinha disparado a um monto de sujeitos maus -se perguntou se teria contado a verdade, embora no o manifestou em voz alta.
-Suzanna, queria...?
Alex freou ao seu lado seguido de outros dois meninos-. Os bandidos lhe deram um tiro na perna.
-Doeu? -quis saber Jenny.
-Um pouco.
-No parou de sangrar -comentou Alex com entusiasmo. Esta   Jenny, minha irm. E este  meu irmo Kevin.
Suzanna quis beij-lo. Quis levant-lo em braos e encher de beijos por aceitar com tanta facilidade o que os adultos tinham complicado tanto. Passou-lhe a mo pelo cabelo.
Os trs bombardearam Holt de perguntas at que Suzanna ps fim  situao.
-Acredito que no momento houve muita sangue.
-Mas, mame...
-Mas, Alex -imitou ela-. Por que no vai beber um pouco de ponche?
Como lhes pareceu uma boa idia, partiram.
-Que turma -murmuro Holt, e olhou a Suzanna-. Acreditava que tinha dois filhos.
-E assim .
-Me deu a impresso de ver trs.
-Kevin  o filho de meu ex-marido -respondeu com frieza-. E agora, se me desculpar...
Freou-a com uma mo no brao. "Outro segredo", pensou, e decidiu que j procuraria essa resposta. No nesse instante. Nesse momento ia fazer algo no que tinha pensado desde que a viu caminhar pelo tapete de cetim embainhada em seu etreo vestido azul.
-Quer danar?










Captulo 5

No conseguia relaxar em seus braos. disse-se que era uma tolice, que o baile no era mais que um gesto social casual. Mas seu corpo estava prximo, firme, a mo que tinha nas costas era possessiva. Recordava-se com muita claridade o momento em que a tinha tido em seus braos para faz-la voar com um beijo.
- uma casa magnifica -disse ele, e se deu o prazer de sentir o cabelo dela contra sua face-. Sempre me perguntei como seria por dentro.
-Algum dia o levarei fazer um percurso.
-Surpreende-me que no tenha retornado para insistir.
Os olhos da Suzanna mostraram irritao ao jogar a cabea atrs para responder.
-No tenho inteno de insistir.
-Bem -passou o polegar por cima dos ns de suas mos e a sentiu tremer-. Mas voltar.
-S porque prometi  tia Cody.
-No -aumentou a presso sobre as costas dela e a aproximou alguns centmetros mais-. No s por isso. Pergunta-me como seria,do mesmo jeito que me perguntei a metade da minha vida.
-Este no  o lugar -os dedos dele pelas costas foram deixando uma pequena linha de pnico.
-Eu escolho meu prprio terreno -baixou os lbios at deix-los a uns centmetros dos dela. Observou como seus olhos se obscureciam e nublavam-. Te desejo, Suzanna.
-Supe-se que tenho que me sentir lisonjeada? -perguntou com voz rouca pelo n que tinha na garganta.
-No.  mais inteligente de sua parte se estivesse assustada. No farei que as coisas sejam fceis para voc.
-No sinto nenhum interesse -comentou com mais controle.
-Poderia beij-la agora e demonstrar que esta enganada -sorriu.
-No tolerarei uma cena no casamento de minha irm.
-Bem, ento venha a minha casa amanh.
-No.
-De acordo -baixou a cabea. Ela girou a sua, de modo que lhe roou a tmpora com os lbios, para logo lhe mordiscar o lbulo da orelha.
-Para. Meus filhos...
-No deveriam surpreender-se de que um homem beije  sua me -mas parou, porque seus joelhos estavam vascilantes-. Amanh, Suzanna. H algo que preciso te mostrar. Algo de meu av.
-Se se tratar de algum tipo de jogo, no quero participar.
-No  nenhum jogo. Desejo-a, e no meomnbto certo a terei. Mas h algo de meu av que tem direito a ver. A menos que tenha medo de ficar a ss comigo.
-Estarei l -respondeu com o corpo rgido.
Na manh seguinte, Suzanna se achava no terrao com Megan. Contemplavam a seus filhos correr pelo jardim com o Fred.
-Que bom seria se pudessem ficar mais tempo.
Megan moveu a cabea com uma expresso jovial na cara.
-Surpreende-me dizer que tambm eu gostaria. Amanh tenho que voltar para trabalho.
-Kevin e voc so bem-vindos aquia qualquer momento. Quero que saiba.
-Sei -a olhou. No rosto de Suzanna viu uma tristeza que entendia, embora raramente se permitia senti-la-. Se voc e os meninos decidirem visitar Oklahoma, tm um lar conosco. No quero que percamos o contato. Kevin precisa conhecer este ramo de sua famlia.
-No o perderemos -se agachou para recolher uma ptala de rosa que tinha caido ali na terrao-. foi um casamento lindo. Sloan E Mandy vo ser felizes... e todos teremos sobrinhos em comum.
-Deus, o mundo  um lugar estranho -tomou a mo de Suzanna-. Eu gostaria de pensar que podemos ser amigas, no s pelo bem de nossos filhos ou por Sloan e Amanda.
-Acredito que j  somos -sorriu.
-Suzanna! -chamou Cody da porta da cozinha-. Uma chamada para voc -Cody mordia o lbio quando Suzanna chegou a seu lado-.  Baxter.
-OH -sentiu que o singelo prazer da manh se evaporava-. Atenderei na biblioteca.
Preparou-se para tudo enquanto partia pelo vestbulo. Recordou-se que j no podia feri-la. Nem fsica nem emocionalmente. Entrou na biblioteca, respirou fundo e atendeu ao telefone.
-Ol, Bax.
-Suponho que te ter parecido divertido me fazer esperar no telefone.
Ali estava o tom cortante e crtico que no passado tinha lhe provocado calafrios. Nesse momento simplesmente suspirou.
-Sinto muito. Estava l fora.
-Suponho que escavando o jardim. Ainda finge que pode ganhar a vida recortando roseiras?
-Estou convencida de que no me ligou para saber como anda meu negcio.
-Seu negcio, segundo o chama voc, no  mais que uma ocupao tola. Que minha ex-mulher venda flores na esquina da rua...
-Mancha sua imagem, sei -passou a mo pelo cabelo-. No vamos voltar a mesam conversa, vamos?
-Vejo que se tornou uma caipira -o ouviu murmurar algo com outra pessoa e logo rir-. No, no liguei para dizer que est se tranformando em uma tola. Quero os meninos.
-O que? - seu sangue gelou .
O sussurro trmulo de Suzanna o satisfez enormemente.
-Acredito que no acordo de custdia fica estipulado com claridade que tenho direito a ter duas semanas durante o vero. Buscarei-os na sexta-feira.
-Mas... se nunca houve...
-No gagueje, Suzanna.  um de seus defeitos mais chatos. Se no o compreendeu, repetirei-lhe isso. Exero meus direitos de pai. Pegarei os meninos na sexta-feira, ao meio dia.
-No os viu em quase um ano. No pode vir e leva-los e ..
-Certamente que sim. Se decidir no respeitar o acordo, simplesmente voltarei a te levar ante os tribunais. No  legal nem inteligente que tente manter aos meninos longe de mim.
-Nunca tentei que fazer isso. Voc no se incomodaste em v-los.
-No tenho inteno de mudar minha agenda para agradar a voc. Yvette e eu vamos passar duas semanas ao Martha's Vineyard e decidi levar os meninos.  hora de que vejam algo do mundo alm do pequeno canto que se esconde.
Tremiam-lhe as mos. Agarrou o telefone com mais fora.
-Nem sequer enviou uma postal a Alex por seu aniversrio.
-Acredito que no acordo no se estipula nada sobre postais de aniversrio -espetou-. Mas  muito especfico sobre os direitos de visita. Se quer consulta-o com seu advogado, Suzanna.
-E se eles no quiserem ir?
-A escolha no  deles... nem sua. Eu no tentaria predisp-los contra mim.
-No preciso -murmurou.
-Que tenham tudo preparado. Ah, Suzanna, ultimamente estive lendo muito sobre sua famlia. No te parece estranho que no se mencionasse nenhum colar de esmeraldas em nosso acordo de divrcio?
-No sabia que existia.
-Pergunto-me se os tribunais acreditaro.
Sentiu que os olhos lhe enchiam com lgrimas de frustrao e ira.
-Pelo amor de Deus, voc j no levou o  suficiente?
-Nunca  suficiente, Suzanna, quando temos em conta o muito que me decepcionou. Na sexta-feira -repetiu-. Ao meio dia -desligou.
Tremia. Embora sentasse com cuidado em uma cadeira, no podia parar. Era como se a houvessem devolvido cinco anos ao passado, a aquela terrvel impotncia. No podia det-lo. Tinha lido o acordo de custdia palavra por palavra antes de assin-lo, e ele tinha direito. Tecnicamente podia ter exigido mais tempo de aviso, mas isso unicamente adiaria o inevitvel. Se Bax tinha tomado uma deciso, no conseguiria que a mudasse. quanto mais se opor, quanto mais discutisse, mais sentiria prazer ele em retorcer a faca.
E mais o pagaria com os meninos.
Seus pequenos. Tampou o rsoto com as mos. S seria por um tempo curto... poderia sobreviver. Mas, como as crianas iriam reagir a isso?
Deveria fazer que parecesse uma aventura. Com um tom de voz adequado e as palavras precisas os convenceria de que era algo que queriam fazer. Ficou de p com os lbios apertados. Mas no ainda. Se falava com eles nesse momento no seria capaz de convencer os de nada salvo de sua prpria agitao.
-Este maldito lugar  como a Estao Central -o som familiar de uma bengala fez com que Suzanna voltasse a sentar-se-. Gente indo e vindo, o telefone soando.  como se nunca ningum tivesse se casado -Colleen, a tia av da Suzanna, com o magnfico cabelo branco recolhido para trs e diamantes brilhando em suas orelhas, deteve-se na soleira-. Quero te comunicar que seus pequenos monstros encheram a escada de terra.
-Sinto muito.
Colleen s bufou. Gostava de queixar-se dos meninos porque se afeioou muito a deles.
-Vndalos. O nico dia da semana em que no se ouvem martelos nem serras e em troca os meninos gritam pela casa. Por que demnios no esto no colgio?
-Porque estamos em julho, tia Colleen.
-No vejo que diferena h -acentuou o cenho ao estudar a Suzanna-. O que houve com voc, jovem?
-Nada. Encontro-me um pouco cansada.
-Cansada nada -reconhecia a expresso de desespero e impotncia. J a tinha visto antes nos olhos de sua prpria me-. Com quem falava por telefone?
-Isso, tia Colleen -respondeu com o queixo elevado-, no  seu assunto.
-V, vejo que te tornaste a subir a seu cavalo arrogante -o qual gostava. Preferia que sua sobrinha neta mordesse antes que aceitasse um golpe. Alm disso, aporrinharia a Cody at inteirar-se do que estava passando.
-Tenho um compromisso -indicou Suzanna com a serenidade que pde aprovisionar-. Se importaria lhe dizer  tia Cody que sa?
-Assim agora sou a garota dos recados. Direi, direi -murmurou, agitando a bengala-. J  hora de que me prepare um ch.
-Obrigado. No demorarei.
-Saia e limpe a cabea -disse Colleen quando Suzanna passou a seu lado-. No h nada que um Calhoun no possa dirigir.
-Espero que tenha razo -suspirou e deu um beijo na bochecha enxuta.
No se permitiu pensar. Saiu da casa e subiu  caminhonete, dizendo-se que faria o que fora necessrio... mas que primeiro precisava acalmar-se.
Precisava ser muito hbil no manejo de suas emoes. Uma mulher no podia sentar-se em um tribunal com o futuro de seus filhos em jogo e no aprender a controlar-se.
Era possvel sentir pnico, ira ou tristeza e funcionar de forma normal. Quando estivesse segura de que podia faz-lo, falaria com seus filhos.
Devia manter um compromisso. Seja o que for o que Holt tivesse que lhe mostrar, poderia distrai-la-o suficiente para ajud-la a manter controladas suas emoes at que se normalizassem.
Pensou que estava tranqila quando se deteve ante a casa dele. Ao sair da caminhonete, passou-se uma mo pelo cabelo revolto pelo vento. Guardou-se as chaves nos bolsos e bateu na porta.
O co ladrou como posedo. Holt reteve o Sadie pela coleira ao abrir.
-Chegou. Pensei que teria que ir busc-la.
-Disse que viria -entrou-. Que tem que me mostrar?
Quando teve a segurana de que Sadie no faria mais que ganir e gemer em busca de ateno, soltou-a.
-Sua tia mostrou muito mais interesse na cabana.
-Vou com o tempo justo -depois de acariciar ao co com gesto distrado, meteu-se as mos nos bolsos das calas amplas-.  muito bonita -olhou ao redor-. Deve estar cmodo aqui.
-Estou -conveio devagar, sem afastar os olhos penetrantes de sua cara. No havia nem rastro de cor em suas bochechas. Tinha os olhos muito escuros. Tinha querido que fora consciente dele, possivelmente com certo desconforto, mas no que o medo a dominasse ante a idia de v-lo outra vez-. Pode relaxar, Suzanna -indicou com voz seca-. No vou atirar me em cima de voc.
-Podemos acabar logo com isso? -respondeu a ponto de perder o controle.
-Sim, podemos, assim que deixe de estar a de p como se estivesse presa. Ainda no fiz nada para que me olhe dessa maneira.
-No lhe olho de maneira nenhuma.
-Mentira. Maldita seja, tremem-lhe as mos -furioso, as segurou-. Pare com isso-exigiu-. No vou lhe fazer mal.
-No tem nada que ver contigo -se soltou, odiando no ser capaz de evitar que continuassem tremendo-. Por que acredita que algo que sinta ou a expresso que tenho dependem de voc? Tenho minha prpria vida, meus sentimentos. No sou uma mulher dbil e aterrada que se vem abaixo assim que um homem eleva a voz. Acha mesmoq ue tenho medo de voc? De verdade acredita que poderia me fazer mal depois... ? -calou, consternada. Tinha estado gritando e as lgrimas furiosas ainda lhe queimavam os olhos. Tinha um n to tenso no estmago que mal podia respirar. Holt a observava com olhos analticos-. Tenho que ir  -conseguiu dizer ao tempo que corria  porta. A mo dele a fechou-. Deixe-me ir -quando lhe quebrou a voz, mordeu-se o lbio. Girou e o olhou com olhos cintilantes-. Disse que me deixasse ir.
-Adiante -disse com assombrosa calma-, me bata. Mas no vai a nenhuma parte enquanto estiver assim to agitada.
-Se estou agitada,  meu assunto. Voc no tem nada a ver com isso.
-De acordo, assim no ir me bater. Provemos com outra vlvula de escapamento -apoiou as mos a cada lado de seu rosto e lhe cobriu a boca.
No era um beijo para apaziguar ou consolar. Transmitiu a mesma emoo descarnada e turbulenta que os sentimentos da Suzanna.
Os braos dela se achavam apanhados entre os dois, com as mos ainda fechadas; a pele lhe acendeu. Ao primeiro brilho de resposta, Holt se mergulhou no beijo duro e desesperado at que esteve seguro de que quo nico ficava na mente da Suzanna era ele.
Logo se atrasou um pouco mais para satisfazer-se a si mesmo. Ela era um vulco  espera da erupo, uma tormenta pronta para cair. Sua paixo contida tinha mais pega que suas mos, e Holt pretendia estar presente quando explorasse.
No momento de solt-la, Suzanna se apoiou na porta com os olhos fechados e a respirao entrecortada. Ao observ-la, deu-se conta de que nunca tinha visto ningum lutar tanto para manter o controle.
-Sente-se -disse. Ela moveu a cabea-. De acordo, fique de p -se encolheu de ombros e se afastou para acender um cigarro-. De qualquer modo vai me contar o que a deixou assim
-No quero falar com voc.
Holt se sentou no brao de uma poltrona e exalou uma baforada de fumaa.
-Muita gente no quis falar comigo. Mas geralmente averiguo o que quero saber.
Ela abriu os olhos, que nesse momento estavam secos, algo que aliviou grandemente ao Holt.
- um interrogatrio?
-Pode ser -voltou a encolher-se de ombros e deu outro trago ao cigarro. No a ajudaria nada que lhe oferecesse palavras suaves. Nem sequer sabia se as tinha.
Suzanna pensou em abrir a porta e partir. Mas ele simplesmente a deteria. Tinha aprendido  fora que em algumas batalhas uma mulher no  podia ganhar.
-No vale a pena -reps com voz cansada-. No devia ter vindo enquanto me encontrava agitada, mas considerei que estava sob controle.
-Agitada por que?
-No  importante.
-Ento no tem problema se me contar..
-Bax me ligou. Meu ex-marido -para consolar-se, ficou a caminhar pela habitao.
Holt estudou a ponta do cigarro e se recordou que o cimes naquele momento no seria adequado.
-Ao que parece, ainda pode perturb-la.
-Uma chamada de telefone. Uma. E sigo sob seu domnio -Holt no tinha esperado captar essa amargura em sua voz. Guardou silncio-. No h nada que possa fazer. Nada. Ele vai levar os meninos duas semanas. No posso det-lo.
-Pelo amor de Deus, a isso se deve toda esta histeria? -suspirou com gesto impaciente-. Assim que os meninos se vo com papai um par de semanas -aborrecido, apagou o cigarro. E pensar que se preocupara por ela-. Me economize esse cilindro de esposa vingativa, encanto. Ele tem direitos.
-OH, sim, tem direitos -a voz lhe tremeu com uma emoo to profunda que Holt voltou a prestar ateno-. Porque  diz em um pedao de papel. E esteve presente quando foram concebidos, de modo que isso o converte em seu pai.  obvio, no significa que tenha que ama-los, ou preocupar-se com eles ou lutar para educ-los com bondade. No significa que tenha que recordar o Natal ou os aniversrios.  como Bax me disse por telefone. No h nada no acordo de custdia que o obrigue a enviar postais de felicitao. Mas sim me obriga a lhe entregar os meninos quando ele quer -as lgrimas voltavam a ameaar fazendo ato de presena, mas as negou. Chorar diante de um homem alguma vez contribua outra coisa que no fora humilhao-. Acredita ainda que ele tem algum direito? Ele j no pode me fazer mal. Mas meus filhos no merecem ser utilizados para que possa vingar-se de mim.
Holt sentiu algo ardente e letal estender-se por suas vsceras.
-Fez um bom trabalho contigo, verdade?
-Essa no  a questo. A questo  Alex e Jenny. De algum modo devo convencer-los de que o pai,  que no se incomodou em ficar em contato com eles durante meses, que no era capaz de toler-los quando vivian sob o mesmo teto, vai levar-los a umas frias maravilhosas de duas semanas -cansada de repente, acariciou o cabelo-. No vim aqui a falar disto.
-Sim veio para falar disto -mais acalmado, acendeu outro cigarro. Se no fazia algo com as mos, ia voltar a toc-la, e no estava seguro de que nenhum dos dois pudesse controlar-se-. No sou famlia, assim supe que pode descarregar comigo sem que perca o sono.
-Tem razo -sorriu um pouco-.Sinto.
-No pedi uma desculpa. Que sentem por ele os meninos?
- um desconhecido.
-Ento o mais provvel  que no tenham nenhuma expectativa. D-me a impresso de que podem considerar tudo como uma aventura... e que deixa que ele seja quem aperta seus botes. Se o est usando para te provocar, deu certo.
-Eu j tinha chegado a essas concluses. Precisava soltar um excesso de frustrao -tentou sorrir outra vez-. Geralmente ranco toneladas de ervas daninhas.
-Acredito que me beijar funcionou melhor.
-Ao menos foi diferente.
Ele apagou o cigarro e ficou de p. Ao demnio com o que pudessem controlar.
-Essa  a melhor descrio que te ocorre?
-Holt -comeou quando a rodeou com os braos.
-Sim? -mordiscou-lhe o queixo, logo a boca.
-No quero ser abraada -mas  queria, e muito.
- uma pena -apertou os braos e a aproximou ainda mais.
-Pediu-me que viesse para... -emitiu um leve som de angstia quando lhe mordiscou o lbulo da orelha-. Para poder me mostrar algo de seu av.
-Assim  -a pele dela cheirava ao ar dos penhascos... a mar, flores silvestres e ao ardente sol do vero-. Tambm para poder voltar toc-la. Iremos uma coisa por vez.
-No quero um compromisso -mas inclusive ao diz-lo aproximava a boca para encontrar-se com a sua.
-Eu tampouco -mudou o ngulo e sugou o lbio inferior dela.
-Isto no  mais que... OH... qumica -fechou os dedos em seu cabelo.
-Pode apostar -introduziu as palmas speras sob a blusa dela para explorar.
-No pode chegar a nenhuma parte.
-J chegou.
Tambm nisso tinha razo. Durante um breve instante ela se permitiu cair no beijo, no calor. Necessitava de algo, de algum. Se no podia conseguir carinho ou compaixo, conformaria-se com o desejo. Mas quanto mais tomava, mais seu corpo desejava algo que se achava fora de seu alcance. Algo que no podia permitir o luxo de querer ou necessitar outra vez.
-Isto est indo muito depressa -murmurou sem ar, afastando-. Sinto muito, compreendo que deve estar confusa.
Ele observou seus olhos, s seus olhos, enquanto o corpo lhe palpitava.
-Scredita que posso parar?.
-No quero iniciar algo que no seja capaz de terminar -umedeceu os lbios ainda quentes do contato com os do Holt-. E agora mesmo tenho muitas responsabilidades, muito do que me preocupar para pensar sequer em...
-Uma aventura? -concluiu ele-. vai ter que pensar nisso -sem deixar de olh-la aos olhos, agarrou um punhado de seu cabelo-. Certo, tome uns dias. Posso ser paciente se sei que irei conseguir o que quero. E quero voc.
-Por ach-lo fisicamente atraente, no quer dizer que pularei na sua cama-respondeu nervosa.
-No me importo o jeito que chegaremos l. Se voc vai pulando ou se arrastando. Mais adiante poderemos decidir o mtodo a empregar -antes de que ela pudesse insult-lo, sorriu, beijou-a e retrocedeu-. Uma vez acertado isso, mostrarei o retrato a voc.
-Se acredita que est tudo certo porque... que retrato?
-De uma olhada e depois me diga.
Conduziu-a at o apartamento de cobertura.  Dividida entre a curiosidade e a fria, Suzanna o seguiu. S sabia que  nesse momento que tinha tornado a ver  Holt Bradford, suas emoes tinham viajado em uma montanha russa. E ela sempre desejara da vida era uma viagem suave e tranqila.
-Ele trabalhava aqui acima.
-Conheceu-o bem? -perguntou com interesse.
-No acredito que ningum o conhecesse bem -foi abrir uma clarabia-. Ia e vinha conforme gostava. Voltava aqui por uns dias, ou uns meses. s vezes eu me sentava a v-lo trabalhar. Quando se cansava de minha companhia, dizia-me para levar o co passear l fora no povoado e comprar sorvete.
-Ainda h pintura no cho -incapaz de resistir, agachou-se para toc-la. Ergueu a vista, encontrou-se com os olhos de Holt e o entendeu.
-Voc gostava muito de seu av. Aquelas manchas de pintura, mais que a prpria cabana, eram lembranas. Estendeu a mo para tomar a sua, e levantou-se quando os dedos se uniram. Ento viu o retrato.
O tecido se achava apoiado contra a parede, em um marco antigo e trabalhado. A mulher lhe devolveu o escrutnio, com olhos cheios de secretos, tristeza e amor.
-Bianca -sussurrou, e deixou que as lgrimas cassem com liberdade-. Sabia que devia t-la pintado. Tinha que hav-lo feito.
-No estava certo at que ontem vi Lilah.
-Nunca o vendeu -murmurou Suzanna-. O guardou, pois era a nica coisa que ficara dela.
-Talvez -No se sentia cmodo pelo fato de ter lhe ocorrido omesmo pensamento-. Tenho que concluir que havia algo entre eles. No sei como isso pode deix-las mais pertos das esmeraldas.
-Mas voc nos ajudar?
-Sim.
-Obrigado -se voltou para olh-lo. "Sim, ajudar-nos", pensou. No romperia sua palavra, sem importar o muito que o irritasse respeit-la- Primeira coisa que tenho que te pedir  se pode levar o retrato s Torres para que a minha famlia veja. Significar muito para eles.
Por insistncia de Suzanna, tambm levaram o Sadie. Ela foi na parte de trs da caminhonete, sorrindo ao vento. Quando chegaram s Torres, descobriram  Lilah e ao Max sentados no jardim. Fred, ao ver o veculo, empreendeu uma carreira e se deteve aturdido quando com agilidade Sadie saltou de trs.
Com o corpo agitado, aproximou-se dela. Os ces se dedicaram a cheirar-se com minuciosidade. Com o rabo oscilando, Sadie partiu pelo ptio. Por cima do ombro lanou um olhar de convite a Fred, quem imediatamente ps-se a segui-la.
-Parece que o velho Fred teve um caso de amor a primeira vista -comentou Lilah enquanto se aproximavada  caminhonete com Max-. Nos perguntvamos aonde tinha ido -passou uma mo pelo brao de Suzanna, deixando que soubesse sem palavras que estava  sabendo do telefonema de Bax.
-Os meninos esto por ai?
-No, foram-se ao povo com o Megan e os pais dela para ajudar Kevin a escolher umas lembranas antes de partir.
Suzanna assentiu e tomou a mo de sua irm.
-H algo que tem que ver -retrocedeu e assinalou. Atravs da porta aberta da caminhonete, Lilah viu o quadro. Seus dedos se tensionaram nos de sua irm.
-OH, Suze.
-Sei.
-Max, v-o?
-Sim -com delicadeza lhe beijou o rosto e contemplou o retrato de uma mulher que era a cpia exata da que ele amava-. Era linda.  um Bradford -olhou ao Holt e encolheu o ombros-. Estive estudando a obra de seu av nas ltimas duas semanas.
-O teve o tempo todo-comeou Lilah.
Holt no deixou que a acusao prosseguisse.
-No soube que era Bianca at que te vi ontem.
Ela estudou seu rosto e cedeu.
-No  to desagradvel como voc gosta que pense a pessoas. Sua aura  muito clara.
-Deixa o aura do Holt em paz, Lilah -riu Suzanna-. Quero que a tia Cody o veja. OH, como eu gostaria que Sloan e Mandy no estivessem em lua de mel.
-S estaro ausentes duas semanas -lhe lembrou a irm.
Duas semanas. Suzanna se esforou em manter o sorriso em seu lugar enquanto Holt levava o retrato dentro.
Assim que o viu, Cody chorou. Mas isso no era novidade para ningum. Holt o tinha apoiado em um sof no salo, e Cody estava sentada na poltrona, molhando o leno.
-Depois de todo este tempo. Uma parte dela voltou a esta casa.
-Uma parte dela sempre esteve aqui -Lilah tocou o ombro de sua tia.
-OH, sei, mas poder olh-la-se secou os olhos-. E olhar voc.
-Devia am-la muito -com os olhos midos, C.C. apoiou a cabea no ombro de Trent-.  tal como imaginei, tal como sabia que seria aquela noite em que a senti.
Holt manteve as mos nos bolsos.
-Olhem, sentimentos e sesses espritas  parte, o que precisam so as esmeraldas. Se quiserem minha ajuda, ento preciso estar  par de tudo.
-Uma sesso -Cody se secou os olhos-. Deveriam celebrar outra. Penduraremos o retrato no restaurante. Com isso como centro, teremos xito. Tenho que verificar as cartas astrolgicas -ficou de p e saiu da estadia.
-Sem lhe subtrair mrito a Cody -disse Trent-, possivelmente seja melhor que ponha ao Holt  parte de um modo mais convencional.
-Prepararei caf -Suzanna jogou uma ltima olhada ao retrato antes de ir  cozinha.
Enquanto moa gros de caf pensou que no havia muito que Trent pudesse lhe dizer. Holt j conhecia a lenda, a investigao que tinham realizado, o perigo ao que se haviam visto expostas suas irms. Era possvel que graas a seu treinamento pudesse espremer mais que eles dita informao. Mas no sabia se lhe importaria tanto como a sua famlia.
Sabia que a motivao emocional podia trocar as vistas. E que sem ela no se podia conseguir nada importante.
Ele tinha paixo. Mas, essas paixes iriam alm da necessidade fsica? "No comigo", assegurou-se, medindo o caf. Tinha falado a srio quando lhe disse que no queria relacionar-se. No podia permitir-se voltar a estar apaixonada.
Temia que ele tivesse razo no referente a uma aventura. Se no era o bastante forte para resisti-lo, esperava dispor da fora necessria para manter separados seu corao e seu corpo. No podia ser to ruim precisar ser tocada e desejada. Possivelmente ao entregar-se a ele de um modo fsico, poderia demonstrar-se que no era um fracasso como mulher.
Deus, queria voltar a sentir-se como mulher, a experimentar essa corrente de prazer e liberao. Tinha quase trinta anos, e o nico homem com o que tinha mantido intimidade tinha censurado seu desejo. Durante quanto tempo poderia continuar perguntando-se se tinha tido razo?
Sobressaltou-se ao sentir mso em seus ombros.
Devagar, consciente da facilidade com a que tinha empalidecido, Holt a fez girar para que o olhasse.
-Onde estava?
-OH, at o pescoo arrancando ervasdaninhas.
- uma boa mentira se pusesse mais vida nela -mas no a pressionou-. Vou falar com o tenente Koogar. Deixaremos o caf para outra vez.
-De acordo, levarei-o.
-Vou com o Max e com o Trent.
-Ah sim, s homens -arqueou as sobrancelhas.
-s vezes funciona melhor dessa maneira -passou o polegar pelo cenho em um gesto tenro que os surpreendeu aos dois. Contendo-se, deixou cair a mo-. Se preocupa muito. Chamarei-a.
-Obrigado. No esquecerei o que faz por ns.
-Esquea- aproximou e a beijou at deixar todas as suas extremidades frouxas-. Preferiria que lembrasse disto.
Partiu e Suzanna se sentou em uma cadeira. E ficou a record-lo.

Captulo 6
 
Holt se disse que no gostava de ser um bom samaritano. Depois de ter uns dados mais claros da situao, fazia o que considerava melhor. Algum tinha que vigi-la at que apanhassem ao Livingston. O melhor modo de no perder a de vista era manter-se perto dela.
Entrou no estacionamento e se situou ao lado da caminhonete. Viu que Suzanna se achava no exterior com uns clientes, assim foi dar uma volta.
J tinha passado por diante de Jardins da Ilha, mas nunca se deteve. No tinha tido motivo para isso. Havia muitas flores sobre mesas de madeira ou em vasos de barro chamativos. Embora no saberia as distinguir, se podia reconhecer seu atrativo. Ou possivelmente se devia ao feito de que o ar cheirava a Suzanna.
Chegou  concluso de que era evidente que ela sabia o que tinha ali. Reinava uma grande ordem, potencializado por uma informalidade que convidava aos curiosos a dar uma olhada, ao tempo que os tentava a comprar.
Olhava uma bandeja de rosas quando ouviu o rangido de folhas no arbusto de atrs. Ficou tenso, e os dedos procuraram a arma que j no levava. Suspirou e se amaldioou. Tinha que superar essa reao. J no era policial e no era provvel que algum lhe saltasse pelas costas para lhe cravar uma faca de dezesseis centmetros.
Girou um pouco a cabea e viu o jovem detrs de um expositor de petunias. Alex sorriu e ficou de p.
-Peguei voc! -danou alegre ao redor das flores-. Era um pigmeu e o acertei com um dardo envenenado.
-Sou afortunado de ser imune ao veneno dos pigmeus. Se tivesse sido veneno dos ubangi, estaria morto. E sua irm?
-No estufa. Mame nos deu sementes e essas coisas, mas me aborrecia. Posso vim para c-se apressou a explicar, sabendo a rapidez com a que os adultos podiam complicar uma situao-. Mas no posso me aproximar da rua e nem atirar em ningum.
-Matou   a muitos clientes hoje? -no queria atrapalhar  a diverso.
-Tudo vai muito lento. Segundo mame, porque  segunda-feira. Por isso podemos vir trabalhar com ela e Carolanne ter o dia livre.
-Voc gosta de vir aqui?
Holt no soube como tinha acontecido, mas o menino e ele caminhavam por entre as flores e tinha a mo do Alex na sua.
-Claro, gosto muito. Plantamos coisas e as regamos. s vezes levamos as compras dos clientes at os carros e recebemos moedas .
-Parece um bom trato.
-E mame fecha ao meio dia. Passeamos at a pizzaria e jogamos nas video locadoras. Vamos todas as segundas-feiras. Exceto... -calou e chutou o cascalho.
-Exceto o que?
-Que a prxima semana estaremos de frias e mame no ir.
Holt observou a cabea inclinada do menino e se perguntou que diabos fazer.
-Ah... suponho que est muito ocupada aqui.
- Carolanne poderia trabalhar ou outra pessoa e ela vir. Mas no o far.
-No acredita que lhes acompanharia se pudesse?
-Suponho -voltou a dar um chute nos cascalhos e quando Holt no o repreendeu, fez-o uma terceira vez-. Temos que ir a um lugar chamado Martha's Vineyard, com meu pai e sua nova esposa. Mame diz que ser divertido, que iremos  praia e tomaremos sorvetes.
-Parece divertido.
-Eu no quero ir. No sei por que tenho que ir. Eu quero ir ao Disney World com mame.
Quando ao pequeno soluou, Holt suspirou e ficou com pena.
- difcil fazer coisas que no queremos. Suponho que ter que cuidar de Jenny enquanto estejam fora.
-Suponho -Alex encolheu os ombros e aspirou o ar-. Ela tem medo de ir. Mas s tem cinco anos.
-Com voc estar bem. Direi-te o que faremos; durante sua ausncia, eu cuidarei de sua me.
-Valeu -sentindo-se melhor, Alex limpou o nariz com o dorso da mo-. Posso ver onde lhe atiraram na perna?
-Claro -Holt assinalou uma cicatriz de uns dez centmetros na perna esquerda, justo em cima do joelho.
-Ceus -como Holt no parecia lhe importar, passou um dedo por cima-. Suponho que por ter sido policial, cuidar bem de mame.
-Certamente que o farei.
Suzanna no teve certeza do que sentiu ao ver o Holt. Mas soube que algo quente se agitou em seu interior quando Holt acariciou o cabelo de Alex.
-Ol, e o que  isto?
Os dois vares intercambiaram um olhar rpido e particular antes de que Holt se soerguesse.
-Um bate-papo de homens -disse, e apertou a mo de Alex.
-Sim -o pequeno disse-. Um bate-papo de homens.
-Compreendo. Bom, odeio interromp-los, mas se quiser pizza, ser melhor que lavar suas  mos.
-Ele pode vir? -perguntou Alex.
-Seu nome  senhor Bradford -indicou Suzanna.
-Seu nome  Holt -Holt lhe piscou os olhos um olho para o pequeno e recebeu um sorriso em troca.
-Pode?
-Vamos ver.
-Isso diz muito -confiou Alex, e logo saiu correndo em busca de sua irm.
-Suponho que  verdade -Suzanna suspirou e se voltou para o Holt-. Que posso fazer por voc?
Usava o cabelo solto, com uma boina azul que lhe dava aspecto de ter dezesseis anos. De repente Holt se sentiu tolo e incmodo como um adolescente ao solicitar seu primeiro encontro.
-Continua necessitando ajuda de meio perodo?
-Sim -comeou a cortar begnias-. Todos os meninos do instituto tm trabalho para o vero.
-Eu posso te dar umas quatro horas ao dia.
-O que?
-Possivelmente cinco -continuou enquanto ela o olhava-. Tenho que realizar alguns trabalhos de reparao, mas posso estipular meu prprio horrio.
-Quer trabalhar para mim?
-Sempre e quando s tenha que carregar e plantar coisas. No penso vender flores.
-No pode falar a srio.
-Claro que sim. No as venderei.
-No, refiro-me em relao a trabalhar para mim. J tem seu prprio negcio, e eu no posso me permitir o luxo de pagar mais que o salrio mnimo.
-No quero seu dinheiro.
-Agora sim que no sei o que pensar - afastou o cabelo dos olhos.
-Olhe, pensei que poderamos fazer uma troca. Eu a ajudarei com o trabalho mais pesado, e voc pode arrumar um pouco meu jardim.
-Quer que arrume seu jardim? -sorriu.
-No precisa exagerar com as plantas nem nada parecido -as mulheres sempre complicavam as coisas-. Alguns arbustos mais, isso  tudo. E bem, quer que fechemos um trato ou no?
O sorriso dela se transformou em uma gargalhada.
-Um dos vizinhos dos Anderson admirou nosso trabalho em equipe. Comeo amanh com eles -estendeu a mo-. Vem as seis.
-Da manh? -perguntou com uma careta.
-Exato. E agora, o que te parece se comer conosco?
-Perfeito -lhe estreitou a mo-. Ento vamos.







"Santo Deus, a mulher trabalha como um elefante. No, como dois elefantes", corrigiu Holt enquanto o suor lhe escorria0 pelas costas. Via-se com um pico ou uma p na mo to freqentemente, que dava a impresso de achar-se em uma equipe de trabalhos forados.
Nos trs dias que estava com ela, tinha abandonado a idia de tentar no deix-la fazer nenhum dos trabalhos pesados. Suzanna no lhe dava ateno e fazia o que queris e pronto. Quando retornava para casa no meio da tarde, com cada msculo docorpo dolorido, perguntava-se como diabos ela era capaz de manter esse ritmo.
Ele no podia lhe dar mais de quatro ou cinco horas entre suas prprias tarefas. Mas sabia que Suzanna fazia de oito a dez todos todos os dias. No custava ver que se enfiava no trabalho para no pensar no fato de que os meninos partiriam no dia seguinte.
Baixou o picareta e encontrou rocha. A vibrao lhe percorreu os braos. Ouvindo uma corrente de maldies, Suzanna ergueu a vista de onde estava.
-Por que no descansa um pouco? Eu posso acabar isso.
-Trouxe a dinamite?
Ela sorriu um instante.
-No, de verdade. v pegar um refresco da geladeira. J estamos quase preparados para plantar.
-Perfeito -odiava reconhecer que tudo isso comeava a acabar com ele. Tinha calos em cima de calos e sentia os msculos como se tivesse passado dez assaltos com um campeo... e perdido. Secou-se o rosto e o pescoo e se dirigiu  geladeira pequena que tinham deixado  sombra de um arvore. Ao tirar uma tonica, ouviu o pico golpear contra o cho rochoso-.  uma luntica, Suzanna. Este  o tipo de trabalho que do aos presidirios. Que diabos acredita que vai crescer nessa rocha?
-Surpreenderia-te -se secou o suor que jorrava aos olhos-. V os lrios? -grunhiu ao remover uma pedra-. Os plantei faz dois anos.
Ele observou a profuso de flores altas e coloridas com relutante admirao. Tinha que reconhecer que melhoravam o terreno rochoso e agreste, embora no sabia se valia a pena.
-Os Snyder me deram meu primeiro trabalho de verdade -elevou uma rocha e a jogou no carrinho de mo. Estirou as costas-. Foi um trabalho nascido da simpatia, j que eram amigos da famlia e viram que a pobre Suzanna necessitava uma oportunidade. Surpreendi-os ao lhes demonstrar que sabia o que fazia, e aps volto a trabalhar aqui de vez em quando.
-Estupendo. Quer deixar essa maldita coisa durante um minuto?
-Quase terminei.
-No terminar at que a derrube. Quem vai ver umas poucas flores aqui acima?
-Os Snyder as vero, seus convidados as vero -moveu a cabea para limpar do calor-. O fotgrafo de Jardins de Nova a Inglaterra as ver -levou uma mo  cabea e a passou por cima dos olhos-. Em setembro plantaremos alguns bulbos. Lrios anes, flores silvestres. Alguns nardos e ... -comeou a sentir um enjo.
Holt se lanou da sombra ao sol quando viu que o pico escorria de suas mos. Ao sustent-la, deu a impresso de que se derretia em seus braos.
Amaldioa-la  ajudou-o a desterrar o medo enquanto a levava a sombra da rvore. Ao deposit-la sobre a erva fresca o corpo dela era como cera quente.
-Acabou-se -colocou a mo na geladeira e passou agua gelada no seu rosto-. Terminou, ouviu? Se te voltar a ver com uma picareta na mo, te mato.
-Estou bem -disse com voz fraca, mas claramente irritada-. Peguei um pouco mais de sol -a gua na cara lhe pareceu celestial, embora as mos do Holt fossem um pouco speras. Tirou a tampa da tonica e bebeu com cuidado.
-Muito sol, muito trabalho -se queixava ele-. E pelo que vejo, pouca comida ou descanso.  um desastre, Suzanna, e j cansei.
-Muito obrigado -lhe afastou as mos e se apoiou contra a rvore. Reconhecia que necessitava um minuto, mas no um discurso-. Eu sei, mas tenho coisas na cabea.
-No me importa o que tenha na cabea -"Deus, est branca como um papel". Quis abra-la at que suas bochechas recuperavam a cor, lhe acariciar o cabelo at que estivesse outra vez forte e descansada. Mas manifestou a preocupao em forma de fria-. Te vou levar a casa e vai ficar na cama.
-Acredito que esquece quem trabalha para quem -mais firme, deixou o refresco no cho.
-Quando adoece, fico no comando.
-No estou doente -cortou crispada-. Tive uma vertigem. E ningum tomar mandar mim, nem agora nem nunca. Deixa de me passar gua pela cara, vai em afogar.
- teimosa e obviamente estpida.
-Perfeito. Se tiver terminado de gritar, vou fazer um intervalo para almoar -sabia que tinha que comer. No lhe importava ser teimosa, mas no era estpida. "O que fui", reconheceu ao tirar um sanduiche da geladeira, "ao pular o caf da manh".
-Ainda no terminei de falar.
Suzanna se encolheu de ombros enquanto lhe tirava o plstico do sanduiche.
-Ento pode falar enquanto como. Ou pode deixar de perder tempo e almoar.
Pensou em arrast-la at a caminhonete. A idia era boa, mas os benefcios s seriam a curto prazo. Como no podia prende-la em um quarto, no poderia impedir que se matasse a trabalhar.
"Mas ao menos est comendo", refletiu. E suas bochechas tinham recuperado a cor.  Com gesto casual tirou um sanduiche.
-Estive pensando nas esmeraldas.
-OH? -a mudana de tema e de atitude a surpreendeu.
-Li a transcrio que fez Max da entrevista com a senhora Tobas, a donzela. E escutei a fita.
-O que pensa?
-Que tem uma boa memria e que Bianca a impressionou. Desde seu ponto de vista, a concluso  que Bianca era infeliz em seu matrimnio, estava entregue a seus filhos e apaixonada por meu av. Fergus e ela j se achavam em terreno pantanoso quando brigaram pelo co. Suporemos que essa foi a gota que encheu o copo. Ela decidiu deix-lo, mas no partiu aquela noite. Por que?
-Embora ao fim tivesse tomado a deciso -respondeu Suzanna devagar-, teria que ter arrumado muitas coisas. Ela teria que ter pensado em seus filhos -isso o entendia muito bem-. Aonde poderia lev-los, como ter a certeza de poder mant-los. Embora o matrimnio fora um desastre, teria que planejar com cuidado como lhes dizer que os ia afastar de seu pai.
-De modo que quando Fergus partiu para Boston depois da Briga ela ficou e planejou. Temos que supor que foi ver meu av, porque ele terminou ficando com o co.
-Amava-o -murmurou Suzanna-. Seria a primeira pessoa a que teria recorrido. E ele a amava, de maneira que teria querido ir com ela e os meninos.
-Se aceitarmos isso, temos que dar o seguinte passo nessa direo. Ela retornou s Torres a fazer as malas, a reunir os meninos. Mas em vez de reunir-se com meu av e cavalgar juntos para o crepsculo, atirou-se pela janela da torre. Por que?
-Achava-se emocionada -com os olhos entreabridos, Suzanna cravou a vista nos raios de sol-. Estava a ponto de dar um passo que poria fim a seu matrimnio e separaria aos meninos de seu pai. Romperia seus votos.  to difcil, to aterrador.  como morrer. Possivelmente pensou que era um fracasso como mulher, e quando seu marido voltou para casa e teve que enfrentar-se a ele e a si mesmo, no foi capaz.
-Foi assim para voc? -acariciou-lhe o cabelo.
-Falamos da Bianca -seus ombros enrijeceram-. E no vejo o que tem que ver com as esmeraldas o motivo pelo qual se suicidou.
-Primeiro descobrimos por que as escondeu -apartou a mo do cabelo dela-, logo nos ocupamos de onde.
Devagar, ela voltou a relaxar-se.
-Fergus as deu de presente quando nasceu seu primeiro filho varo. No sua primeira filha. Uma garota no alcanava o nvel que ele queria -bebeu outro gole de tonica para eliminar parte de sua prpria amargura-. Suponho que a ela isso ter dodo. Receber uma recompensa, como se fora uma gua puro sangue, por lhe dar um herdeiro. Mas, eram delas porque o menino era seu -fechou as plpebras-. Bax me deu de presente diamantes quando nasceu Alex. No me senti culpada de vend-los para montar meu negcio. Porque eram meus. Possivelmente ela sentisse o mesmo. As esmeraldas lhe teriam proporcionado uma nova vida, tanto para ela como para os meninos.
-Por que as escondeu?
-Para certificar-se de que ele no as encontrasse e a impedisse de ir. Assim Bianca saberia que tinha algo dele.
-Escondeu voc os diamantes, Suzanna?
-Coloquei na bolsa dos fraldas da Jenny. O ltimo lugar onde Baxter olharia -riu e arrancou umas fibras de erva-. Soa to melodramtico. Mas notou o que ele no sorria.
-Me parece muito inteligente. Bianca passava muito tempo na torre, certo?
-J olhamos ali.
-Voltaremos a faz-lo, e desmontaremos seu dormitrio.
-Lilah adorar -voltou a fechar os olhos. O sanduiche e a sombra lhe comeavam a dar sonho-. Agora  seu dormitrio. E tambm olhamos ali.
-Eu no.
-No -decidiu que no lhe faria nenhum dano estirar-se enquanto terminavam de analisar a situao. A grama estava fresca e branda-. Se encontrssemos seu diario, saberamos as respostas. Mandy repassou todos os livros da biblioteca, se por acaso se tivesse misturado igual  carta roubada.
-daremos outra olhada -comeou a lhe acariciar outra vez o cabelo.
-A Mandy nada passa despercebido.  muito organizada.
-Prefiro verificar terreno velho antes que depender de uma sesso esprita.
Ela emitiu um som pela metade entre uma risada e um suspiro.
-A tia Cody o convencer -comentou com fadiga, devemos plantar as rosas.
-De acordo -com delicadeza lhe massageou os ombros
Ela murmurou algo sobre as rochas e adormeceu.
Holt a deixou ali  sombra e retornou ao sol.
A grama o fazia ccegas na bochecha quando despertou. ps-se de barriga para baixo e dormido como um tronco. Aturdida, abriu os olhos. Viu o Holt sentado com as costas contra o tronco, com as pernas cruzadas  altura dos tornozelos. Observava-a enquanto se levava um cigarro aos lbios.
-Devo ter adormecido.
-Poderia-se dizer que sim.
-Sinto muito -se apoiou em um cotovelo-. Falvamos das esmeraldas.
-J falamos muito no momento -atirou o cigarro. Com um movimento veloz enganchou as mos sob os braos dela e a aproximou.
Antes de que Suzanna estivesse plenamente acordada, encontrou-se no colo de Holt com a boca dele sobre os lbios.
Desarmada e desorientada, afastou o rosto. O sangue tinha passado de lento e frio a rpido e aceso. O corpo, reparado pelo sono, lhe esticou como um arco. Respirou fundo. Quo nico podia ver era a cara dele, os olhos escuros e perigosos, a boca dura e faminta. Logo tudo se tornou impreciso quando Holt voltou a beij-la.
Deixou-o tomar o que parecia precisar tomar com desespero. Sob a sombra da arvore se pegou a ele, respondendo a cada exigncia. Quando voltou a experimentar o enjo, regozijou-se. No era uma debilidade contra a que tivesse que lutar. Com um juramento, ele enterrou a cara no pescoo da Suzanna, onde o pulso lhe pulsava com fora. Nada nem ningum o tinha feito sentir jamais dessa maneira. Frentico e tremente. Cada vez que sua boca retornava a beij-la, era com um novo matiz de desespero, cada um mais agudo que o anterior. Atravessaram-no dzias de sensaes, todas agudas e mortferas. Quis afast-la, afastar-se antes de que o fragmentassem. Quis rodar com ela sobre a erva suave e fresca e desterrar todos os desejos e necessidades.
Mas ela o rodeava com os braos e lhe revolvia o cabelo enquanto seu corpo tremia. Logo lhe acariciou a cara com a bochecha, em um gesto que foi quase insuportavelmente doce.
-O que vamos fazer? -murmurou Suzanna. Apoiou os lbios na pele dele e suspirou.
-Acredito que os dois conhecemos a resposta.
Ela fechou os olhos. Era to singelo para ele. Durante um momento escutou o zumbido das abelhas nas flores.
-Preciso de tempo.
Holt apoiou as mos nos ombros dela e a retirou at que ficaram cara a cara.
-Pode que no seja capaz de lhe dar isso J no somos meninos e me cansei que me perguntar como seria.
Ela soltou ar com gesto trmulo. Compreendeu que a agitao no bulia unicamente em se interior. Tambm a sentia nele.
-Se pedir mais do que posso dar, os dois ficaremos decepcionados. Desejo-te -conteve um ofego quando os dedos dele apertaram com mais fora-. Mas no posso cometer outro engano.
-Quer promessas? -perguntou com os olhos entreabertos.
-No -respondeu ela com sinceridade-. No. Mas tenho que manter as que fiz a mim mesma. Se me entregar a voc, tenho que me certificar de que no  sozinho algo que desejo, a no ser algo com o que poderei viver -elevou uma mo para apoi-la em sua bochecha-. Uma coisa se posso te prometer, e  que se chegarmos a ser amantes, no o lamentarei.
-Quando o formos -corrigiu sem poder discutir com ela, no quando o olhava dessa forma.
-Quando o formos -conveio, ficando de p, sentia-se mais forte. "Quando o formos", repetiu-se para si mesmo. J tinha aceito que era uma simples questo de tempo-. Mas, por agora, temos que tomar as coisas conforme vm. Devemos terminar um trabalho.
-Est terminado -se levantou quando ela se deu a volta.
As flores estavam em seu lugar, o estou acostumado a aplainado e talher de turfa. Onde antes s havia rochas e cho fino e sedento, nesse momento se viam umas flores jovens e folhas tenras e verdes.
-Como? -perguntou, correndo para inspecionar o trabalho.
-Dormiu por trs horas.
-Trs... -olhou-o consternada-. Porque no me acordou?
-No o fiz. E agora tenho que ir, j  tarde.
-Mas no teria que...
-Parece -sentiu impacincia-. Quer arrancar as malditas coisas e as plantar voc?
-No -o estudou e compreendeu que no s se sentia zangado, a no ser envergonhado. Fazia algo doce e considerado ao dedicar trs horas plantando algo do que at ento fazia piada. Com as mos nos bolsos, parecia dizer que, se o agradecesse, grunhiria.
Foi nesse momento, olhando-o sobre o pendente pedregoso, quando se deu conta do que tinha negado para admiti-lo em seus braos, ao insistir em que s era paixo e necessidade. Amava-o. No s pelos beijos ardentes e as mos exigentes, mas sim pelo homem que havia debaixo. O homem que passaria uma mo pelo cabelo de seu filho ou responderia s perguntas incessantes de sua pequena. O homem que deixaria manchas de pintura no cho em memria de seu av.
O mesmo que plantaria flores por ela enquanto dormia.
Holt se moveu incmodo sob seu olhar.
-Escuta, se voltar a desmaiar, deixarei-a onde caia. No tenho tempo para ficar de bab.
O rosto dela esboou um sorriso lento e formoso, confundindo-o. Tambm o amava por isso... pela impacincia que ocultava a compaixo.  obvio, ia necessitar tempo para pensar. Para adaptar-se. Mas no momento, esse momento, podia experimentar essa corrente de sentimentos e estar satisfeita.
-Fez um bom trabalho.
Ele olhou as flores, convencido de que preferiria que lhe arrancassem a lngua antes que reconhecer que tinha gostado do trabalho.
-S ter que as colocar nos buracos e cobrir as razes com terra -o descartou com um movimento de ombros-. guardei as ferramentas na caminhonete. Tenho que ir.
-Entregarei o trabalho para os Bryce at na segunda-feira. Amanh... amanh tenho que estar em casa.
-De acordo. Veremo-nos logo.
Enquanto ele se dirigia a seu carro, Suzanna se ajoelhou para acariciar os casulos frgeis e novos.








Na cabana perto da gua, o homem que se chamava a si mesmo Marshall completou uma busca minuciosa. Encontrou algumas coisas de interesse menor. O ex-polcia gostava de ler e no cozinhava. Guardava suas medalhas em uma caixa metida no fundo de uma gaveta, e 32 carregada na mesinha de cabeceira.
Depois de inspecionar um escritrio, Marshall descobriu que o neto do Christian fazia algumas investimentos ardilosos. Resultou-lhe divertido ver que um ex-policial de antivicio tivesse tido o suficiente sentido comum para criar uma rede de amparo. Tambm era interessante que o treinamento tivesse impulsionado ao Holt a escrever um relatrio detalhado de tudo o que sabia sobre as esmeraldas Calhoun.
Esteve a ponto de perder a compostura ao ler a respeito da entrevista com a antiga criada, essa que tinha localizado Maxwell Quertermain. Este teria que ter estado trabalhando para ele. Ou morto. Marshall experimentou a tentao de destroar o lugar, de derrubar mveis, romper abajures. De ceder a uma orgia de destruio.
Mas se obrigou a manter a calma. No queria revelar sua presena. Ainda no. Possivelmente no tivesse encontrado nada importante, mas sabia tanto como os Calhoun.
Com muito cuidado, colocou os papis de volta em seu lugar e fechou as gavetas. O co comeava a ladrar no ptio. Detestava os ces. Com uma careta, esfregou-se a cicatriz da perna onde o pequeno vira-lata dos Calhoun o tinha mordido. Teriam que pagar por isso. Todos iriam pagar.
"E o vo", pensou. Quando tivesse as esmeraldas.
Abandonou a cabana tal como a tinha encontrado.


No escreverei do inverno. No  uma lembrana que deseje reviver. Mas no fui a ilha. No pude faz-lo. Nesses meses ela jamais esteve fora de meus pensamentos. Na primavera, ficou comigo. Em meus sonhos.
E ento chegou o vero.
 impossvel escrever como me senti quando a vi correr para mim. Poderia pint-lo, mas nunca conseguiria encontrar as palavras. Vaguei por esses penhascos, esperando-a. Foi to fcil me convencer de que simplesmente bastaria vendo-a, voltando a falar com ela se descesse pelo pendente, atravs das flores silvestres e sentasse nas rochas a meu lado.
E de repente me chamava por meu nome e corria, com os olhos cheios de jbilo. Estava em meus braos, sua boca na minha. E soube que tinha sofrido tanto como eu. Que amava como eu amava.
Os dois sabamos que era uma loucura. Talvez eu poderia ter sido mais forte, poderia hav-la convencido de que se fora e me deixasse. Mas algo tinha mudado nela durante o inverno. J no se sentia satisfeita s vazio que me tinha informado que representava seu matrimnio. Seus filhos, to queridos, no podiam forjar um vnculo entre ela e o marido que unicamente queria obedincia e dever completo. Entretanto, no podia lhe permitir que se entregasse para mim, que desse o passo que lhe produziria culpa, vergonha ou arrependimento.
De modo que nos vimos um dia atrs de outro nos penhascos, com toda inocncia. Para falar e rir, para fingir que o vero era interminvel. s vezes trazia os meninos e quase formavamos uma famlia. Era uma temeridade, mas de algum modo no acreditvamos que nada pudesse nos tocar enquanto estivssemos ali, entre o cu e o mar, com as cpulas da casa longe a nossas costas.
Fomos felizes com o que tnhamos. Nem antes nem depois houve dias mais felizes em minha vida. Um amor assim carece de princpio ou fim. No est mau nem bem. Naqueles brilhantes dias do vero, ela no era a mulher de outro homem. Era minha.
Uma vida depois, estou aqui sentado neste corpo velho e contemplo a gua. Seu rosto, sua voz, surgem com tanta claridade...
Bianca sorriu.
-Estava acostumado a sonhar que estava apaixonada.
Tinha-lhe tirado os alfinetes do cabelo para que minhas mos pudessem soltar-lhe Um prazer nfimo e precioso.
-Segue sonhando-o?
-J no me faz falta -se inclinou para mim para me roar os lbios com os seus-. Nunca mais terei que sonhar. Somente desejar.
Tomei a mo para beij-la e observamos o vo majestoso de uma guia.
-Esta noite h um baile. Desejaria que estivesse ali comigo, para danar -continuou.
Pus-me de p, ajudei-a a incorporar-se e comecei a danar com ela entre as flores silvestres.
-Me diga que te por, para que possa verte.
Rindo, elevou sua cara para me olhar.
-Porei-me seda de tom marfim com um suti baixo que mostrar meus ombros e uma parte inferior com lentejoulas para capturar a luz. E minhas esmeraldas.
-Uma mulher no deveria parecer triste ao falar de esmeraldas.
-No -sorriu . Estas vez so muito especiais. Tenho-as desde que nasceu Ethan, e me ponho isso para no esquecer.
-O que?
-Que acontea o que acontecer, os meninos so minhas verdadeiras jias -quando uma nuvem tampou o sol, apoiou a cabea sobre meu ombro-. me abrace mais, Christian.
Nenhum dos dois falou do vero que com tanta claridade chegava a seu fim, mas sei que ambos pensamos naquele momento em que meus braos a sustentavam perto e nossos coraes pulsavam juntos no baile. Invadiu-me a fria do que logo voltaria a perder.
-Daria-te esmeraldas, diamantes, safiras -lhe esmaguei os lbios com minha boca-. Tudo isso e mais, Bianca, se pudesse.
-No -elevou as mos a minha cara e vi que as lgrimas cintilavam em seus olhos-. S me ame -pediu.
S me ame.


Captulo 7

Holt estava em casa menos de trs minutos quando soube que algum tinha entrado. Podia ter entregue o distintivo, mas seguia tendo olhos de polcia. No havia nada evidentemente fora do lugar... mas um cinzeiro se achava mais perto do bordo da mesa, uma cadeira ocupava um ngulo levemente diferente em relao  chamin, a ponta de um tapete estava levantada.
Alerta, passou do salo ao dormitrio. Ali tambm encontrou sinais. Notou a nfima mudana nos travesseiros, os livros movidos das prateleiras, enquanto cruzava a habitao para tirar a arma da gaveta. depois de comprovar o carregador, empunhou-a para continuar a inspeo.
Trinta minutos mais tarde, guardou a pistola. Tinha o rosto inexpressivo, os olhos duros. Tinham movido as telas de seu av, no muito, mas o suficiente para lhe revelar que algum os, tinha estudado. E essa era uma violao que no podia tolerar.
Quem quer que o tivesse feito, era um profissional. E estava seguro de quem tinha sido. Isso significava que Livingston se achava perto, sem dvida sob outra identidade. O bastante perto para ter descoberto a relao do Bradford com os Calhoun. E as esmeraldas.
Enquanto acariciava a cabea de Sadie, que gemia a seus ps, decidiu que j era algo pessoal.
Saiu pela porta da cozinha para sentar-se no alpendre a contemplar a gua com seu co e uma cerveja na mo. Deixaria que seu temperamento se serenasse e que sua mente vagasse, analisando todas as peas do quebra-cabeas, as colocando uma e outra vez at que comeasse a formar um quadro.
A chave era Bianca. Devia recorrer  mente, as emoes e as motivaes dela. Acendeu um cigarro e apoiou os tornozelos cruzados no corrimo do alpendre enquanto a luz comeava a suavizar-se e a converter-se em crepsculo.
Uma mulher formosa, com um matrimnio infeliz. Se lhe serviam como referncia as mulheres Calhoun que ele conhecia, Bianca tambm teria tido uma vontade forte e teria sido apaixonada e leal. "E vulnervel", acrescentou. Isso se notava com fora nos olhos do retrato, semelhante aos olhos da Suzanna.
Tambm tinha pertencido aos degraus mais altos da escala social, tinha sido uma das privilegiadas. Uma jovem irlandesa de boa famlia que tinha celebrado um matrimnio extremamente bom.
Uma vez mais se parecia com a Suzanna.
Deu uma imerso ao cigarro e com ar distrado acariciou as orelhas de Sadie quando ela acomodou a cabea sobre seu colo. Seu olhar se viu atrada para o pequeno arbusto amarelo, a poro de sol que Suzanna lhe tinha dado. Segundo a entrevista com a antiga donzela, a Bianca tambm gostava das flores.
Tinha tido filhos e em todos os conceitos tinha sido uma me bondosa e entregue, enquanto que Fergus tinha sido um pai estrito e desinteressado. Ento tinha aparecido Christian Bradford.
Se Bianca realmente o tinha tomado como amante, tambm tinha assumido um enorme risco social. Como a esposa do Csar, de uma mulher em sua posio se esperava que fora irrepreensvel. Bastaria a leve insinuao de uma aventura, em particular com um homem por debaixo dela em fila social, e sua reputao teria ficado feita pedacinhos.
Entretanto, envolveu-se.
Perguntou-se se tudo tinha terminado sendo muito para ela. Se tinha sido devorada pela culpa e o pnico, se teria escondido as esmeraldas como uma espcie de ltima exibio de desafio, para ficar sumida no desespero ao pensar na vergonha e o escndalo do divrcio. Incapaz de enfrentar-se a sua vida, tinha escolhido a morte.
No gostava. Moveu a cabea e soltou uma baforada de fumaa. No gostava do ritmo das coisas. Possivelmente estivesse perdendo objetividade, mas no podia ver a Suzanna rendendo-se e atirando-se pelos penhascos. E havia muitas similitudes entre a Bianca e sua bisneta.
Possivelmente devesse tentar meter-se na cabea da Suzanna. Se a compreendesse, talvez pudesse chegar a compreender a sua desafortunada antepassada. "Possivelmente", reconheceu ao beber outro gole de cerveja, "possa me entender a mim mesmo". Os sentimentos que lhe inspirava pareciam sofrer mudanas radicais diariamente, at que j no sabia com exatido o que sentia.
Certamente, estava o desejo. Mas no era to simples. E sempre tinha contado com que fosse simples.
O que importava a Suzanna Calhoun? "Seus filhos", pensou imediatamente. Ningum se aproximava disso, embora o resto de sua famlia os seguia de perto. Seu negcio. deixaria-se a pele para fazer que funcionasse. Mas Holt suspeitava que seu af de xito girava em torno de seus filhos e sua famlia.
Inquieto, levantou-se e ficou a caminhar pelo alpendre. Sabia que tambm isso era algo que queria. A singela quietude da solido. Mas ali de p com a vista cravada na noite, pensou na Suzanna. No s no que tinha sentido ao t-la em seus braos, em como o fazia ferver o sangue, a no ser em como seria t-la nesse momento a seu lado, enquanto esperavam que sasse a lua.
Precisava meter-se em sua cabea, conseguir que confiasse nele para que lhe contasse o que sentia, como pensava. Se conseguia estabelecer esse vnculo com ela, estaria um passo mais perto de obt-lo com a Bianca.
Mas temia haver se envolvido muito. Seus prprios pensamentos e sentimentos nublariam seu julgamento. Queria ser amante dela mais do que tudo na vida. Afundar-se nela, ver como lhe obscureciam os olhos pela paixo at que essa expresso triste e ferida desaparecesse completamente. Fazer que se entregasse a ele como jamais se entregara a ningum... nem sequer ao homem com o que se casou.
Apertou as mos sobre o corrimo e se inclinou para a crescente escurido. Sozinho, envolto sob o manto da noite, reconheceu que seguia o mesmo caminho que seu av.
Estava apaixonando-se por uma Calhoun.
Era tarde quando entrou na casa. Mais tarde ainda quando conseguiu dormir.




Suzanna no tinha dormido nada. Toda a noite tinha permanecido acordada tratando de no pensar nas duas malas pequenas que tinha preparado. Quando ao fim conseguiu no pensar nisso, tinha pensado em Holt. Os pensamentos sobre ele a tinham agitado ainda mais.
Levantou-se o amanhecer para acrescentar umas poucas coisas e certificar-se de que tinha includo alguns dos brinquedos favoritos de seus filhos para que no sentissem muitas saudades de casa.
Durante o caf da manh se mostrou alegre, e agradecida  presena de sua famlia para lhe dar apio e nimo. Os dois pequenos tinham estado zangados e tristes, mas ao meio dia j tinha conseguido tirar deles este estado de nimo.
 uma, tinha os nervos a flor de pele e os meninos tinha tornado a ficar caprichosos. s duas temeu que Bax tivesse esquecido tudo, e se viu sumida entre a fria e a esperana.
s trs tinha chegado o carro, um Lincoln negro e brilhante. Quinze horrveis minutos mas tarde, seus filhos se foram.
No podia ficar em casa. Cody tinha se mostrado muito amvel  e Suzanna tinha temido que as duas se dissolvessem em um atoleiro de lgrimas. Tanto pelo bem de sua tia como pelo seu prprio, decidiu ir trabalhar.
Jurou que se manteria ocupada. Tanto que quando os meninos retornassem, nem teria notado sua ausencia.
Passou pela loja, mas a simpatia e a curiosidade de Carolanne estiveram a ponto de volt-la louca.
-No pretendo lhe aborrecer -se desculpou Carolanne quando as respostas da Suzanna foram secas-. S me preocupo com voc.
-Estou bem -escolhia flores quase com um cuidado obsessivo-. E lamento estar crispada contigo, mas hoje no  um de meus melhores dias.
-E eu sou muito curiosa -sempre de bom humor, Carolanne encolheu os ombros-. Eu gosto as de tom salmo -comentou enquanto Suzanna escolhia entre um grupo de flores de Nova Guinea-. Escuta, se quer te desafogar um pouco, me chame. Podemos fazer um programa de garotas..
-Agradeo-lhe.
-Quando quiser -insistiu Carolanne-.  um conjunto precioso de flores -acrescentou quando Suzanna ficou a carregar a seleo na caminhonete-. Tem outro trabalho?
- para pagar uma dvida -subiu ao veculo, saudou com a mo e se foi.
De caminho  casa do Holt, ocupou a mente distribuindo uma e outra vez o quadro de flores. J tinha eleito o ponto, prximo ao alpendre dianteiro, para que ele pudesse desfrut-lo sempre que entrasse ou sasse da cabana. Gostasse ou no.
O trabalho lhe ocuparia o resto do dia, logo se relaxaria dando um passeio pelos penhascos. O dia seguinte estaria na loja, logo dedicaria as ltimas horas da tarde aos jardins de Las Torres.
Um a um, os dias iriam passando.
Depois de estacionar no se incomodou em anunciar-se, mas sim ficou a trabalhar imediatamente. O resultado no foi o que tinha esperado. Enquanto cavava e trabalhava a terra, no obteve nenhuma relaxamento. Sua mente no se esvaziou de preocupaes nem se encheu com o prazer de plantar. Em seu lugar, uma dor de cabea comeou a crav-la detrs dos olhos. Levou um composto de terra no carrinho de mo e o verteu sobre o solo. Enquanto o alisava com o rastelo Holt saiu.
Estava a quase dez minutos observando-a detrs da janela, odiando o fato de que os ombros fortes estivessem encurvados e os olhos apagados pela tristeza.
-Pensei que fosse tomar te o dia livre.
-Mudei de idia -sem levantar a vista, levou o carrinho de mo de volta  caminhonete e a carregou com terra.
-Que diabos  isso?
-Seu pagamento. Este  nosso trato.
Carrancudo, baixou um par de degraus.
-Eu disse que poderia plantar um par de arbustos.
-Estou plantando flores -calcou a terra-. Qualquer com um mnimo de imaginao pode ver que este lugar pede flores a gritos.
"Ento  quer brigar", notou, apoiando-se nos calcanhares. "Bom, posso agrad-la".
-Teria sido melhor que me consultasse antes de transformar o ptio em uma sarjeta.
-Por que? Teria posto uma expresso desdenhosa e feito algum comentrio machista.
- meu jardim, encanto -baixou outro degrau.
-E eu estou plantando flores nele. Encanto -elevou a cabea.
"Se, estiver o bastante furiosa, para soltar pregos pela boca", pensou Holt. "E tambm se sente desventurada".
-Se no querer se incomodar em regar ou cuidar -continuou Suzanna-, eu o farei. Por que no volta l dentro e deixa que eu me ocupe de tudo?
Sem aguardar uma resposta, retornou ao trabalho. Holt se sentou enquanto ela acrescentava lavandas e consueldas, dlias e rosas. Fumou com despreocupao, notando que as mos dela mostravam a segurana e graciosidade de sempre.
-Plantar flores no parece ajud-la a melhorar seu estado de nimo.
-Meu estado de nimo esta bem. De fato  perfeito -arrancou um ramo e amaldioou-. Por que no ia ser s por ter tido que ver a Jenny subir a esse maldito carro com lgrimas nos olhos? S por ter tido que me afastar e lhe sorrir ao Alex quando olhou com boca tremente e expresso que me suplicava que no o deixasse ir? -quando os olhos lhe encheram de lgrimas, as afastou-. E por ter tido que suportar que Bax me acusasse de ser uma me superprotetora e castradora que estava convertendo a seus filhos, seus filhos, em seres fracos?
Colocou a p na terra.
-No so tmidos nem fracos -continuou com veemncia-. S so meninos. Por que no iriam ter medo de ir com ele, quando no os conhecem? E com sua mulher, que estava ali com seu traje italiano e sapatos de salto alto com aspecto angustiado e necessitado. No saber o que fazer se Jenny softer rer um pesadelo ou ao Alex ter dor estmago. E eu os deixei ir. Fiquei quieta e deixei que subissem naquele maldito carro com dois desconhecidos. Assim me sinto bem. Fantasticamente bem.
Levantou-se para levar o carrinho de mo  caminhonete. Quando retornou para estender a turfa, ele se tinha ido. Obrigou-se a realizar a tarefa com cuidado, recordando-se que ao menos ali tinha o controle.
Holt voltou com uma mangueira conectada ao outro lado da casa e duas cervejas na mo.
-Eu as regarei. Bebe uma cerveja.
Secou-se a frente com a mo e franziu o cenho.
-No bebo cerveja.
- o nico que tenho -lhe ps uma lata na mo, logo apertou o gatilho da mangueira-. Acredito que j sei como levar a cabo esta parte -comentou com tom seco-. Por que no se senta?
Suzanna foi aos degraus e se sentou. Devido a que estava sedenta, bebeu um gole comprido, logo apoiou o queixo na mo e o observou. Tinha aprendido a no afogar as flores nem s amassar com um jorro forte. Suspirou e voltou a beber um gole.
"Nenhuma palavra de simpatia", pensou "Nenhuma palmada de flego nem a afirmao de compreender como me sinto". Tinha-lhe dado exatamente o que necessitava, uma parede silenciosa, contra a que arrojar sua desdita e fria. "Saber que me ajudou?". No estava segura, mas sim sabia que tinha ido ve-lo no s para plantar flores, no s para escapar de sua casa, mas sim porque o amava.
Desde que o sentimento se abriu e floresceu em seu interior, no se tinha dado tempo para refletir sobre isso. Tampouco se tinha dado a oportunidade de perguntar-se o que significaria para qualquer dos dois.
No era algo que ela quisesse. Jamais queria voltar a amar, no queria arriscar-se a ver-se submetida  dor e  humilhao provocados por um homem. Mas tinha acontecido.
No o tinha procurado. Unicamente tinha desejado paz mental, segurana para seus filhos, uma simples satisfao para si mesmo. Entretanto, tinha-o encontrado.
No sabia qual poderia ser a reao dele se o dizia. "Satisfar seu ego? Surpreender-o, espantar ou divertir?". Enquanto passava um brao ao redor do co que tinha ido reunir se com ela, disse-se que no importava. No momento, possivelmente para sempre, o amor era dele. J no esperava que as emoes se compartilhassem.
Holt fechou a gua. O quadro colorido acrescentava encanto  singela cabana de madeira. Inclusive lhe agradava reconhecer alguns dos casulos por seu nome. No ia perguntar lhe a ela por aqueles que desconhecia. J os buscaria.
-Elas vo se dar bem neste lugar.
-Quase todas so flores perenes -indicou Suzanna com o mesmo tom de voz casual-. Pensei que voc gostaria de v-las renascer um ano atrs de outro.
Era possvel, mas tambm sabia que recordaria com claridade como parecia magoada  e  infeliz ao plantar. No quis deter-se muito no muito que o incomodava imaginar ao Alex e a Jenny subindo com lgrimas nos olhos a um carro que os levava longe.
-Cheiram muito bem.
-So as lavandas -respirou fundo antes de levantar-se-. Irei fechar a torneira da mangueira -quase tinha girado pela esquina quando ele pronunciou seu nome.
-Suzanna. Ficaro bem.
Sem confiar em sua voz, ela assentiu e continuou. Achava-se agachada, com a cara do co perto, quando Holt chegou a seu lado.
-Sabe?, se pusesse alguns lrios e algumas sempre vivas nesse quadro, resolveria quase todos os problemas de eroso.
Colocou uma mo sob o cotovelo dela para ajud-la a erguer-se.
-Trabalhar  quo nico afasta sua mente dos problemas?
-Quase sempre.
-Tenho uma idia melhor.
-De verdade que no... -o corao quase saiu do peito.
-Vamos dar um passeio.
-Um passeio? -piscou.
-No barco. Dispomos de um par de horas antes que anoitea.
-Um passeio no barco -repetiu, alheia a que o tinha divertido com seu prolongado suspiro de alvio-. Sim, eu gostaria.
-Bem -a pegou pela mo e a levou at o embarcadero-. Solte as amarras.
Quando o co saltou ao lado dele, Suzanna compreendeu que se tratava de um velho costume. Para um homem que queria dar a impresso de no ter sentimentos, era  revelador que se levasse a um co de companhia quando entrava no mar.
O motor ganhou vida. Holt aguardou at que Suzanna subiu a bordo antes de pr rumo.
O vento lhe esbofeteou o rosto. Rindo, sujeitou-se a boina com uma mo para evitar perd-la no ar. Depois de encasquetar-lhe reuniu-se com ele ante o leme.
-Faz meses que no navego -gritou por cima do rudo do motor.
-Que sentido tem viver em uma ilha se no sair alguma vez  gua?
-Eu gosto de contempl-la.
Sadie ladrou s gaivotas e logo se acomodou sobre as almofadas do navio com a cabea no flanco, para que o vento pudesse lhe agitar as orelhas.
-Tem que lev-la outra vez a casa -comentou ela-. Fred no tornou a ser o mesmo desde que a conheceu.
-Algumas mulheres fazem o mesmo a um homem -a brisa salgada lhe levava o aroma de Suzanna, envolvendo-o em torno de seus sentidos. Tinha-a perto. A expresso de seus olhos seguia sendo distante e afligida, e soube que no pensava nele.
Avanou com destreza entre o trfico da baa. A estribor, o navio de trs mastros da ilha entrava no porto com sua multido de turistas.
A baa deu passo ao mar e a gua se tornou menos serena. Os penhascos se elevavam no ar. As Torres, arrogantes e desafiantes, erguiam-se em sua colina, olhando fazia o povo e o mar. Sua sombria pedra cinza refletia a tonalidade das nuvens de chuva que havia ao oeste. Como uma miragem, o jardim da Suzanna representava umas nervuras de cores.
-s vezes quando ia capturar lagostas com meu pai, elevava a vista para contempl-lo -"e pensar em voc"-. O castelo Calhoun -murmurou Holt-. Assim o chamava.
Suzanna sorriu e se protegeu os olhos enquanto estudava a imponente casa nos penhascos.
-Para mim  minha casa. Sempre foi isso. Quando a olho, penso na tia Cody preparando alguma receita nova na cozinha e em Lilah dormindo no salo. Nos meninos que brincam no jardim ou correm pelas escadas. Em Amanda sentada em seu escritrio, enquanto se abre passo de maneira meticulosa pelas montanhas de faturas que so necessrias para manter firme um lar. Em C.C. ao se esparramar sob o cap de uma velha caminhonete para ver se consegue operar um milagre e tirar um ano mais de vida do motor. s vezes vejo meus pais rindo  mesa da cozinha, to jovens... to vivos, cheios de planos -girou para manter a casa  vista-. Tantas coisas mudaram e mudaro. Mas a casa est a. Isso me consola. Voc deve entender, ou no teria eleito viver na cabana do Christian, com tudas suas lembranas.
Ele o entendia muito bem e isso o incomodava.
-Possivelmente s eu gosto de ter uma casa junto  gua.
Suzanna contemplou como desaparecia a torre de Bianca antes de voltar-se para olh-lo.
-Os sentimentos no lhe debilitam, Holt.
-Jamais pude estar perto de meu pai -afirmou, olhando carrancudo a gua-. No tinhamos os mesmos planos. A meu av jamais tive que lhe explicar ou lhe justificar nada do que sentia ou queria. Ele simplesmente o aceitava. Imagino que supus que havia um motivo para que me legasse a casa quando morreu, mesmo que eu fosse apenas um menino.
Que compartilhasse isso com ela a comoveu.
-Assim voltou a viver em sua cabana. Sempre retornamos ao que amamos.
Quis lhe perguntar mais, como tinha sido sua vida durante os anos de sua ausncia, por que tinha dado as costas ao trabalho de polcia para dedicar-se a reparar motores, se tinha estado apaixonado e lhe tinham quebrado o corao. Mas deu mais potencializa ao motor e fez que a embarcao sulcasse as guas.
Holt no tinha sado ao mar para ter pensamentos profundos, para se preocupar ou questionar as coisas. Tinha sado para dar a Suzanna, e a si mesmo, uma hora de prazer, um descanso da realidade. O vento e a velocidade sortiam esse milagre especial nele. Quando a ouviu rir, quando a viu elevar o rosto ao sol sol, soube que tinha eleito bem.
-Vem, toma o leme.
Era um desafio. Pde ouvi-lo em sua voz, em seus olhos quando lhe sorriu. Suzanna no vacilou.
As mos dela eram firmes e competentes ante o leme. A expresso melanclica de seus olhos ficou substituda por um intenso jbilo que lhe acelerou o sangue. Tinha o rosto vermelho pela excitao, mido pelas gotas de fluxo. Nesse momento no parecia uma princesa, e sim  uma rainha que conhecia seu prprio poder e estava disposta a empreg-lo.
Deixou-a correr na direo que quis, sabendo que terminaria onde Holt a tinha querido quase toda a vida. No esperaria outro dia. Nem sequer uma hora mais.
Suzanna ofegava e ria quando lhe devolveu o mando do leme.
-Tinha esquecido como era. Faz cinco anos que no levo uma embarcao.
-O fez muito bem -manteve alta a velocidade ao virar em um amplo crculo.
-Deus, faz frio -sem deixar de rir, esfregou os braos.
Ele a olhou e sentiu um golpe nas vsceras. Suzanna resplandecia... seus olhos eram to azuis como o cu mas mais vitais, as finas calas e a blusa de algodo estavam grudadas a seu corpo esbelto, o cabelo caa por debaixo da boina.
Quando sentiu as palmas das mos midas sobre o volante, apartou a vista e compreendeu que se apaixonou.
-H uma jaqueta no camarote.
-No,  maravilhoso -fechou os olhos e deixou que as sensaes a sacudissem. O vento selvagem, o rugido do motor e os pingos da gua. Poderiam ter estado completamente sozinhos, sem nada mais que a excitao e a velocidade, livres para avanar naquela fabulosa solido.
No queria retornar. Aspirou profundamente o ar penetrante e pensou em quo liberador seria correr e correr sem seguir nenhuma direo, indo para onde a corrente a levasse.
Mas o ar j comeava a esquentar-se. Tinham deixado de estar sozinhos. Ouviu a prolongada buzina de um navio turstico enquanto Holt reduzia a velocidade e se deslizava para o porto.
" muito lindo", pensou. "Voltar para casa. Conhecer seu lugar, convencida da bem-vinda". Suspirou pela familiaridade de tudo. A gua azul do Frenchman Bay obscurecendo-se com o dia, os edifcios lotados de gente, o som das bias. Era mais tranqilizador depois de uma correria para nenhuma parte.
Navegaram em silencio pela baa e foram devagar at o cais de  Holt. Mas Suzanna estava relaxada quando saltou no embarcadouro para amarrar os cabos e acariciou ao co apoiado contra suas pernas, suplicando ateno.
Holt saltou com agilidade e se plantou com as pernas abertas.
-Esta vindo uma tempestade.
Suzanna elevou a vista e viu que as nuvens se aproximavam devagar mas inexorveis para terra.
- verdade. No nos viria mal um pouco de chuva " uma tolice", pensou. "me sentir incmoda e ficar falando do tempo"-. Obrigado pelo passeio. Desfrutei-o.
-Bem -o embarcadouro oscilou quando avanou.
Suzanna retrocedeu dois passos e se sentiu melhor quando seus ps tocaram terra firme.
-Se tiver a oportunidade, este fim de semana talvez possa levar Sadie para que visite o Fred. Sentir-se sozinho sem os meninos.
-De acordo.
Ela tinha atravessado meio jardim e Holt seguia meio metro de distncia. Se no fosse algo paranico ela poderia dizer que a seguia.
-O arbusto estpassando bem -o tocou com os dedos ao passar a seu lado-. Mas  necessrio que ague este jardim. Poderia te recomendar um equipamento simples e barato.
-Faz-o -sorriu um pouco, embora sem desviar o olhar.
-Bom, eu... j  tarde. A tia Cody...
-Sabe que j  maiorzinha -tomou pelo brao-. Esta noite no ir a nenhuma parte, Suzanna.
Possivelmente se fosse mais inteligente ou experiente, teria avaliado seu estado de nimo antes que fosse tarde demais. J no havia maneira de confundi-lo, no quando os dedos a marcavam com tensa posse, no quando as necessidades do Holt, e sua inteno das satisfazer, estavam to claras em seus profundos olhos cinzas.
Desejou poder ter estado to segura de seu prprio estado de nimo e de suas necessidades.
-Holt, disse que necessitava tempo.
-O tempo acabou -reps com simplicidade.
-No pretendo encarar isso como algo casual.
O calor ardeu nos olhos dele. A quilmetros na distncia lhes chegou o violento rugido do trovo.
-No h nada casual nisso. Os dois sabemos.
Ela sabia, e esse conhecimento resultava aterrador.
-Acredito...
-Pensa demais -ele resmungou e a pegou no colo.
Assim que passou a surpresa, Suzanna se debateu. Por isso ela no esperava, ele a tinha levado at  varanda traseiro.
-Holt, no quero ser pressionada -a mosquiteira se fechou a suas costas. Ser que ele no sabia que tinha medo? Temia que a achasse aborrecida e a abandonasse, destroada-. No posso me permitir precipitaes.
-Se deixar voc decidir, necessitaramos quinze anos mais -com o p empurrou a porta do dormitrio e a soltou sobre a cama. No era o que tinha planejado, mas se achava muito tenso pelo medo e o desejo para pensar em palavras suaves.
Imediatamente ela se incorporou e se plantou junto  cama, esbelta e reta como um arco. A kuminosidade de fim de tarde entrava pela janela a suas costas.
-Se pensa que pode me trazer aqui como se fosse um fardo para me atirar sobre a cama...
- exatamente o que fiz -no deixou de olh-la enquanto tirava a camisa-. Estou cansado de esperar, Suzanna, e estou cansado de desej-la. Vamos fazer  a minha maneira.
Ela j sabia o que era isso. Seu corao afundou. S quem tinha lhe dito para se meter na cama tinha sido Bax, despindo-se antes de ficar em cima dela para exigir seus direitos maritais, com rapidez, dureza e sem afeto. E depois, o nica coisa  que tinha lhe oferecido era desdm e desgosto.
-Sua maneira no  nada nova -disparou com voz tensa-. E no me interessa. No sou obrigada a ir  cama com voc, Holt. A deixar que exija, tome e me diga que no sou o bastante boa para lhe satisfazer. No penso em deixar que ningum mais volte a me utilizar.

Ele a a agarrou pelos braos antes de que pudesse sair do quarto, pressimou-a contra ele enquanto Suzanna se debatia e amaldioava e lhe tampou a boca com seus lbios ardentes. A fora do beijo a deixou tonta. Haveria desmaiado se os braos dele no a tivessem sustentado com fora.
Por cima do medo e da clera, surgiram suas necessidades. Queria gritar por provocar-lhe por deix-la descarnada, nua e indefesa. Mas unicamente pde agarrar-se a ele.
Com respirao j ofegante e entrecortada, Holt a manteve  distncia dos braos. Os olhos dela continham tantos segredos quanto  a meia-noite. prometeu-se que os ia descobrir. Um a um os averiguaria todos. E comearia essa noite.
-Aqui ningum vai ser utilizado, e s penso em tomra oque me der -flexionou os dedos tensos sobre os braos dela-. Olhe-me, Suzanna. me olhe e me diga que no me deseja, e a deixarei ir.
Ela entreabriu os lbios. Amava-o e j no era uma menina que podia guardar esse amor para si mesmo. Se no era to forte como acreditava e capaz de manter separados o corao e o corpo, ento no tinha mais alternativa que uni-los. Se o corao lhe rompia, sobreviveria.
Acaso no lhes tinha prometido a ambos que no haveria lamentaes?
Com gentileza ergueu uma mo para a do Holt, embora no esperava gentileza em troca. Era um risco que assumia com liberdade.
-No posso lhe  dizer que no te desejo. No precisa continuar esperando.


Captulo 8

Se seus nervos no tivessem estado emaranhados, se sua necessidade no tivesse sido to aguda, possivelmente tivesse podido lhe mostrar ternura. Se o sangue no lhe tivesse fervendo, se o desejo no tivesse sido to ambicioso, teria tratado de lhe oferecer romantismo. Mas estava seguro de que se no a possua nesse momento, se no possua com rapidez, fragmentaria-se em centenas de partes de desespero.
De modo que sua boca se viu dominada pela febre da impacincia, as mos mostraram sua urgncia. Nada mais era importante do que provar o potente sabor da Suzanna. Mas no bastava. Possivelmente nunca pudesse ser suficiente.
Ela no tremeu nem titubeou. A vulnerabilidade ficou guardada em uma generosidade que impulsionava ao Holt a saciar-se. Enquanto lhe acariciava as costas, ele apenas percebeu seu desejo, nada de suas dvidas.
Tirou-lhe a chapu, logo a cinta que lhe prendia o cabelo para sustentar entre os dedos aquelas mechas sedosas. E as mos que o seguravam se mostravam inseguras enquanto com a boca ele a devorava sem piedade.
Suzanna se abriu para  ele e soltou um gemido suave e rouco de prazer enquanto a lngua de Holt penetrava para comear um duelo com a sua. O vibrante desejo dele no demorou para excit-la. ps-se nas pontas dos ps e o corpo lhe tremia com paixes por muito tempo contidas.
E experimentava o medo de no saber o que seria dela se perdia esse ltimo cabo sobre seu controle. Devia lhe mostrar que podia oferecer prazer, faz-lo desfrutar e que seguisse desejando-a. Se falhava nesse momento, se no conseguia demonstrar que era uma mulher, corria o risco de que Holt pensasse que no estava  altura de sua fantasia.
Entretanto, jamais a tinham desejado desse modo. No com essa violncia de desejo que vibrava no ar e fazia que cada respirao fora uma tentao. pegou-se a ele, com a esperana de que o que tinha que dar bastasse enquanto se deixava levar pela entristecedora mar de sensaes.
Lhe encheu a cara de beijos, e logo baixou o pescoo e a mordiscou. E as mos... Deus, as mos eram velozes e letais.
Suzanna devia manter a prudncia, mas os joelhos vascilaram e a mente se embaralhou ante aquele ataque a seus sentidos. Desesperada, cravou as unhas nas costas do Holt enquanto lutava por retornar do precipcio e tentava se  recordar o que um homem gostaria  .
Tremia como um arco tenso, to tenso que acreditou que ia quebrar se nas mos dele. Continha-se. Saber que podia faz-lo quando Holt estava meio enlouquecido provocou uma espcie de fria violenta. Lhe arrancou a blusa ao atir-la  cama.
-Maldita seja, quero voc inteira -ofegando, rodeou-lhe as mos e lhe subiu os braos por cima da cabea-. Te terei inteira -baixou a boca para capturar a dela.
O corpo do Holt era como um forno, e sua pele ardente e mida se fundia com a de Suzanna de uma forma que a fazia tremer cheia de maravilha. Os dedos frreos a sujeitavam enquanto a mo livre a percorria em um assalto implacvel. Ela podia sentir a fria, provar o desejo frustrado e irado. Desesperada, tratou de respirar e lhe suplicar que esperasse, que lhe desse um momento, mas s conseguiu emitir uns gemidos entrecortados.
Uma vez mais o trovo retumbou, nessa ocasio mais perto, advertindo de seu poder.
Quando a boca do Holt encontrou seu seio, soltou um grunhido de prazer. 
Ela era to suave como uma brisa estival e to potente como o usque. Enquanto se retorcia debaixo dele, umedeceu e mordiscou do mamilo tenso, perdendo-se no sabor e a textura enquanto em sua boca sentia os batimentos do corao da Suzanna.
E ela desejava tanto como ele. Podia sentir como a excitao urgente a atravessava com fria, ouvia-a em sua respirao rpida. Os quadris de Suzanna se arquearam e se ergueram contra ele at deix-lo sem sentido. Holt desceu mais e com os dentes lhe mordiscou o torso enquanto a lngua deixava um rastro mido sobre o ventre.
Ela aproveitou as mos livres para agarr-lo pelo cabelo. No podia respirar. Precisava dizer-lhe Tinha o corpo dolorido e calorento. Precisava...

Algum gritou. Suzanna ouviu o som veloz e desesperado, sentiu que saa esmigalhado de sua garganta enquanto arqueava o corpo. Mundos inteiros estalaram dentro dela com um rugido maior que o trovo que bramava sobre suas cabeas. Aturdida, jazeu tremente enquanto ele levantava a cabea para olh-la.
Os olhos da Suzanna estavam escuros e o rosto acalorado. O corpo seguia tremendo enquanto suas mos caam frouxas outra vez sobre a cama desfeita. No tinha pensado o que lhe faria ver essa classe de prazer exposto no rosto dela.
Mas sim, sabia que queria mais.
Holt voltava a excit-la antes de que pudesse recuperar-se. S era capaz de abraar-se  velocidade e ao entusiasmo do perigo. Quando a chuva comeou a cair, Suzanna rodou com ele, muito entregue para assombrar-se de sua prpria cobia. Suas mos estavam to predispostas como as do Holt, sua boca era igualmente violenta. Quando lhe tirou as calas, o som que emitiu foi de triunfo. Com dedos to impacientes como os dele, despiu-o para percorrer a pele ardente.
Queria toc-lo com tanta urgncia como precisava ser tocada. Possuir ao mesmo tempo que era possuda. Desejava a loucura, a turbulenta nsia que no tinha acreditado que poderia sentir, e esse desejo tempestuoso que se erguia como um lobo selvagem disposto a consumir.
Os dois tinham esquecido todo pensamento de controle. Quando Holt a elevou mais e mais alto, Suzanna sobrevoou cada topo com o desejo de mais. Mais era o que ele queria lhe dar e o que queria tomar. Enquanto o sangue sulcava suas veias como rios de fogo, penetrou-a, reclamando a posse em um frenesi de velocidade e calor. Ela no ficou atrs.
Voltavam a estar sozinhos, mas nessa ocasio o mar se agitava com violncia e o ar ardia. Ao fim tinham chegado at o poder e a liberdade. A velocidade era temerria, a viagem um risco glorioso. Sentiu-o tremer, enterrar o face em seu cabelo ao chegar ao fim do trajeto. Suzanna, ligada a ele, seguiu-o.
Durante quinze anos se perguntou como seria. Desde adolescente at hoje tinha sonhado com ela, tinha-a imaginado e desejado. Nenhuma de suas fantasias se aproximou da realidade. Ela tinha sido como um vulco, primeiro tremente e ardente, para logo explodir em todo seu calor. Nesse momento jazia frouxa debaixo dele, o corpo brando pelas paixes saciadas. O cabelo cheirava a sol e a mar. Holt pensou que poderia ficar assim uma eternidade, pego a ela com a chuva martilleando sobre o teto e o vento agitando as cortinas.
Mas queria v-la.
Ao mover-se, ela emitiu um som leve de protesto e estendeu a mo. Ele no disse nada, simplesmente a beijou at que voltou a relaxar-se. Logo acendeu o abajur da mesinha.
Estava linda com o cabelo espalhado sobre o travesseiro, a pele brilhante, a boca suave e cheia. Suzanna ficou tensa, mas disfarou seu desconforto enquanto realizava um estudo minucioso do resto.
Ela no sabia o que dizer nem como se supunha que devia atuar. Sabia que Holt a tinha levado a um lugar novo, um lugar extraordinrio, mas no tinha nem idia se ele tinha experimentado a mesma viagem fantstica. Quando o viu franzir o cenho sentiu um n no estmago. Com os olhos entrecerrados, lhe passou um dedo pelo pescoo, pelas elevaes dos seios.
-Devia ter me barbeado -indicou ele com brutalidade, odiando o fato de que lhe ter arranhado e avermelhado a pele-. Poderia ter dito que estava machucando-a.
-Suponho que no o notei.
-Sinto muito -lhe beijou o pescoo com suavidade. A expresso de aturdida surpresa fez que se sentisse como um idiota. Quando se afastou, ela foi em busca de sua mo.
-No me machucou -murmurou Suzanna-. Foi maravilhoso -aguardou, com a esperana de que ele dissesse o mesmo.
-Tenho que deixar a cadela entrar -sua voz soou spera, mas lhe apertou os dedos antes de sair do quarto.
Nesse momento ouviu os gemidos e as patas contra a mosquiteira. Disse-se que no era nada demais. S significava que ele podia passar da paixo ao pragmatismo com mais rapidez que ela. Tinham compartilhado algo vital. Podia agarrar-se a isso. Sentou-se, mais que um pouco assombrada ao ver o estado da cama. O edredom se achava no cho, os lenis amontoados ao p, a roupa, ou o que ficava dela, espalhada entre a do Holt.
Ficou de p e, nua, vestiu a camisa dele antes de recolher a sua. Sobrava um nico boto do cinco que tinha. Rindo, pegou-a e se agachou para procurar os botes. Maravilhou-se de ter sido desejada dessa maneira. Nunca  esqueceria.
-O que faz?
Levantou a vista para ver o de p na porta. Com um sobressalto, pensou que era evidente que ficar nu no o incomodava. Parecia zangado. Suzanna desejou entender o que havia ou no tinha feito para lhe provocar esse cenho.
-Minha blusa -reps-. encontrei os botes -os sustentou em uma mo enquanto na outra sujeitava o objeto de algodo-. Tem fio e agulha?
-No -ficou alucianado vendo-a parada ali sem camisa. Queria me por de joelhos para que suplicasse?
-OH -tragou saliva e tentou sorrir-. Bom, costurarei-os em casa. Se me emprestar sua camisa, ser melhor que eu v.
Ele fechou a porta a suas costas.
-No -repetiu, e cruzou o quarto para tom-la.
A chuva cessou ao amanhecer, deixando o ar limpo. Suzanna despertou com a preguiosa msica da gua que gotejava do telhado. Antes de que sua mente se adaptasse a sua volta, sua boca foi tomada em um beijo faminto e ardente. Em um salto ofegante seu corpo se viu tragado do sono ao desejo.
Tinha despertado desejando-a. Essa necessidade ardente no queria mitigar-se, sem importar o muito que tomasse, quo disposta ela estava a dar. No havia palavras, ao menos nenhuma que ele conhecesse, que pudesse expressar o que Suzanna tinha chegado a significar para ele. Tinha passado de ser a fantasia do jovem  salvao do homem.
Cobriu-a. Encheu-a. Ao observar seu rosto sob a aquosa luz da manh, soube que jamais ficaria satisfeito at que ela estivesse com ele.
- minha -soltou as palavras como uma maldio enquanto o corpo de Suzanna tremia sob o seu-. Diga-enterrou a cabea em seu pescoo-. Maldita seja, Suzanna, diga.
No foi capaz de pronunciar nada salvo o nome dele enquanto a arrastava at o abismo.
Quando as mos dela caram frouxas de suas costas. Holt rodou at deix-la em cima. Estava satisfeito com a cabea da Suzanna apoiada em seu corao. disse-se que j a tinha sacudido o bastante. Mas tinha desejado ouvir as palavras.
Ela tinha o corpo dolorido e se sentia na glria. Sorriu para ouvir o batimento do corao do Holt e a beleza lquida da cano de um pssaro matinal.
Abriu os olhos e levantou a cabea.
- de manh -disse.
- o que por regra geral acontece quando sai o sol.
-No, eu... devo ter dormido.
-Sim -lhe acariciou as costas-. Acabou dormindo antes de que pudesse faze-al se interessar em outro assalto -ela se ruborizou mas quando tentou incorporar-se, manteve-a firmemente em seu lugar-. Vai a alguma parte?
-Tenho que voltar para casa. A tia Cody deve estar frentica.
-Sabe onde est -como era mais fcil mant-la quieta da outra maneira, investiu as posies e comeou a lhe mordiscar o pescoo-. E o mais provvel  que tenha uma idia bastante certeira do que esteve fazendo.
-No lhe disse aonde ia -sem muitas esperanas de poder mov-lo, empurrou-o.
-Liguei para ela ontem  noite quando deixei Sadie passar . Quer me coar as costas? Aqui perto dos ombros.
Obedeceu de forma automtica, mesmo que a cabea estivesse dando voltas.
-Voc... voc contou a minha tia...
-Disse-lhe que estava comigo. Supus que saberia deduzir o resto. Est timo. Obrigado.
Suzanna suspirou. Sabia muito bem que  tia Cody no demoraria em  somar dois mais dois. E no havia nenhum motivo para sentir-se incmoda ou envergonhada. Mas experimentava ambas as coisas. E no s por sua tia, mas tambm por ter o corpo nu de um homem sobre o seu.
Uma coisa tinha sido estar com ele de noite. Mas encar-lo a plena luz da manh...
-O que acontece? -ele levantou a cabea para estud-la.
-Nada -quando Holt arqueou uma sobrancelha, encolheu os ombros-.  que j no estou segura do que devo fazer. Nunca antes passei por esta situao.
-Como teve dois filhos? -sorriu-lhe.
-No queria dizer que nunca... quero dizer que jamais...
-Bom, pois vai se acostumando -o sorriso se tornou mais amplo.
-Quero que deixe de brincar de mim.
-Bem, imagino que agora voc deve me dizer como fui incrvel..
-Eu? -franziu o cenho.
-Isso, e outros superlativos que lhe possam ocorrer. Logo se supe que deve me preparar o caf da manh, para me mostrar a variabilidade de seu talento.
-No sabe quo agradecida que estou por me pr  parte  do procedimento adequado.
-No  nada. E depois que tiver preparado o caf da manh, deveria me seduzir para me convencer de voltar para a cama.
Ela riu e apoiou a face contra a sua em um movimento que desarmou e encantou Holt.
-Terei que praticar, embora pudesse arranjar com alguns ovos mexidos.
-Me comunique se encontrar algum.
-Tem uma camisa?
-Para que?
-Esquece-ficou de p e instintivamente lhe deu as costas enquanto media no cho em busca da camisa dele-. E o que voc faz enquanto eu preparo o caf da manh?
-Fico olhando.
E desfrutou vendo como se movia por sua cozinha, com a camisa lhe cobrindo as coxas ao tempo que o aroma do caf impregnava a atmosfera.
Ocupada em tarefas familiares, Suzanna se sentia mais relaxada. O arbusto que tinham plantado era uma ilha de luz alm da janela e a brisa ainda cheirava a chuva.
-Sabe? -indicou ela enquanto acrescentava queijo aos ovos-, seria bom se voc tivesse algo mais que uma torradeira, uma chaleira e uma frigideira.
-Por que? -sentou-se e deu um trago ao cigarro.
-Bom, algumas pessoas utilizam este local para preparar comidas completas.
-Unicamente se desconhecem que podem pedir por telefone -viu que o caf j estava pronto e se levantou para servir duas xcaras-. Com o que o quer?
-Puro. Necessito de toda a vitalidade que possa me dar.
-Se quer saber, o que precisa  dormir mais.
-Tenho que estar trabalhando dentro de uma hora -com o prato com ovos na mo, olhou pela janela.
-No -ele reconheceu a expresso e lhe apertou o ombro.
-Sinto-se voltou para verter os ovos batidos na frigideira-. No posso evitar me perguntar o que esto fazendo, se passam bem. Nunca antes tinham estado longe de mim.
-Seu pai nunca os levou um fim de semana?
-No, s um par de tardes que no tiveram muito xito -tentou desterrar esse estado de nimo enquanto mexia os ovos-. Bom, s faltam treze dias.
-Dessa maneira no ajudar nem voc nem os meninos nem -o dominou a impotncia enquanto lutava por massagear a tenso dos ombros da Suzanna.
-Estou bem. Estarei bem -corrigiu-. Tenho mais que suficiente para me manter ocupada nas prximas duas semanas. E com os meninos fora, poderei dedicar mais tempo a encontrar as esmeraldas.
-Isso me deixa preocupado .
- um trabalho de equipe, Holt -o olhou por cima do ombro-. Sempre ofoi.
-J me envolvi e vou ajudar.
Tirou os ovos da frigideira com o mesmo cuidado com o que escolheu as palavras.
-Agradeo a ajuda. Todos ns agradecemos. Mas as conhece como as esmeraldas Calhoun por um motivo. Devido a elas duas de minhas irms se viram ameaadas.
-Exato. E  Livingston est l fora emalgum lugar, Suzanna.  inteligente e brutal. No lhes pedir com amabilidade que saiam de seu caminho.
Ela se voltou e lhe entregou um prato.
-Estou acostumada a homens inteligentes e brutais, e j passei bastante tempo de minha vida tendo medo.
-E isso que se supe que isso significa?
-Simplesmente o que disse - ergueu seu prato e sua xcara de caf-. No deixarei que um ladro me intimide ou faa que tenha medo de realizar o que  melhor para mim ou minha famlia.
Mas Holt movia a cabea. Essa no era a resposta que queria.
-Tem medo de Dumont? Refiro-me fisicamente.
O olhar dela vacilou, logo adquiriu uma expresso de firmeza.
-Falamos das esmeraldas -tentou passar por ao lado dele, mas Holt lhe bloqueou o passo.
-Bateu-a? -perguntou com voz muito suave.
-O que? -inquiriu com o rosto plido.
-Quero saber se Dumont alguma vez bateu e, voc.
Ela sentiu um n na garganta. Sem importar a equanimidade na voz dele, em seus olhos havia um terrvel brilho de violncia.
-Os ovos esto esfriaando, Holt, e tenho fome.
Ele conteve o impulso de atirar o prato contra a parede. Sentou-se e esperou que ela ocupasse o assento que tinha em frente. Suzanna parecia muito frgil e serena sob a corrente de luz do sol.
-Quero uma resposta, Suzanna -bebeu um gole de caf enquanto ela brincava com a comida. Sabia esperar e como pressionar.
-No -reps com voz plaina enquanto se levava um bocado  boca-. Jamais me bateu.
-S a sacudiu um pouco?
-H muitas maneiras de intimidar e desmoralizar, Holt. depois disso, a humilhao  fcil -tomou uma torrada e com cuidado a lambuzou  com manteiga-. Est a ponto de ficar sem po.
-O que te fez?
-Esquea.
-O que te fez? -repetiu devagar.
-Fez que enfrentasse aos fatos.
-Como quais?
-Que era infelizmente inadequada como esposa de um advogado corporativo com ambies sociais e polticas.
-Por que?
- assim que interroga a seus suspeitos? -soltou a faca.
"Fria", pensou ele. "Isso  melhor"
- uma simples pergunta.
-E quer uma resposta simples? Perfeito. casou-se comigo por meu sobrenome. Pensou que havia muito mas dinheiro, assim como prestgio, unido a ele, mas o sobrenome Calhoun era mais que adequado. Por desgraa, no demorou para dar-se conta de que eu no era a bonana social que tinha imaginado. Minha conversao nas festas era normal, no melhor dos casos. Podia me vestir para parecer a esposa importante de um advogado politicamente ambicioso, mas jamais chegava a fazer o tipo. Era, como muito freqentemente me dizia, uma enorme decepo que eu no entrasse de cabea no que era esperado de mim. Que era aborrecida, no salo, no restaurante e no quarto -levantou para jogar o resto de sua comida na tigela do Sadie-. Respondi sua pergunta?
-No -apartou o prato e tirou um cigarro-. Eu gostaria de saber como a convenceu de que era sua culpa.
Ela se ergueu lhe dando as costas.
-Porque o amava. Ou amava ao homem  que acreditei haver me casado, e queria, com todas minhas foras, ser a mulher que o deixaria orgulhoso. Mas quanto mais eu tentava, maior era meu fracasso. Logo tive ao Alex e pareceu... que tinha feito algo incrvel. Havia trazido para esse mundo um lindo beb . E era to fcil e natural ser me. Estava to feliz, to centrada no menino e na famlia que tnhamos comeado, que no me dei conta de que Bax se dedicava com discrio a encontrar companhia mais estimulante. No at que me inteirei de que ia ter  Jenny.
-Assim que a enganou -comentou com voz enganosamente suave-. O que fez a respeito?
No se voltou, mas abriu o torneira da pia para lavar os pratos.
-No pode entender o que  ser traida desta maneira. Levar em seu interior o beb de um homem e averiguar que j a substituiu.
-No, no posso. Mas tenho a impresso de que me incomodaria.
-Se me zanguei? -quase riu-. Sim, zanguei-me, mas tambm estava... magoada. No quero recordar quao fcil foi me destroar. Alex tinha alguns poucos meses de vida e Jenny no tinha sido planejada. Mas me sentia muito feliz de estar grvida. Ele no a queria. Nada do que me tinha feito antes me tinha dodo ou incomodado tanto como sua reao quando lhe comuniquei que  estava novamente grvida.
Decidiu omitir outra risada pela metade e colocar as mos na gua .
-J tinha um filho -continuou-, de modo que o sobrenome Dumont continuaria. No era sua inteno entorpecer sua vida com meninos, e sob nenhum conceito queria me arrastar pela roda social uma segunda vez enquanto estivesse gorda, cansada e feia. A soluo mais prtica era terminar o gravidez. Discutimos de forma horrvel por isso. Foi a primeira vez que tive coragem de bater em sua cara... o qual o piorou. Bax estava acostumado a mandar e eu obdecer. Como no podia me obrigar a fazer o que ele queria, devolveu-me isso com soma habilidade.
Mais calma j, ps a secar o prato e comeou a lavar a frigideira.
-Publicamente seguia sendo discreto com suas aventuras, mas se encarregou de que me inteirasse delas e de quo mau eu ficava ao me comparar com as mulheres com as que se deitava. Retirou meu nome de todas as contas bancrias, de modo que tivesse que recorrer a ele cada vez que precisasse de dinheiro. Essa foi uma das humilhaes mais sutis. A noite que Jenny nasceu, estava com outra mulher. Certificou-se de que eu soubesse quando chegou ao hospital para que a imprensa pudesse lhe tirar uma foto enquanto desempenhava o papel de pai orgulhoso.
-Por que ficou com ele? -Holt no se moveu.  No confiava em si mesma? 
-Ao princpio, porque no deixava de esperar que despertaria junto ao homem do que me tinha apaixonado. Logo, quando comecei a considerar que meu matrimnio era um fracasso, tinha um beb e esperava outro -recolheu um pano e comeou a secar os pratos-. E fiquei porque durante muito, muito tempo estive convencida de que ele no se equivocava comigo. Eu no era inteligente nem engenhosa. No era sexy nem sedutora. De maneira que o mnimo que podia ser era leal. Ao compreender que nem sequer poderia ser isso, tive que pensar no efeito que teria sobre os meninos. No teria podido suportar que a dissoluo de meu matrimnio com o Bax lhes fizesse mal. Um dia, de repente entendi que tudo era por nada, que no s desperdiava minha vida, mas sim fazia mais mal ao Alex e a Jenny ao fingir que existia um matrimnio. Bax apenas prestava ateno a seu filho e nenhuma a sua filha. Passava muito mais tempo com sua amante que com sua famlia -suspirou e deixou os pratos. Assim escondi meus diamantes na bolsa de fraldas de Jenny e pedi o divrcio -ao voltar-se, seu rosto estava outra vez cansado.
- Responde isso a sua pergunta?
Muito devagar, sem deixar de olh-la, Holt ficou de p.
-Te ocorreu alguma vez pensar que o inadequado era ele, que o fracassado era ele? Que era um canalha malcriado e egosta?
Suzanna esboou um leve sorriso.
-Bom, agora sim. Tambm me ocorre que minha histria  unilateral. Suponho que o ponto de vista que tem Bax de nossa relao diferir do meu, e no sem certa razo.
-Voc esta se menosprezando -disse com furia. Voc acredita que qualquer um poderia educar a dois meninos e levar um negcio.-avanou um passo em direo a ela. - No me recordo de ficar to aborrecido com algum, embora claro a maioria dos homens se aborrece com mulheres com crebro e garra, em particular quando tm um corao generoso e so teimosas. Deve ser maravilhoso ter uma uma mulher sua todo dia para assegurar-se de que seus filhos vo receber o que necessitam. Deus sabe como  sexy. Ontem  noite voc no respondeu o que lhe perguntei.
Tinha-a apanhado-a contra a parede com o corpo e com uma fria to manifesta que Suzanna virtualmente podia prov-la.
-Perguntou e eu respondi. No sei que quer que diga agora.
-Quero que me diga que ele no importa mais -tomou pelos ombros e se aproximou de seu rosto-. Quero que me diga o que te pedi que me dissesse quando estava dentro de voc, quando me achava to cheio de voc que no podia respirar.  minha, Suzanna. Nada do que aconteceu antes conta, porque agora  minha. Isso  o que quero ouvir.
Agarrou-lhe as mos. Inclusive no momento em que ela abria a boca para falar, Holt viu a rpida careta de dor. Amaldioando, baixou a vista e observou os hematomas que j lhe tinha provocado. Retrocedeu como se ela o tivesse esbofeteado.
-Holt...
Ergueu uma mo para silenci-la e girou at que pde limpar a bruma vermelha de fria de sua mente. Tinha-lhe causado marcas na pele. Tinha sido durante um momento de paixo e sem inteno, mas isso no as apagava. Ao as provocar, no era melhor que o homem que tinha machucado a alma da Suzanna. Colocou as mos nos bolsos antes de voltar-se.
-Tenho coisas que fazer.
-Mas...
-Desviamo-nos, Suzanna.  por minha culpa. Sei que tem que voltar para o trabalho, igual a mim.
"De modo que isso  tudo", pensou ela. Tinha-lhe despido a alma e ele a deixava plantada.
-De acordo. Verei-o na segunda-feira.
Com um gesto de assentimento, ele se dirigiu  porta de trs, para deter-se com a mo na mosquiteira e soltar uma maldio.
-Ontem  noite significou algo para mim. Entende?
-No -murmurou Suzanna.
- importante para mim, t-la aqui, desta maneira, ... Necessito-a.  o suficientemente claro?
Estudou-o: o punho sobre a porta, a impacincia nos olhos, o corpo rgido com paixes que ela ainda no conseguia compreender. Compreendeu que sim era suficiente. No momento era mais que suficiente.
-Sim, acredito que est claro.
-No quero que termine a -girou a cabea e em seus olhos voltava a arder um fogo intenso-. No vai terminar a.
-Est-me pedindo que volte?
-Sabe muito bem... -calou e fechou os olhos-. Sim, estou lhe pedindo que volte. E  estou pedindo que pense em passar tempo comigo que no seja no trabalho ou na cama. Voc entende...
-Quer jantar comigo?
-O que? -olhou-a desconcertado.
-Gostaria de jantar esta noite? Possivelmente logo possamos dar um passeio.
-Sim -mexeu no cabelo, sem saber se se sentia aliviado ou incmodo por ter sido to fcil-. Ser estupendo.
"Sim, ser estupendo", pensou ela e sorriu.
-Ento o verei as sete. Se quiser, traga  Sadie.

Captulo 9

Suzanna pensou que no havia luz de velas nem de lua, mas sim que era um romance. No tinha acreditado que pudesse voltar a encontr-lo ou quer-lo. Sorriu enquanto retornava s Torres.
Certamente, uma relao com o Holt Bradford tinha muitas arestas, embora tambm seus momentos mais suaves. Tinha desfrutado descobrindo-os durante os ltimos dias. E noites.
Seguia sendo um homem exigente, freqentemente brusco, mas jamais a fazia sentir menos que o que ela queria ser. Quando a amava, o fazia com uma urgncia e ferocidade que no deixavam dvidas sobre seu desejo.
Ao estacionar a caminhonete atrs do carro do Holt, repetiu-se que no tinha procurado um romance. Mas se sentia terrivelmente contente de hav-lo encontrado esperando -soltou Lilah assim que sua irm abriu a porta.
-Isso vejo -arqueou uma sobrancelha. Lilah seguia com seu uniforme do parque. Conhecendo seu horrio, estava segura de que levava em casa quase uma hora.-. O que aconteceu?
-Pode fazer algo com o gal spero com o que te enredaste?
-Se referir ao Holt, no muito -tirou o chapu para soltar o cabelo-. por que?
-Agora mesmo est desmontando meu quarto centmetro por centmetro. Nem sequer pude trocar de roupa -olhou em direo  escada-. Disse que j tnhamos procurado ali, e que se tivesse estado dormindo todos estes anos no mesmo quarto que as esmeraldas, saberia.
-E ele no te ouviu?
-No s isso, mas sim me expulsou de meu proprio quarto. E Max -vaiou e se sentou no degrau-. Max sorriu e disse que era uma idia estupenda.
-Quer que nos unamos contra eles?
Nos olhos do Lilah cintilou um brilho perverso.
-Sim -se levantou e passou um brao pelos ombros de Suzanna enquanto subiam-. Esta ficando srio com ele, verdade?
-Vou passo a passo.
-s vezes, quando se ama aalgum,  melhor avanar de repente -bocejou e amaldioou-. Perdi meu cochilo. Eu gostaria de poder dizer que me desagradou sua atitude, mas no posso. H algo muito slido e firme sob suas maneiras horrentas.
-Tornou a olhar sua aura.
Lilah riu e se deteve no alto da escada.
- um bom sujeito, apesar da vontade que tenho agora de aoit-lo. Eu gosto de v-la feliz outra vez, Suze.
-No fui infeliz.
-No, simplesmente no foi feliz. H uma diferena.
-Suponho que sim. Falando de ser feliz. Como vo os planos para o casamento?
-Agora mesmo a tia Cody e a parente vinda do inferno esto na cozinha discutindo sobre isso -a olhou com olhos risonhos-. A tia av Colleen finge que s quer certificar-se de que o acontecimento estar  altura da reputao dos Calhoun, mas a verdade  que adora fazer a lista de convidados e questionar os menus da tia Cody.
Suzanna se deteve ante a porta de Lilah. Holt se achava concentrado em seu trabalho. Nunca tinha sido um quarto muito ordenado, mas dava a impresso de que algum tivesse largados todos os mveis ao azar. Nesse momento, Holt tinha a cabea metida na chamin e Max ia engatinhando pelo cho.
-Esto se divertindo, meninos? -perguntou Lilah com ironia
Max levantou a vista e sorriu. Chegou  concluso que estava furiosa. Tinha aprendido a desfrutar de seu temperamento.
-Encontrei a outra sandlia que procurava. Estava debaixo da almofada da cadeira.
-Uma boa notcia -arqueou uma sobrancelha e notou que Holt estava sentado na chamin, olhando Suzanna e que esta tambm o olhava-. Necessita um descanso, Max.
-No, estou bem.
- evidente que precisa de um descanso -se aproximou para tomar a mo e ajud-lo a levantar-se-. Logo pode voltar a dar uma mo ao Holt na invaso de minha intimidade.
-Disse que ela no ia gostar-comentou Suzanna quando Lilah levou Max do quarto.
- uma pena.
-Encontrou algo? -com as mos nos quadris, inspecionou os danos.
-No a menos que conte os dois brincos de pares distintos e uma dessas coisas de ligas que encontramos atrs da cmoda -inclinou a cabea-.Voc  tem laguma roupa intima com ligas?
-No -baixou a vista a camiseta que levava-. At faz uns dias, no pensei que fora a necessit-la.
-Esta muito bem com esta roupa, querida -ficou de p e como ela no se moveu, aproximou-se dela-. e... -baixou as mos pelas costas da Suzanna-... me deixa louco de vontade de lhe tirar isso-  a beijou com ardor, do modo profundo e urgente que ela tinha comeado a esperar, logo lhe mordiscou o lbio e sorriu-. Mas quando quiser pedir emprestado de Lilah uma dessas coisas...
-Voc pode se surpreender -riu e o abraou com carinho-. Quanto tempo vai ficar por aqui?
-Um momento -moveu a cabea e voltou a dedicar-se a procurar na chamin.
- No quer que o recompense? -inquiriu ela.
-Certamente -Holt perdeu interesse em procurar se havia algum tijolo frouxo.
-Irei uma trazer uma cerveja.
-Preferiria ter...
-Sei -riu ao sair-. Mas ter que te conformar com uma cerveja. No momento.
Pensou que era agradvel poder brincar dessa maneira. Sem sentir-se envergonhada ou nervosa. No havia necessidade de sentir outra coisa que no fora satisfao ao saber que ele se preocupava com ela. Com o tempo, possivelmente pudessem ter algo mais profundo.
Cheia de energia e esperana, baixou o ltimo degrau e entrou no vestbulo. No ato reinou o caos. Primeiro ouviu os ces, Fred e Sadie, ladrar como mil demnios, logo o rudo de ps no alpendre e dois gritos.
-Mame! -gritaram Jenny e Alex ao irromper na casa.
Sentiu uma felicidade instantnea ao agachar-se para elev-los em braos. Rindo, encheu-os de beijos enquanto os ces davam voltas ao redor deles.
-OH, como senti falta de vocs. Deixem que lhes olhe -quando os manteve  distncia dos braos, esteve a ponto de perder o sorriso. Ambos se achavam a beira das lgrimas-. Pequena?
-Queramos voltar para casa -a voz do Jenny tremeu ao enterrar o rosto no ombro de sua me-. Odiamos as frias.
-Sss... -acariciou o cabelo de sua filha enquanto Alex se esfregava um punho debaixo do olho.
-Fomos rebeldes e maus -murmurou com voz trmula-. E tampouco nos importamos.
-A atitude que cheguei a esperar -disse Bax ao atravessar a porta aberta.
Os braos do Jenny se esticaram ao redor do pescoo da Suzanna, mas Alex se voltou e adiantou seu queixo Calhoun.
-Ns no gostamos da estpida festa, e tampouco ns gostamos de voc.
-Alex! -apoiou uma mo em seu ombro-. J  suficiente. Se desculpe.
Tremeram-lhe os lbios, mas o brilho obstinado permaneceu nos olhos do menino.
-Lamentamos que ns no gostemos de voc.
-Leve sua irm para cima -espetou Bax-. Quero falar com sua me em particular.
-V  cozinha com a Jenny -acariciou a bochecha de Alex-. Ali est a tia Cody.
Bax lanou um chute indiferente em direo ao Fred.
-E leve contigo a estes malditos vira-latas.
-Chri? -disse a esbelta morena que se deteve na soleira.
-Yvette -sem tirar os braos dos ombros dos meninos, Suzanna ficou de p-. Sinto muito, no a vi.
A mulher francesa moveu as mos com gesto distrado.
-Peo desculpas, j que vejo que est em emio a uma confuso. Perguntava-me... Bax, as malas dos meninos?
-Diga ao condutor que as traga -soltou-. No v que estou ocupado?
Suzanna ofereceu  mulher esgotada um olhar de simpatia.
-Deixe-as no vestbulo. Se quiserem passar ao salo... e ver tia Cody -disse aos meninos-. Se sentir muito feliz de lhes ter de volta.
Os pequenos partiram com mos dadas, os ces pisando em seus  calcanhares.
-Se puder me dar um momento de seu tempo -comeou Bax, olhando de cima abaixo suas roupas de trabalho-, de seu sem dvida fascinante dia.
-No salo -repetiu e se deu a volta. Sabia que era essencial manter a calma. No duvidava de que lhe soltaria sobre a cabea o que fosse que o tivesse impulsionado a mudar de planos e devolver a seus filhos a casa uma semana antes. Isso podia agent-lo. Mas era diferente o fato de que os meninos tivessem estado angustiados-. Yvette... -indicou-lhe uma poltrona-... posso lhe oferecer algo?
-Um brandy, se for to amvel.
-Certamente. Bax?
-Um usque dublo.
Foi ao armrio de bebidas e enquanto servia agradeceu que suas mos estivessem firmes. Ao entregar a taa ao Yvette, pareceu-lhe perceber uma expresso de desculpa e enfado.
-Bom, Bax, quer me contar o que aconteceu?
-O que aconteceu comeou faz anos quando teve a equivocada idia que podia ser me.
-Bax -comeou Yvette.
-Saia para o terrao. Prefiro falar isto em particular.
"De modo que isso no mudou", pensou Suzanna. Juntou as mos enquanto Yvette cruzava a sala e atravessava as portas de cristal.
-Ao menos este pequeno experimento ter feito que se esquea da idia de ter um filho.
-Experimento? -repetiu ela-. A visita dos meninos foi um experimento?
Bebeu um gole de usque e a observou. Seguia sendo um homem arrebatador com um rosto juvenil encantador e cabelo loiro. Mas seu carter danificava seu atrativo fsico.
-Os motivos que me moveram a levar aos meninos so meu assunto. Seu imperdovel comportamento  seu. Carecem de idia de como conduzir-se em pblico e em particular. Possuem os maneiras, a disposio e o nfimo controle de uns pagos. Fez um pobre trabalho, Suzanna, a menos que tivesse a inteno de criar a dois mucosos insuportveis.
-No cr que pode ficar a falando deles dessa maneira em minha casa -com os olhos brilhantes, aproximou-se dele-. Me importa um nada se encaixarem ou no em seus patres. Quero saber por que os trouxe de volta desta forma.
-Ento escuta -sugeriu e a empurrou a uma poltrona. -  Seus preciosos meninos no tm nem idia do que se espera de um Dumont. Nos restaurantes se mostraram retumbantes e rebeldes, queixosos e suscetveis no carro. Quando os corrigia, ficavam desafiantes ou speros. No hotel, entre vrios de meus conhecidos, sua conduta foi uma fonte de vergonha.
Muito irritada para sentir medo, Suzanna se levantou.
-Em outras palavras, foram meninos. Lamento que seus planos foram por gua  abaixo, Baxter, mas  difcil esperar que meninos de cinco e seis anos se apresentem como pessoas socialmente corretas em todas as ocasies.  inclusive mais difcil quando se vem metidos em uma situao que eles no provocaram. No lhe conhecem.
Ele fez tintilar o usque e bebeu outro gole.
-So perfeitamente conscientes de que sou seu pai, mas voc se encarregou que no mostrem respeito por essa relao.
-No, voc o fez.
-Acredita que no sei o que fez? -com lentido deixou a taa de lado-. Doce e inofensiva Suzanna -ela retrocedeu de forma automtica, agradando-o.
-No os contei nada sobre voc -soltou, furiosa consigo mesma por dar marcha atrs.
-Oh, no? Ento, no lhes mencionou o fato de que tm um irmo bastardo no Oklahoma?
-O irmo do Megan Ou'Riley se casou com minha irm. No houve maneira de manter a situao em segredo, embora tivesse querido.
-E no pde esperar a difamar meu nome -a empurrou outra vez e a fez cair para trs.
-O menino  seu meio-irmo. Aceitam isso, e so muito jovens para entender o ato desprezvel que cometeu.
-Meus assuntos so meus. No  esquea -tomou pelos ombros e a empurrou contra uma parede-. No tenho inteno de deixar que saia com  seus em seus lamentveis ardis de vingana.
-Tire as mos de cima de mim -se retorceu, mas ele no lhe permitiu escapar.
-Quando tiver terminado. Deixa que lhe advirta disso, Suzanna. No vou permitir que espalhe meus assuntos particulares. Se correr inclusive um simples rumor, saberei onde comeou, e voc saber quem pagar por isso.
-J no pode me fazer mal -se manteve rgida, com os olhos firmes.
-No esteja to segura. Ocupe-se de fazer seus filhos guardarem este assunto do meio-irmo para eles mesmos. Se voltar a mencionar... -apertou as mos e a elevou-a at p-la nas pontas dos ps-... uma s vez, lamentar-o muito.
-Recolhe suas ameaas e saia de minha casa.
-Sua? -fechou uma mo em torno da garganta dela-. Recorda que s  Sua porque no me interessava este ruinoso anacronismo. Me provoque, e a levarei aos tribunais em um abrir e fechar de olhos. E desta vez ficarei com tudo. A esses meninos passaro bem em um bom internato suo, que  exatamente onde terminaro se no ter cuidado por onde vai.
Viu que os olhos dela mudaram, embora no apareceu o medo que tinha esperado. Era fria. Suzanna ergueu uma mo, mas antes de que pudesse golpe-lo, Bax foi jogado ao cho. Viu o Holt levant-lo outra vez pelo pescoo para lan-lo contra uma mesa Luis XV.
Nunca tinha visto morte nos olhos de um homem, mas o reconheceu nos do Holt quando embutiu o punho na cara do Baxter.
-Holt, no... -deu um passo  frente, mas sentiu que a continham pelo brao com surpreendente fora.
-Deixa-o em paz -disse Colleen com expresso sombria.
Queria mat-lo, e possivelmente o tivesse feito, se o homem se defendesse. Mas Bax simplesmente ficou frouxo sob suas mos, com o nariz e a boca jorrando sangue.
-Me escute, canalha -o plantou contra a parede-. Volte a toc-la alguma vez, e  homem morto.
Aturdido e dolorido, Bax procurou um leno.
-Posso fazer que lhe prendam por agresso -se levou o leno ao nariz e olhou ao redor para ver sua mulher de p junto s portas da terrao-. Tenho uma testemunha. Atacou-me e ameaou minha vida -era sua primeira humilhao e o detestava. Desviou a vista para Suzanna-. Lamentar isto.
-No, no o lamentar -interveio Colleen antes que Holt pudesse ceder  satisfao de esmagar essa boca zombadora-. Mas voc sim, porco miservel, covarde e tremente -se dirigiu para ele apoiada na bengala-. Se alguma vez voltar a tocar  algum de minha famlia, lamentar pelo resto de sua vida imprestvel. Sem importar o que acredite que pode nos fazer, eu lhe posso devolver isso com mais facilidade. Se dvidas de mim, meu nome  Colleen Theresa Calhoun, e posso comprar e te vender quantas vezes eu desejar-estudou, um homem pattico com um traje enrugado e sangrando sobre um leno de seda-. Me pergunto o que ter que dizer o governador de seu estado, que d a casualidade de que  meu afilhado, se eu mencionar esta cena -assentiu com satisfao ao ver que a entendia-. E agora tira sua miservel presena de minha casa. Jovem... -inclinou a cabea para o Holt-... seja amavel e ensine  a sada para nosso convidado.
-Ser um prazer -Holt o arrastou at o vestbulo.
A ultima coisa que Suzanna  viu antes de sair correndo foi as mos gesticulantes de Yvette.
-Aonde foi? -quis saber Holt quando encontrou ao Colleen a ss no salo.
-Lamber suas feridas, suponho. Me sirva um brandy. Maldio, sobreviver um minuto -murmurou ao v-lo titubear. sentou-se em uma poltrona e esperou at que o corao lhe serenou-. Sabia que tinha tido um matrimnio difcil, mas desconhecia quanto. Desde que se divorciou, fiz que investigassem  esse Dumont -aceitou o brandy e deu um bom gole-.  uma lamentvel sombra de um homem. Mas seguia sem ser consciente de que abusava dela. Devia imaginar quando vi a expresso nos olhos da Suzanna. Minha me tinha a mesma -fechou os olhos e se recostou-. Bom, se no quiser ver como se evaporam suas ambies polticas, a deixara em paz -devagar abriu os olhos e observou ao Holt com olhar certeiro-. Se comportou bem... admiro a um homem que usa seus punhos. S  lamento no ter empregado minha bengala sobre ele.
-Acredito que fez algo muito melhor. Eu simplesmente lhe quebrei o nariz, voc o assustou at...
-Certamente que sim -sorriu e bebeu outro gole-. E me sinto bem -notou que Holt olhava em direo s portas abertas da terrao, com as mos ainda fechadas-. Minha me estava acostumada ir para os penhascos -bebeu o resto do brandy-.  possvel que a encontre ali. lhe diga que seus filhos esto comendo doces e acabando com seu jantar.
Tinha ido aos penhascos. prometeu-se que s necessitaria uns momentos a ss., sentou-se sobre uma rocha, tampou o rostocom as mos e chorou toda a amargura e vergonha que a embargavam.
Encontrou-a dessa maneira, sozinha e soluando, com o som de sua dor transportada pelo vento enquanto o mar rompia abaixo. Holt no sabia por onde comear. Sua me sempre tinha sido uma mulher forte, e as lgrimas que tivesse podido derramar tinham sido derramadas em privado.
Pior, ainda podia ver a Suzanna pressionada contra a parede, com a mo do Dumont ao pescoo. Tinha parecido to frgil e valente.
Aproximou-se e apoiou uma mo insegura em seu cabelo.
-Suzanna.
Ela se levantou como empulsinada por uma mola e se secou as lgrimas.
-Tenho que voltar. Os meninos...
-Esto na cozinha abarrotando-se de bolachas. Sente-se.
-No, eu...
-Por favor -se sentou-. No venho aqui h muito tempo. Meu av estava acostumado a me trazer. Gostava de sentar-se aqui mesmo a contemplar o mar. Uma vez me contou uma histria sobre uma princesa no castelo que havia no alto. Devia estar falando da Bianca, mas mais adiante, quando recordei a histria, sempre pensei em voc.
-Holt, sinto tanto.
-Se voc se desculpar, s vai conseguir me enfurecer.
Ela se tragou as lgrimas.
-No posso suportar que tenha visto aaquilo, que todos tenha visto.
-O que vi foi como enfrentava um valento -girou o rosto para que o olhasse-. Nunca mais voltar a lhe fazer danifico.
-Era sua reputao. Os meninos falaram de Kevin.
-Vai me contar sobre isso?
Fez-o com a mxima claridade que pde.
-Quando Sloan me disse -concluiu isso-, soube que era importante que os meninos entendessem que tinham um irmo. O que Bax no compreende  que nunca pensei nele, nunca me importou. Eram os meninos quo nicos importavam, os tres meninos. A famlia.
-No, ele no poderia entender isso. Nem a voc -levou sua mo aos lbios para beij-la com delicadeza. A expresso assombrada que mostrou Suzanna fez que olhasse por volta do mar com o cenho franzido-. Eu tampouco fui o rei da sensibilidade.
-Voc foi maravilhoso.
-Nesse caso, no teria uma  expresso de quem acaba de receber uma paulada s por que lhe beijei a mo.
- que no  seu estilo.
-No - encolheu os ombros e tirou um cigarro-. Suponho que no -mas mudou  de idia e em seu lugar lhe rodeou os ombros com um brao-. Bonita vista.
- maravilhosa. Sempre venho aqui, a este mesmo lugar. s vezes...
-Continua.
-Rir-te de mim, mas s vezes  como se pudesse ver a Bianca. Sinto-a e sei que est aqui, esperando -apoiou a cabea em seu ombro e fechou os olhos-. Igual a agora.  to quente e real. Na torre, em sua torre,  agridoce, mais de saudade. Mas aqui h espera. Esperana. Sei que pensa que estou louca.
-No -quando ela foi mover se, aproximou-a mais-. No poderia. No quando eu tambm o sinto.
Da torre oeste, o homem que se chamava a si mesmo Marshall os observou com as lentes. No o preocupava que pudessem incomod-lo. A famlia j no subia alm do primeiro andar na ala oeste, e os operrios tinham partido a trinta minutos. Tinha esperado aproveitar o tempo que Sloan Ou'Riley estivesse de lua de mel para mover-se com mais liberdade pela casa. Os Calhoun estavam to acostumados a ver homens com ferramentas que estranha vez lhe emprestavam ateno.
Alm disso, interessava-lhe muito Holt Bradford, fascinava-o que se visse atrado para essa gerao de mulheres Calhoun. Satisfazia-o poder continuar seu trabalho sob os prprios narizes de um ex-polcia. Essa ironia alimentava sua vaidade.
Seguiria-o vigiando enquanto o outro completava a busca. E ali estaria ele para apoderar-se do que era dele assim que encontrassem o tesouro. Eliminaria a quem quer que se interpor.
Suzanna passou toda a noite com seus filhos, tranqilizando-os e tentando transformar uma experincia desventurada em uma tola aventura. Quando os agasalhou na cama, Jenny j no precisava pegar-se a ela e Alex estava feliz.
-Tivemos que viajar  no carro horas e mais horas -saltava na cama de sua irm enquanto Suzanna alisava os lenis de Jenny-. E todo o tempo tinham msica estpida na rdio.
-E ns tnhamos que guardar silncio para escut-la e apreci-la -interveio a pequena.
Suzanna se conteve e apertou o nariz de sua filha.
-Bom, puderam apreciar que era horrvel, no?
Isso provocou uma risada no Jenny, que elevou os braos para receber outro beijo.
-Yvette disse que podamos brincar de palavras, mas ele disse que lhe dava dor de cabea, assim que ela foi se dormir.
- o mesmo que deveriam fazer agora.
-Eu gostei do hotel -continuou Alex com a esperana de adiar o inevitvel-. Quando ningum olhava, saltvamos nas camas.
-Quer dizer como faz em seu quarto? -ele sorriu.
-Tinham pastilhas pequenas de sabo no banheiro, e nas noites lhe punham chocolate no travesseiro.
-J pode esquecer essa idia, carinha de r -Suzanna inclinou a cabea.
Depois de que Jenny estivesse agasalhada, com a luz do abajur de noite aceso e o exrcito de bonecos de pelucia em torno dela, Suzanna levou Alex a seu prprio quarto. J no deixava que o levasse nos braos e o agasalhasse muito freqentemente, mas essa noite parecia necessit-lo tanto como ela mesma.
Lutou com ele at deix-lo sem flego, logo ele saiu de um salto da cama.
-Alex...
-Esquei...
-Esta noite j superou o limite.  cama ou te farei assar a fogo lento.
Tirou algo dos jeans que levava postos ao chegar a casa.
-Guardei-o para voc.
Suzanna aceitou o chocolate esmagado e rito envolto em papel dourado. Estava mais que um pouco derretido, era impossvel de comer e para ela era mais precioso que diamantes.
-Oh, Alex.
-Jenny tambm tinha um, mas o perdeu.
-No  nada -lhe deu um abrao forte-. Obrigado. Amo-o, tanto.
-Eu tambm te amo -no se envergonhou de diz-lo, como lhe acontecia s vezes, e a abraou mais tempo do habitual. Assim que sua me o agasalhou, no se queixou quando lhe acariciou o cabelo-. boa noite -se despediu, preparado para dormir.
-Boa noite -o deixou sozinho e chorou sobre o chocolate esmagado. Em seu quarto, abriu o estojo que em uma ocasio tinha contido seus diamantes e guardou dentro o presente de seu filho.
Despiu-se e colocou uma camisola branca. Esperava-a papelada no escritrio que tinha em um canto, mas sabia que tanto sua mente como seus nervos se encontravam muito agitados. Para relaxar-se, abriu as portas do terrao e, com a escova na mo, saiu para sentir a noite.
Um lobo uivava, os grilos cantavam e tambm se ouvia o fluxo sereno do mar. Essa noite a luz da lua era clara como o cristal. Com um sorriso, elevou a cara e devagar se escovou o cabelo.
Holt jamais tinha visto nada mais formoso que Suzanna penteando-se  luz da lua. Sabia que era um Romeo pobre e temia ficar como um tolo tentando s-lo, mas devia lhe oferecer algo, lhe mostrar de algum modo o que significava t-la em sua vida.
Saiu do jardim e comeou a subir  os degraus de pedra, moveu-se em silncio, e ela sonhava acordada. No soube que estava a seu lado at que pronunciou seu nome.
-Suzanna.
Abriu os olhos e o viu de p a menos de um metro, com o cabelo revolto pela brisa, os olhos escuros a lhe titilem luz.
-Pensava em voc. O que faz aqui?
-Fui para casa, mas... Voltei -queria que continuasse escovando o cabelo, mas estava seguro de que a petio soaria ridcula-. Se encontra bem?
-Estou bem, de verdade.
-Os meninos?
-Tambm. Dormem. No tive nem tempo de lhe agredecer. Pode que seja uma mesquinharia, mas agora que me tranqilizei, posso reconhecer que eu gostei de ver que ao Bax sangrava o nariz.
-Quando voc queira -afirmou Holt.
-No acredito que volte a ser necessrio, mas lhe agradeo -estendeu ento o brao para lhe tocar a mo e se cravou um dedo com um espinho-. Ai.
-Bom comeo -murmurou, estendendo a rosa para ela-. Te trouxe isto.
-Sim? -absurdamente comovida, aproximou as ptalas  bochecha.
-Roubei-a de seu jardim -colocou as mos nos bolsos e desejou ter um cigarro-. Suponho que no conta.
-Certamente que sim -pensou que essa noite j tinha dois presentes, dos dois homens que amava-. Obrigado.
Ele  encolheu os ombros e se perguntou o que fazer a seguir.
-Est bonita.
Suzanna sorriu e baixou a vista ao singela camisola branca.
-Bom, no uso ligas.
- Fiquei vendo-a escovar os cabelos -por vontade prpria a mo saiu do bolso para toc-la-. Fiquei a de p, na beira do jardim, e a observei. Quase no pude respirar.  to linda, Suzanna.
Foi o turno dela de no poder respirar. Jamais a tinha tratado dessa maneira. A voz do Holt nunca tinha divulgado mais baixa. Havia reverencia nela, igual a na mo que lhe acariciava o cabelo.
-No volte a me olhar desse modo -esticou os dedos no cabelo da Suzanna e teve que obrigar-se a relaxar -.Sei que fui bruto com voc.
-No, no foi.
-Maldita seja, sim -lutou contra a crescente impacincia enquanto a contemplava-. A sacusi e rasguei sua blusa.
Ela esboou um sorriso.
-Quando voltei a costurar os botes, recordei aquela noite e a sensao de  ser necessitada daquela forma -mais que um pouco desconcertada, moveu a cabea-. No sou frgil, Holt.
 Ser que ela no via como estava errada?No sabia que aspecto tinha nesse momento, com o cabelo resplandecente  luz da lua e a fina camisola branca agitada pela brisa?
-Quero estar contigo esta noite -baixou a mo para lhe tocar uma face-. Deixa que te ame esta noite.
No poderia lhe haver negado nada. Quando ele pegou ela no colo para lev-la para dentro, Suzanna beijou o pescoo do Holt. Mas ele no procurou seus lbios. Depositou-a com cuidado, tirou-lhe a escova e colocou sobre a cmoda. Logo apagou as luzes.
Quando a fim seus lbios se juntaram, fizeram-no em um beijo suave como um sussurro. As mos dele no se precipitaram para excit-la, mas sim se moveram com deliciosa pacincia para seduzi-la.
Holt sentiu a confuso que a dominava, ouviu-a no inseguro murmrio de seu nome, mas s lhe roou os lbios e os seguiu com a lngua. As mos fortes se moveram com a graa das de um artista sobre o tenso pendente dos ombros dela.
-Confia em mim -com a boca iniciou um lento percurso-. Deixe ir e confia em mim Suzanna. H mais que um caminho -lhe beijou a mandbula, o pescoo, retornou aos lbios trementes e sussurrou-:Deveria haver lhe demonstrado isso antes.
-No posso... -logo seu beijo a afundou ainda mais em uma espessa bruma aveludada. No foi capaz de erguer-se. No quis faz-lo. Sem dvida esse tnel interminvel cheio de ecos era o paraso.
Tocou-a quase sem toc-la e a deixou dbil. Ouviu-o lhe sussurrar promessas incrveis, palavras suaves e adorveis.
Acariciou-a atravs do tnue algodo, deleitando-se no movimento lquido do corpo de Suzanna sob suas mos. Podia observar a cara dela  luz do abajur e saber que estava entregue ao que lhe oferecia.
Despiu-a devagar, baixando a camisola centimtro a centimtro. Fascinado com cada tremor que lhe produzia, atrasou-se. Logo a levou com gentileza alm da primeira crista.
Cada movimento, cada suspiro, eram insuportavelmente doces. Inexplicavelmente  tenros. Cada contato, cada murmrio. Tinha-a aprisionado em um mundo de seda. Nunca tinha sido ela mais consciente de seu corpo que nesse momento, sob a minuciosa e paciente explorao do Holt.
Ao final sentiu a pele dele contra a sua, o corpo quente e duro que tinha chegado a desejar. Abriu os olhos e olhou. Elevou umas extremidades pesadas e tocou.
Holt no tinha imaginado que uma necessidade pudesse ser to poderosa e ao mesmo tempo to serena. Ela o envolveu. Ele se deslizou a seu interior. Para ambos foi como chegar ao lar.


No teria podido prever que seria meu ltimo dia com ela. Em caso contrrio, teria observado com mais ateno, abraado com mais fora? O amor no teria podido ser maior, mas, teria podido entesourar o de forma mais completa?
No h resposta.
Encontramos o cachorrinho, aterrozizado e quase morto de fome nas rochas de nossos penhascos. Bianca ficou encantada com ele. Suponho que era uma tolice, mas acredito que ambos consideramos que era algo que podamos compartilhar, j que o tnhamos achado juntos.
Batizamo-lo com o nome de Fred, e tenho que reconhecer que quando chegou o momento de que ela retornasse s Torres entristeceu ver que o levava. Era lgico, j que com seus filhos o cachorrinho rfo teria uma famlia. Fui a casa sozinho, para pensar nela, para tratar de trabalhar.
Quando veio a meu lado, surpreendeu-me que corresse semelhante risco. S uma vez com antecedncia tinha estado na cabana, e no tnhamos querido nos arriscar a repeti-lo. Estava nervosa e tensa. Sob a capa levava o cachorrinho. Como a via plida como um fantasma, pedi-lhe que se sentasse e lhe ofereci um brandy.
Contou-me os acontecimentos que tinham tido lugar desde que nos separamos.
Os meninos se apaixonaram pelo co. Houve risadas e coraes contentes at que Fergus retornou. negou-se a ter ao animal, um vira-lata sem raa, em seu lar. Possivelmente teria podido perdo-lo por isso, e hav-lo considerado unicamente um idiota rgido. Bianca me contou que tinha ordenado que matassem ao co, sem perder um pice de sua firmeza nem sequer ante as lgrimas e splicas de seus filhos.
Tinha mostrado sua mxima dureza com a jovem Colleen. Temendo uma represlia mais dura e possivelmente fsica, Bianca tinha mandado aos meninos e ao co acima junto  bab.
A discusso que teve lugar a seguir foi amarga. No me contou tudo, mas seus tremores e os brilhos de medo em seus olhos foram eloqentes. Furioso, ele a tinha ameaado. Foi nesse momento quando  luz de meu abajur vi as marcas que tinham deixado os dedos dele em seu pescoo.
Nesse instante me teria ido mat-lo. Mas o terror dela me freou. Nunca antes nem depois hei sentido uma fria como essa. Amar como amava, saber que a tinha machucado e assustado... H ocasies em que desejo com todas minhas foras ter ido, hav-lo matado. Possivelmente assim as coisas tivessem sido distintas. Mas jamais saberei.
No a deixei, mas sim fiquei enquanto chorava e me informava que ele se partiu a Boston, e que quando retornasse pensava contratar a um ama para os meninos. Tinha-a acusado de ser uma m me, e lhe havia dito que lhe tiraria o controle e o cuidado dos meninos.
Se a tivesse ameaado lhe arrancando o corao, no teria podido lhe causar mais danos. Ela no pensava tolerar que seus filhos fossem criados por uma criada paga, fiscalizados por um pai frio e ambicioso. Por quem mais temia era por sua filha, e sabia que se no se fazia algo, algum dia Colleen seria entregue em matrimnio... tal como tinham feito com sua me.
Foi esse grande temor o que forou sua deciso de abandon-lo.
Conhecia os riscos, o escndalo, a posio que deixaria. Nada poderia dissuadi-la. Levaria-se a seus filhos a um lugar onde soubesse que estariam a salvo. Seu desejo era que a acompanhasse, mas no suplicou nem recorreu a meu amor.
No lhe fez falta.
Eu realizaria os preparativos para o dia seguinte e ela teria preparados aos meninos. Logo me pediu que a fizesse minha.
Tinha-a desejado tanto tempo. Entretanto, tinha-me prometido que no tomaria. Aquela noite rompi uma promessa e fiz outra. Amaria-a eternamente.
Ainda recordo que aspecto tinha, com o cabelo solto, os olhos escuros. antes de tocar sabia o que ia sentir. antes de deposit-la em minha cama, sabia como estaria. Agora s  um sonho, a lembrana mais doce de minha vida. O som da gua e dos grilos, o aroma das flores silvestres.
Naquela hora atemporal, tive tudo o que poderia desejar um homem. Ela representava a beleza, o amor e a promessa. Sedutora e inocente, tmida e luxuriosa. Inclusive agora posso provar sua boca, cheirar sua pele. E desej-la.
Logo partiu. O que tinha pensado que era um comeo foi um final.
Tomei todo o dinheiro que tinha, vendi pinturas e tecidos e comprei quatro bilhetes para o trem da noite. Ela no veio. Formava-se uma tormenta. Disse-me que era o tempo o que me tinha esfriado tanto o sangue. Mas que Deus me ajude, acredito que sabia. Sentia uma dor aguda e aterradora, um medo irracional. Consumia-me.
Por primeira e ltima vez, fui s Torres. A chuva comeou a me aoitar quando bati na porta. A mulher que respondeu se achava histrica. A teria feito a um lado, teria deslocado pela casa chamando a Bianca, mas nesse momento chegou a polcia.
Atirou-se da torre, atirou-se pela janela para as rochas. Isto no est claro agora, como no o esteve ento. Lembrana que corri, chamando-a gritos por cima do uivo do vento. As luzes da casa eram cegadoras e fendiam a escurido. J havia homens movendo-se por toda parte com lanternas. Plantei-me no bordo e a observei l abaixo. Meu amor. Tinha-me sido arrebatada. No por sua prpria mo. Jamais poderia aceitar isso. Mas se tinha ido. Estava perdida.
Eu mesmo me teria atirado por aquele penhasco. Mas ela me deteve. Juro que foi sua voz a que me deteve. Sentei-me no cho, empapado pela chuva que no cessava.
No podia me reunir com ela ento. De algum modo ia ter que viver minha vida sem ela. Assim o tenho feito e possivelmente saiu algum bem do tempo que passei aqui. O menino, meu neto. Como o teria querido Bianca. H ocasies em que me levo isso aos penhascos e estou seguro que ela nos acompanha.
Ainda h Calhoun em Las Torres. Bianca teria querido isso. Os filhos de seus filhos, e os filhos destes. Talvez algum dia outra moa passear por esses penhascos. Espero que seu destino seja mais amvel.
No fundo de meu corao sei que ainda no finalizou. Ela me espera. Quando ao fim chegue minha hora, voltarei a falar com a Bianca. Amarei-a como uma vez prometi. Eternamente.


Captulo 10

Holt esperava ao Trent no caramancho que havia no quebra-mar. Acendeu um cigarro e contemplou o jardim de Las Torres. Uns andaimes emolduravam a ala oeste e o chiado de uma serra cortava o ar. Um caminho elevador estava estacionado sob a terrao e seu mecanismo gemia enquanto subia equipe a um trio de homens com o torso nu. Uma rdio emitia rock duro.
As janelas do quarto onde tinha passado quase toda a noite com a Suzanna lhe piscaram os olhos seus olhos. Recordava a cada segundo dessas horas, cada suspiro, cada movimento. Tambm recordava hav-la deixado confusa. Estava claro que a ternura no era seu estilo, embora tinha sido fcil manifest-la com ela.
Suzanna no lhe tinha pedido suavidade. No lhe tinha pedido nada. Por isso se sentia impulsionado a dar? Sem tent-lo, ela tinha chegado a algo em seu interior que Holt no sabia que existia... e com o que ainda se sentia mais que um pouco incmodo. Descobri-lo e senti-lo-o deixava to vulnervel como ela.
Ela merecia a msica, as velas, as flores. Merecia as palavras poticas. Ia tentar dar-lhe sem importar que o fizessem sentir-se como um tolo.
Enquanto isso, tinha um trabalho que cumprir, ia encontrar essas malditas esmeraldas para ela. E ia pr ao Livingston entre grades.
Atirou o cigarro ao ver o Trent sair da casa. No caramancho foram desfrutar de uma relativa privacidade. O que dissessem ali ningum poderia escut-lo. Qualquer que olhasse da casa, veriam dois homens que compartilhavam uma cerveja pela tarde, longe das mulheres.
Trent subiu e lhe ofereceu uma garrafa.
-Obrigado -se apoiou com indiferena em um poste e elevou a cerveja-. conseguiste a lista?
-Sim -Trent se sentou em um dos bancos de pedra para poder observar a casa enquanto bebia-. Sozinho contratamos a quatro homens novos no ltimo ms.
-Referncias?
-Certamente -a leve irritao em seu tom de voz foi instintiva-. Sloan e eu somos bem conscientes da segurana.
Holt simplesmente encolheu os ombros.
-Um homem como Livingston no teria nenhum problema em conseguir referncias. Custaria-lhe dinheiro -bebeu um bom gole-. Mas as conseguiria.
-Voc sabe mais que eu dessas coisas -entrecerru os olhos ao ver dois homens trocar um lustre no teto da ala oeste-. Mas me custa acreditar que pudesse estar aqui, trabalhando ante nossos prprios narizes.
-Oh, est aqui -tirou outro cigarro, acendeu-o e deu um trago pensativo-. Quem quer que seja que tenha invadido minha casa, inteirou-se da conexo quase ao mesmo tempo que vocs. Como no vo por a falando da situao nas festas, ter ouvido algo aqui, na casa. No formava parte da equipe ao comear as obras, porque se achava ocupado em outra parte. Mas as ltimas semanas... -calou enquanto os meninos saam  carreira em direo ao forte seguidos dos ces-. No ia ficar sentado a esperar, no enquanto existisse a possibilidade de que derrubassem uma parede e aparecessem as esmeraldas. E que melhor lugar para vigi-lo do que aqui de dentro?
-Encaixa -reconheceu Trent-. Mas eu no gosto da idia de que minha mulher, ou qualquer de outros, esteja to perto -pensou em C.C., no beb que esperava e seu semblante se endureceu-. Se houver uma possibilidade de que tenha razo, quero inspecion-la.
-Me d a lista e a comprovarei. Ainda tenho alguns contatos -no afastou o olhar dos meninos-. No vai machucar ningum. Garanto-lhe isso.
Trent assentiu. Era um homem de negcios e nunca tinha praticado algo mais que um pouco de boxe na universidade. Mas faria o que fora necessrio para proteger a sua mulher e a seu filho que ainda nem nascera.
-Contei a Max, e Sloan e Amanda decidiram interromper a lua de mel. Devem chegar em algumas  horas.
"Isso est bem", pensou Holt. Era melhor ter a toda a famlia em um s lugar.
-Que lhe contou Sloan?
-Que havia um problema no trabalho -mais cmodo uma vez que as engrenagens se puseram em marcha, Trent sorriu um pouco-. Se Amanda averiguar que a est enganando, o far pagar.
-Quanto menos saibam as mulheres, melhor.
Nessa ocasio Trent riu.
-Se alguma delas o ouvor dizer isso, perderia trs capas de pele. So duras.
-Acreditam que o so -pensou em Suzanna.
-No, so-o. Demorei bastante em aceit-lo. Individualmente so fortes, de ao recoberto de veludo. Por no mencionar teimosas, impulsivas e febrilmente leais. Juntas... -sorriu-. Bom, reconheo que preferiria me enfrentar a um par de lutadores de supremo antes que s mulheres Calhoun.
-Quando tudo estiver acabado, que se enfuream quanto queiram.
-Enquanto estejam a salvo -concluiu Trent, notando que Holt observava os meninos-. Uns meninos estupendos -comentou.
-Sim. Esto bem.
-Tm uma me extraordinria -bebeu um sorvo de cerveja-.  uma pena que no tenham um verdadeiro pai.
-O que sabe dele? -at pensar no Baxter Dumont o fazia ferver o sangue.
-Mais do que eu gosto. Sei que fez Suzanna passar por um inferno. Esteve a ponto de quebr-la com o julgamento pela custdia.
-Quis ficar com os meninos? -olhou-o aturdido.
-Foi por ela -corrigiu Trent-. E que melhor maneira que essa? Ela no fala do tema. C.C. contou-me a histria. Ao parecer o incomodou que solicitasse o divrcio. No era bom para sua imagem, menos quando tem em alvo uma poltrona do senado. Fez-a passar por uma longa e feia luta nos tribunais, tratando de demonstrar que era uma mulher instvel e no apta para educar aos meninos.
-Canalha -afogou a ira e se voltou para atirar o cigarro s rochas.
-No os queria. A idia que tinha era coloc-los em um internato. Ou essa era a ameaa. Retirou a demanda quando Suzanna aceitou o acordo.
-Que acordo? -agarrava com fora o corrimo de pedra.
-Ela cedeu virtualmente tudo. Ele retirou os cargos para que o negociao pudesse ser feita em particular. Conseguiu a casa e toda a propriedade, junto com uma boa parte da herana de Suzanna. Poderia ter lutado, mas os meninos e ela j se encontravam em um caos emocional. No quis correr nenhum risco com eles nem submet-los a mais tenso.
-No, no o faria -bebeu em um intento intil de eliminar a amargura de sua garganta-. Ele j no voltar a machucar a nenhum dos trs. Ocuparei-me disso.
-Imaginava -satisfeito, ficou de p. Tirou uma lista do bolso e a trocou pela garrafa vazia do Holt-. Me faa saber o que averiguar.
-Sim.
-A sesso esprita  esta noite -viu a careta do Holt e riu-. Pode se surpreender.
-O nico que me surpreende  que Cody me convencesse de assistir.
-Se pensa ficar por aqui, ter que te acostumar a que lhe convenam para todo tipo de coisas.
"Penso ficar, sim", conveio mentalmente enquanto Trent se afastava. S precisava encontrar a maneira adequada de contar-lhe a Suzanna. depois de ler os nomes da lista, a guardou. Faria algumas  chamadas para ver o que achava.
Enquanto atravessava o jardim, os ces correram para ele, com  Fred pego ao flanco de Sadie. Quando deixaram de dar saltos, acariciou-os.
-Recordem o Alamo! -gritou Alex. achava-se com as pernas abertas no teto de seu forte, com uma espada de plstico na mo-. Jamais tomaro com vida.
-Ah sim? -incapaz de resistir, Holt se aproximou-. E o que te faz pensar que lhes busco, pequenino?
-Que ns somos os patriotas e vs os invasores perversos.
Jenny apareceu a cabea por uma abertura que servia como janela. Antes de que Holt pudesse esquiv-lo, recebeu no meio do peito um jorro de gua de sua pistola. Alex soltou um grito triunfal enquanto Holt observava carrancudo a camisa molhada.
-Suponho que sabem que isto significa a guerra -exps devagar.
Enquanto Jenny gritava, tirou-a pela janela. Para deleite da pequena, manteve-a de barriga para baixo de modo que as mexas loiras roassem na  grama.
-Tomou um refm! -gritou Alex-. At a morte -entrou no forte para logo sair pela porta brandindo sua espada. Holt logo se disps de tempo de endireitar Jenny antes de que o pequeno mssil o alcanasse-. Lhe corte a cabea -entoou Alex, seguido de sua irm.
Holt afrouxou o corpo e levou aos dois consigo ao cho.
Houve gritos e risadas enquanto lutava com eles. No resultou to fcil como tinha imaginado. Os dois eram geis e escorregadios, e conseguiram soltar-se para atac-lo. encontrou-se em desvantagem quando Alex se sentou em seu peito enquanto Jenny localizava um ponto para lhe fazer ccegas.
-Vou ter que ser duro com vocs-lhes advertiu. Amaldioou ao receber um jorro de gua na cara, provocando risadas de ambos. Com um movimento veloz lhes arrebatou a pistola e passou a empap-los aos dois. Com grititos e risadinhas, ambos se lanaram sobre ele.
Foi uma batalha molhada, e quando ao fim conseguiu imobiliz-los, todos estavam sem flego.
-Aniquilei-lhes -conseguiu dizer Holt-. Digam gua -Jenny lhe cravou um dedo nas costelas. Para defender-se, baixou a bochecha ao pescoo da pequena e esfregou a barba de um dia sobre sua pele.
-Tio, tio, tio! -gritou ela, morrendo de rir.
Satisfeito, empregou a mesma estratagema com o Alex at que, vitorioso, deu a volta e ficou de barriga para baixo sobre a grama.
-Nos matou-reconheceu Alex, absolutamente zangado-. Mas est moralmente ferido.
-Sim, mas acredito que quer dizer mortalmente.
-Vai tirar uma soneca? -Jenny subiu a suas costas para dar saltos-. s vezes Lilah dorme na grama.
-Lilah dorme em qualquer parte -murmurou Holt.
-Se quiser, pode tirar uma soneca em minha cama -convidou ela, logo apoiou um dedo curioso na cicatriz que via sob a camiseta levantada-. Tem uma ferida nas costas.
-Mmm.
-Posso ver? -perguntou Alex, que j tinha comeado a subir.
Holt ficou tenso de forma automtica, logo se obrigou a relaxar-se.
-Claro.
Enquanto Alex levantava a camiseta, os olhos de ambos os meninos se aumentaram muito. No se parecia com a cicatriz limpa e pequena que tinham admirado na perna dele. Essa era larga e irregular, e ia da cintura at um ponto das costas que no conseguiam ver devido a que j no podiam lhe levantar mais a camiseta.
-Cus -foi o nico que ocorreu ao Alex. Tragou saliva e logo, com valentia, aproximou um dedo  cicatriz-. Meteu em uma briga grande?
-No exatamente -recordou a dor, o incrvel resplendor de calor branco-. Me atacou um dos maus -respondeu, com a esperana de que isso bastasse. Ao sentir que a boquinha de Jenny se posava em suas costas, ficou muito quieto.
-Sente-se melhor agora? -perguntou ela.
-Sim -teve que suspirar para controlar a voz-. Obrigado -se voltou e se sentou para lhe acariciar o cabelo.
Suzanna se achava a uns metros e os observava com o corao em um punho. Tinha visto a batalha da porta da cozinha. Tinha-a comovido ver a facilidade com a que Holt se uniu ao jogo com seus filhos. Sorria enquanto ia se reunir a eles... mas se deteve o ver o Jenny e Alex examinar a ferida das costas do Holt, e o beijo do Jenny para que se sentisse melhor. Tinha percebido a expresso de emoo descarnada no rosto dele ao voltar-se para acariciar o cabelo da pequena.
Nesse momento os trs se achavam na grama, com o Jenny acurrucada no colo do Holt, e o brao do Alex com gesto afetuoso sobre seu ombro. Tomou um momento para certificar-se de que tinha os olhos secos antes de seguir avanando.
-Terminou a guerra? -perguntou.
-Ganhou ele -informou Alex.
-No parece ter sido uma vitria fcil -tomou a Jenny em braos quando a pequena elevou as mos-. Esto todos molhados.
-Aniquilou-nos... mas eu lhe dei o primeiro golpe.
-Essa  minha garota.
-E tem ccegas -revelou Jenny-. Ccegas de verdade.
-Sim? -deu de presente um sorriso ao Holt-. Lembrarei disso. E agora parte. Dei-me conta de que ningum guardou o jogo com o que lhes entretinham.
-Mas, mame... -Alex tinha lista sua desculpa, mas freou ante a expresso de sua me.
-Se no o recolherem, farei-o eu -indicou ela com suavidade-. Mas ento eu comerei seu bolo de framboesa de esta noite.
Alex refletiu um momento, logo cedeu.
-Farei-o eu. Logo ficarei com a parte de Jenny.
-No -esta correu para a casa perseguida por seu irmo.
-Muito hbil, mame -comentou Holt ao incorporar-se.
-Conheo seus pontos fracos -o rodeou com os braos, surpreendendo-o. Era estranho que ela desse o primeiro passo-. Voc tambm est todo molhado.
-Fogo de franco-atirador, mas os derrubei como moscas -a aproximou e apoiou a bochecha em seu cabelo-. So meninos estupendos, Suzanna. Eu, mmm... -no sabia como lhe dizer que se apaixonou por eles, no mais que lhe revelar que tambm se apaixonou por sua me-. A estou molhando -incmodo, afastou--se.
-Quer dar um passeio? -com um sorriso, acariciou-lhe a bochecha.
Ele pensou na lista que tinha no bolso. Tomando a mo, chegou  concluso de que podia esperar uma hora.
Sabia que ela poria rumo aos penhascos. Parecia apropriado que caminhassem por ali  medida que as sombras se alargavam e o ar refrescava. Ela falou um pouco do trabalho que tinha terminado esse dia e ele do casco que tinha reparado. Mas nenhum dos dois tinha a mente no trabalho.
-Holt -olhou por volta do mar-. Quer me contar por que deixou o corpo de polcia? -sentiu que os dedos dele ficavam rgidos, mas no girou a cara.
-Parece -exps sem rodeios-. No h nada que contar.
-A cicatriz de suas costas...
 J disse tudo-se soltou e tirou um cigarro.
-Compreendo Seu passado e seus sentimentos pessoais no so assunto meu.
-No disse isso -deu uma tragada impaciente.
-Certamente que sim. Voc tem direito de saber tudo que puder de mim. Supe-se que devo confiar em voc, sem questionar nada. Mas pelo jeito no tenho que me interessar por suas coisas.
-O que  isto, uma espcie de prova? -olhou-a com olhos irados.
-Chama-o como queira -replicou-. Tinha esperado que j confiasse em mim, que te importava para me deixar entrar em sua vida.
-Importa-me, maldita seja. No sabe que ainda me doi record-lo? Foram dez anos de minha vida, Suzanna. Dez anos -se voltou para jogar o cigarro ao abismo.
-Sinto -instintivamente apoiou as mos em seus ombros para acalm-lo-. Se houver algum que saiba quo doloroso  tirar velhas feridas, sou eu. Por que no voltamos? Verei se te posso encontrar uma camisa limpa.
-No -tinha a mandbula apertada, o corpo tenso como uma mola-. Quer sab-lo, tem direito. Deixei-o porque no pude agent-lo. Dediquei dez anos a me dizer que podia fazer  uma diferena, que nada da merda pela que tinha que me envolver me afetaria. Podia tratar com traficantes, fanfarres e vtimas todo o dia sem perder um minuto de sono de noite. Se tinha que matar a algum, o fazia no cumprimento do dever. No era algo no que queria refletir muito, a no ser algo com o que tinha que viver. Vi alguns policiais que se queimaram pelo caminho, mas me disse que isso no ia acontecer me a mim.
Ela guardou silncio e seguiu lhe esfregando os msculos tensos dos ombros enquanto esperava que continuasse.
-A seo de anti etorpecentes  a leva aos abismos, Suzanna. Dessa maneira termina por compreender s pessoas que trata de eliminar. Pensa como eles. Tem que faz-lo quando entra de incgnito, ou no volta a sair. H coisas que jamais penso te contar, porque me importa. Coisas feias que eu... -fechou os olhos e colocou as mos nos bolsos-. Que no queria voltar a ver. J tinha comeado a pensar em retornar aqui -cansado, esfregou-se os olhos-. Estava cansado, Suzanna, e queria viver outra vez como uma pessoa normal, sem ter que pr uma pistola na cintura todos os dias nem fazer acordos com lixo em lugares miserveis.
"Levvamos uma investigao rotineira em busca de um traficante pequeno ao que acreditvamos que poderamos lhe surrupiar informao. Recebemos um dica sobre onde encontr-lo, e quando o abandonamos em um pequeno antro, acontece que o imbecil levava uns vinte mil dlares em coca sob a roupa e mais de que isso no crebro. Entrou-lhe o pnico. Arrastou a uma mulher meio pendurada com ele e fugiu -comeavam a lhe suar as mos, que secou em seu jeans-. Meu companheiro e eu nos separamos para lhe cortar a sada. Entrou com a mulher no beco. Conosco em cada extremo, no tinha esperana alguma de escapar. Eu tinha desencapado. Estava escuro. O lixo se verteu no cho.
Ainda podia cheir-la, ranosa e ftida, enquanto o suor lhe descia pelas costas.
-Escutava a meu companheiro avanar do outro extremo e o pranto da mulher. Tinha-lhe feito uns cortes e se achava acurrucada no cimento. No sabia quo gravemente ferida estava. Lembrana que pensei que o miservel ia ser encerrado com cargos superiores a distribuio de droga. Ento saltou sobre mim. Tinha-me parecido a faca antes de que pudesse realizar nenhum disparo -ainda sentia como o ao lhe rasgava o corpo, ainda cheirava seu prprio sangue-. Soube que estava morto e no deixei de pensar que no poderia ir a casa. Que ia morrer nesse maldito beco com o fedor daquele lixo. Matei-o enquanto caa. Isso  o que me contaram. No o recordo. O que sim recordo  que logo despertava no hospital sentindo como se me tivessem talhado em dois para logo me costurar. Disse-me que se o conseguia, ia retornar aqui. Porque sabia que se tinha que voltar a caminhar por outro beco, no voltaria a sair dele.
Suzanna o abraou com fora e apoiou a bochecha em suas costas.
-Acredita que por ter retornado a casa em vez de entrar em outro beco fracassou?
-No sei.
-Durante muito tempo, isso pensei eu. Ningum me tinha posto uma faca nas costas, mas cheguei a me dar conta de que se ficava com o Bax, se tivesse mantido aquele voto, uma parte de mim teria morrido. Escolhi sobreviver, acredita que deveria me envergonhar disso?
-No -se voltou-. No.
Ela elevou as mos para lhe emoldurar o rosto. Em seus olhos havia compreenso e a simpatia que Holt no teria aceito nem sequer uma semana antes.
-Eu tampouco acredito. Odeio o que te passou, mas me alegro de que te trouxesse aqui -lhe deu um beijo nos lbios para lhe oferecer consolo. Devagar, com uma doura insuportavelmente comovedora, sentiu que ele se deixava ir.
O corpo do Holt se relaxou ao tempo que a aproximava dele. A boca lhe suavizou e ardeu. Ao fim alcanavam o seguinte nvel. No s havia paixo e ternura, a no ser confiana. Enquanto o vento sussurrava entre a erva e as brilhantes floresa silvestres, Suzanna pensou que ouvia outra coisa, um pouco to sereno e formoso que lhe provocou lgrimas nos olhos. Quando viu a expresso dele, soube que tambm Holt o tinha ouvido. Sorriu.
-No estamos sozinhos aqui -murmurou-. Deveram estar neste mesmo lugar, abraando-se como o fazemos ns. Desejando-se da mesma maneira -enche com o momento, levou-se a mo dele aos lbios-. Acredita que o tempo e o destino podem ser circulares?
-Comeo a acredit-lo.
-Ainda vm aqui, a esperar. Pergunto-me se alguma vez se encontram. Penso que o faro, se formos capazes de solucionar as coisas -o beijou outra vez e logo lhe aconteceu um brao pela cintura-. Vamos a casa. Tenho a sensao de que vai ser uma noite interessante.
-Suzanna -comeou enquanto empreendiam a volta-, depois da sesso... -calou com expresso incmoda, o que provocou a risada dela.
-No se preocupe, em Las Torres s tm fantasmas amigos.
-Se. Mas no espere que lhe d muita credibilidade aos cnticos e os transes, embora de todos os modos me perguntava se depois... olhe, sei que voc no gosta de deixar aos meninos, mas pensei que poderia ir a minha casa um momento. H algumas coisas que quero te falar.
-Que coisas?
-Simplesmente... coisas -repetiu com docilidade. Se ia pedir lhe que se casasse com ele, queria faz-lo bem-. Agradeceria que pudesse sair uma ou duas horas.
-De acordo, se for importante.  sobre as esmeraldas?
-No. ... Preferiria esperar, de acordo? Escuta, tenho que fazer um par de coisas antes de que comecemos a chamar os espritos.
-No vaisficar para jantar?
-No posso. Voltarei -para chegar ao pendente e passar ante a parede de pedra, pegou-a a ele para lhe dar um beijo breve e intenso-. Nos vemos logo.
Observou-o partir com o cenho franzido e possivelmente o tivesse seguido, mas a chamavam do terrao do primeiro andar, protegeu-se os olhos e viu sua irm.
-Amanda! -rindo, correu pelo jardim at os degraus de pedra-. O que a traz de volta? -abraou com fora a recm casada-. Esta maravilhosa, embora se supunha que no voltavam at dentro de uma semana. Aconteceu algo?
-No, nada -beijou as duas bochechas da Suzanna-. Vamos, porei-te ao dia.
-Aonde vamos?
- torre de Bianca. Reunio familiar.
Subiram e logo subiram pela estreita escada circular que conduzia  torre.
-E a tia Cody? -perguntou Suzanna.
-Comunicaremo-lhe o que consiguimos-reps Amanda-. Mas pareceria muito suspeito se agora a trouxssemos aqui.
-S reunio de mulheres? -Suzanna assentiu e se sentou no cho aos ps do Lilah.
- o que merecem -disse C.C., cruzando os braos-. Levam dias escapando para suas reunies de clube de meninos.  hora de equilibrar as coisas.
-Max traz algo entre mos, isso seguro -interveio Lilah -. Atua com muita inocncia. E nos ltimos dias se manteve perto dos operrios.
-Suponho que no esteja aprender a fazer um telhado -murmurou Suzanna.
-Se fosse assim, j teria comprado vinte livros sobre o tema -Lilah se recostou-. E esta tarde quando cheguei a casa do trabalho, vi  Trent e Holt conversando no caramancho. Algum que no os conhecesse teria podido pensar que s tomavam uma cerveja, mas planejavam algo.
-De modo que conhecem algo que no nos esto dizendo -pensativa, Suzanna bateu os dedos sobre os joelhos. Tinha tido a sensao de que passava algo, mas Holt a tinha distrado to bem, que no atuou segundo seu instinto.
-Faz dois dias Sloan manteve uma longa e sigilosa conversao com o Trent por telefone. Justificou-a dizendo que havia uns problemas materiais que devia fiscalizar em pessoa -Amanda agitou o cabelo fazendo uma careta-. E pensou que era o bastante estpida para acreditar nisso Queria voltar de lua de mel porque tramam algo... e pretendem manter s mulherzinhas fora do caminho.
-Que enm sonhem -murmurou C.C.-. Eu voto para que baixemos agora mesmo e lhes exijamos que nos contem o que sabem. Se Trent acreditar que vou ficar sentada sem fazer nada enquanto ele leva um assunto das Calhoun, j ver quo equivocado est.
-Tortura com agulhas de bambu -murmurou Lilah, no muito incmoda com a imagem. - Esto em jogo os egos masculinos, senhoras. Ter que vestirem  escudos e os coletes antibalas.
Suzanna riu e lhe acariciou a perna.
-Repassemos o que sabemos. Chama Sloan de volta, de modo que devem acreditar que esto perto. No me parece que se mostrassem to sigilosos se pensassem que tinham dado com as esmeraldas.
-Eu tampouco -como refletia melhor de p, Amanda ficou a caminhar-. Recorda quo obstinados foram quando decidimos procurar o navio do que tinha saltado Max? Sloan ameaou com... como era? me atar a uma estaca de barriga para cima como tratasse de encontrar ao Livingston -reps com veemncia.
-Trent nem sequer trata o tema do Livingston comigo -acrescentou C.C., logo franziu o nariz-. Diz que no  bom que esteja inquieta em minha condio delicada.
-Eu gostaria que um homem passasse por um parto, ele nunca ia chamar uma mulher de delicada -comentou Lilah do assento do mirante.
-Holt diz que Livingston est fora de nossa liga. Da nossa -explicou Suzanna, fazendo um movimento circular com o dedo-. No da sua.
-Idiota -C.C. deixou-se cair no assento ao lado de Lilah-. Estamos de acordo? Tm uma pista sobre o Livingston e a esto reservando.
O voto foi unnime.
-E agora precisamos averiguar o que  o que sabem -Amanda deixou de caminhar para mover o p acima e abaixo-. Alguma sugesto?
-Bom... -Suzanna contemplou suas unhas e sorriu-. Eu estou a favor de dividir e conquistar. As quatro deveramos ser capazes de obter informao deles... cada uma a sua prpria maneira. E amanh  mesma hora reuniremos aqui para armar o quebra-cabeas.
-Eu gosto de -Lilah se levantou para apoiar uma mo no ombro da Suzanna-. Os pobres no tm nenhuma s chance.
Suzanna elevou a mo para apoi-la sobre a de Lilah; Amanda e C.C., acrescentaram as suas.
-E quando tudo tenha terminado -disse-, possivelmente se dem conta de que as mulheres Calhoun sabem cuidar de seus assuntos.


Captulo 11

Holt nunca se havia sentido mais ridculo na vida, ia tomar parte de uma sesso esprita. E se isso no era bastante mau, antes de que acabasse a noite ia pedir a mo de Suzanna , que nesse momento ria dele.
-No  um peloto de fuzilamento -rindo, Suzanna lhe tocou a bochecha-.Relaxe.
- uma absoluta estupidez, isso  o que  -de um extremo da mesa, Colleen observou carrancuda a todos-. A idia de falar com espritos... bobagens. E voc... -apontou a Cody com um dedo-. No  que alguma vez tivesse um pouco de sentido comum nessa sua cabea, mas teria pensado que at voc saberia que no era lgico despertar s garotas por semelhante insensatez.
-No  uma insensatez -como sempre, o olhar azedo a fez tremer, mas se sentia bastante a salvo com a extenso da mesa as separando-. J o ver uma vez que comecemos.
-O que vejo  uma mesa de endoidecidos -embora seu rosto se manteve severo, lhe derreteu o corao ao levantar a vista para o retrato de sua me, que tinham pendurado sobre a chamin-. Lhe ofereo dez mil por ele.
-No est em venda.
-Se acredita que vai me enrolar, jovem, equivoca-se. reconhecer-se um fraude.
Sorriu-lhe. Teria dado at o ltimo centavo aostando de que ela mesma tinha organizado mais de um.
-No o vendo.
-Alm disso, vale muito mais -interveio Lilah, incapaz de seguir em silncio-. No  verdade, professor?
-Bom, na realidade, sim -Max se esclareceu garganta-. A primeira poca do Christian Bradford est subindo de valor. Faz dois anos no Sotheby's, uma de suas paisagens marinhas alcanou os trinta e cinco mil dlares.
-E voc o que ? -espetou Colleen-. Seu agente?
-No, senhora -Max conteve um sorriso.
-Ento, cale-se. Quinze mil, e nem um centavo mais.
-No estou interessado -Holt se passou a lngua pelos dentes.
-Talvez se nos ocupssemos do assunto que nos reuniu -Cody conteve o flego,  espera da clera de sua tia. Quando Colleen s balbuciou um pouco apagado e franziu o cenho, relaxou-se-. Amanda, querida, acenda as velas. Agora todos devemos tratar de esvaziar nossas mentes de preocupaes, de dvidas. nos concentremos na Bianca -quando as velas arderam e a luz se apagou, jogou uma ltima olhada ao redor da mesa-. Juntem as mos.
Holt grunhiu em voz baixa, mas tomou a mo da Suzanna na direita e a do Lilah na esquerda.
-Concentrem-se no quadro -sussurrou Cody, fechando os olhos para lev-lo a sua mente, j que o tinha na parede a suas costas-. Est perto de ns, muito perto. Quer ajudar.
Holt deixou que sua mente vagasse porque isso o ajudava a esquecer o que fazia. Tratou de imaginar como seria quando Suzanna e ele se achassem a ss na cabana. Tinha comprado velas com aroma de jasmim.
Na geladeira se esfriava champanha. Inclusive nesse momento o estojo queimava um buraco no bolso.
"Esta noite darei o passo", pensou. As palavras sairiam exatamente como as tinha planejado. Soaria msica. Ela abriria o estojo, olharia dentro...
As mos da Suzanna estavam cobertas de esmeraldas. Franziu o cenho e se sacudiu mentalmente. Isso no estava bem. No lhe tinha comprado esmeraldas, Mas a imagem era muito ntida.. Suzanna de joelhos sustentando umas esmeraldas. Trs fileiras resplandecentes flanqueadas por uns diamantes gelados em cujo centro refulgia uma pedra com forma de lgrima de um verde sonhador.
O colar Calhoun. Sentiu frio no pescoo e no prestou ateno. Tinha visto a foto que Max tinha encontrado no velho livro da biblioteca. Sabia que aspecto tinham as esmeraldas. Era a atmosfera, o silncio vibrante e as velas que titilavam o que fazia que pensasse nelas. Isso tinha feito que as visse.
No acreditava em vises. Mas quando fechou os olhos para limpar sua mente, essa viso parecia estar gravada ali. Suzanna de joelhos no cho com esmeraldas que penduravam de seus dedos.
Sentiu uma mo no ombro e girou a cabea. No havia ningum, s um jogo de sombras e luz provocado pelas velas. Mas a sensao persistiu, com uma urgncia que lhe arrepiou o plo da nuca.
" uma loucura", disse-se. E j era hora de pr fim a tanta insensatez.
-Escutem -comeou. E o retrato de Bianca  desabou ao cho.
Cody soltou um chiado e se levantou de um salto da cadeira.
-Santo cu. Santo cu -murmurou, dando-se tapinhas sobre o acelerado corao.
Amanda foi primeira a fazer algum movimento.
-OH, espero que no se danificou.
-No acredito -Lilah soltou a mo de Holt-. E voc?
O olhar claro e firme o ps incmodo. Sem lhe emprestar ateno, voltou-se para a Suzanna. Sentia sua mo gelada.
-Do que se trata? O que passou?
-Nada -mas teve um veloz calafrio-. Acredito que ser melhor que verifique o retrato.
Incorporou-se para aproximar-se de outros que se encontravam em volta. Ao agachar-se, Suzanna olhou em direo a sua tia av, no outro extremo da mesa. A pele branca do Colleen tinha empalidecido como o cristal. Tinha os olhos midos. Sem dizer uma palavra, Suzanna se levantou e lhe serviu um brandy.
-No foi nada -sussurrou, apoiando uma mo no ombro magro.
-A moldura rachou -Sloan passou um dedo pela greta antes de ficar de p-.  curioso que tenha cado dessa maneira. Esses pregos so robustos.
Holt ia descartar o comentrio, mas ao inclinar-se para ver onde se separou o marco da madeira, ficou muito quieto.
-H algo entre o tecido e a parte de atrs -ergueu o retrato e o depositou para baixo sobre a mesa-. Preciso de  uma faca.
Sloan tirou sua navalha de bolso e a ofereceu. Holt realizou um corte fino e comprido justo debaixo da greta do marco e extraiu vrias folhas de papel.
-O que ? -perguntou Cody com voz amortecida pelas mos que levou a boca.
- a caligrafia de meu av -o embargou a emoo-. Parece uma espcie de jornal.  de mil novecentos e sessenta e cinco.
-Sente-se, querido -Cody apoiou uma mo em seu ombro-. Trent, quer servir o brandy? Eu prepararei ch para C.C.
No precisava sentar-se e esperava que a taa lhe desse firmeza. No momento, s podia contemplar fixamente os papis e ver seu av. Sentado no alpendre de atrs da cabana com a vista cravada na gua. De p no apartamento de cobertura enquanto pintava. Passeando pelos penhascos, lhe contando histrias a um jovem.
Quando Suzanna retornou para apoiar uma mo na sua, girou a palma e tomou os dedos.
-Esteve aqui todo este tempo e eu no soube.
-No tinha que sab-lo -murmurou ela-. At esta noite -quando a olhou, apertou-lhe a mo-. Algumas coisas temos que as aceitar com f.
-Algo aconteceu esta noite. Algo o inquietou.
-Contarei-lhe isso. Mas ainda no.
Composta, Cody levou o ch e logo se sentou.
-Holt, seja o que for o que escreveu seu av, pertence a voc. Ningum aqui te pedir que o compartilhe. Se depois de l-o sente que lhe prefere guardar isso para voc, ns vamos compreender.
Ele voltou a contemplar os papis, logo elevou a primeira folha.
-Leremos juntos -respirou fundo sem soltar a mo da Suzanna-. "Assim que a vi, minha vida mudou"
Ningum falou enquanto Holt lia as memrias de seu av. Mas ao redor da mesa as mos voltaram a unir-se. No havia mais som que o da voz dele e o vento entre as rvores alm das janelas. Quando terminou, na habitao imperou o silncio.
Lilah falou primeiro, com a voz espessa pelas lgrimas.
-Nunca deixou de am-la. Amou-a sempre, apesar de continuar com sua vida.
-O que deve ter sentido ao vir aqui aquela noite e descobrir que j no estava -Amanda apoiou a cabea no ombro do Sloan.
-Mas ele tinha razo -Suzanna viu que uma de suas lgrimas caa no dorso da mo do Holt-. Ela no se suicidou. No pde hav-lo feito. No s o amava muito, e teria tolerado qualquer coisa para proteger a seus filhos.
-No, no saltou -sussurrou Colleen. Elevou a taa com mo tremente, e logo voltou a baix-la-. Jamais falei que aquela noite... com ningum. Com os anos s vezes pensei que o que vi foi um sonho. Um pesadelo terrvel, terrvel -decidida, esclareceu-se viso imprecisa e fortaleceu a voz-. Seu Christian a entendia. No teria podido escrever sobre ela dessa maneira sem conhecer seu corao. Era formosa, mas tambm era amvel e generosa. Jamais amei como amei minha me. E nunca odiei como odiei a meu pai.
Ergueu os ombros. A carga j se mitigou.
-Eu era muito jovem para entender sua infelicidade ou desespero. Naqueles dias um homem governava em sua casa e em sua famlia conforme gostava. Ningum ousava questionar a meu pai. Mas lembro o dia em que minha me trouxe o cachorrinho a casa, o pequeno animal que meu pai no aceitou em seu lar. Ela nos disse que fssemos acima, mas eu me escondi no alto das escadas e escutei. Nunca antes a tinha ouvido elevar a voz a ele. Foi valente. E ele cruel. No entendi os nomes com os que a chamou. Ento.
Fez uma pausa para beber outra vez, j que tinha a garganta seca e a lembrana era amarga.
-Defendeu-me contra ele, sabendo como inclusive eu sabia que por ser mulher apenas me tolerava. Quando partiu de casa depois da discusso, alegrei-me. Aquela noite rezei para que no voltasse nunca. Ao dia seguinte minha me me disse que amos fazer uma viagem. Ainda no o tinha contado a meus irmos, mas eu era a maior. Queria que compreendesse que ela ia cuidar de ns, que nada mau ia acontecer.
"Ento ele voltou. Soube que minha me estava inquieta, inclusive assustada. Disse-me que ficasse em minha habitao at que fosse para me buscar. Mas no apareceu. fez-se tarde, e havia uma tormenta. Queria a minha me -juntou os lbios-. No estava em sua habitao, assim subi  torre, onde freqentemente passava tempo comigo. Ao subir com sigilo os ouvi. A porta estava aberta. Tinha lugar uma discusso terrvel. Ele estava louco de fria. Lhe disse que j no pensava viver a seu lado, que no queria nada dele, salvo a seus filhos e sua liberdade.
Como Colleen tremia, Cody se levantou e foi tomar lhe a mo.
-Golpeou-a. Ouvi a bofetada e corri  porta. Mas tinha medo, muito para entrar. Ela se tinha levado uma mo  face e seus olhos cintilavam. No de medo, mas sim de fria. Sempre recordarei que ao final no albergou nenhum temor. Ele a ameaou com o escndalo. Gritou-lhe que se deixava a casa nunca mais voltaria a ver seus filhos. Que jamais ia deixar que arruinasse sua reputao. Que nunca representaria um obstculo no caminho de suas ambies.
Embora lhe tremiam os lbios, elevou o queixo.
-Ela no suplicou. No chorou. Golpeou-o com as palavras -se levou uma mo  boca para controlar suas lgrimas-. Esteve magnfica. Nunca deixaria seus filhos e a merda com o escndalo. E o que importava o que as pessoas achassem dela? E que o que imporatab o isolamento da sociedade e o poder dele? Levaria-se a seus filhos e refariam sua vida ali onde pudessem ser queridos. Acredito que foi isso o que o ps louco. A idia de que escolhesse  outro homem por cima dele. Dele, Fergus Calhoun. Que lhe atirasse  cara seu dinheiro, posio e poder, em vez de inclinar-se ante seus desejos. Agarrou-a e a ergueu no ar, sacudindo-a e gritou enquanto seu rosto expressava fria. Acredito que ento eu gritei, e para me ouvir ela comeou a lutar. Ao golpe-lo, ele a atirou a um lado. Ouvi o rudo do cristal. Ele correu para ela, gritando, mas mame j tinha caido. No sei quanto tempo estive ali enquanto o vento o aoitava e a chuva entrava na torre. Passou ao meu lado sem arrependimentos. Aproximei-me da janela quebrada e olhei abaixo at que veio a bab e me tirou dali.
Cody beijou o cabelo branco, que acariciou com suavidade.
-Vem comigo, querida. Levarei-a pra cima. Lilah lhe trar uma taa de ch.
-Sim, em seguida o preparo -Lilah se secou as bochechas-. Max?
-Acompanharei-te -lhe rodeou a cintura com o brao enquanto Cody conduzia  filha da Bianca para fora da estadia.






-Pobrezinha -murmurou Suzanna e apoiou a cabea no ombro do Holt enquanto se afastavam de Las Torres-. Ter presenciado algo to horrvel, ter tido que viver com isso toda sua vida. Penso em Jenny...
-No o faa -apoiou uma mo firme sobre a seu-. Voc escapou. Bianca no -aguardou um momento-. Sabia, verdade? antes de que Colleen contasse a histria.
-Sabia que no se havia suicidado. No sei te explicar como, mas soube esta noite. Foi como se a tivesse sentido atras de mim.
Holt pensou na sensao de ter uma mo no ombro.
-Possivelmente  tivesse. Depois de uma noite como esta, fica difcil me convencer de que a queda do quadro foi uma coincidncia.
-Foi to lindo o que seu av escreveu sobre ela -Suzanna fechou os olhos-. Se nunca encontrarmos as esmeraldas, temos isso... saberemos que ela teve isso. Custa acreditar que amar assim seja possvel -suspirou-. No quero pensar na tragdia ou na tristeza, a no ser no tempo que dispuseram juntos. Neles danando entre as flores silvestres.
Holt pensou em que nunca tinha danado com ela  luz do sol. Em que no lhe tinha lido poesia nem lhe tinha prometido amor eterno.
Ao chegar  cabana, Holt se inclinou por diante dela.
-Que faz? -perguntou Suzanna surpreendida.
-Abro-lhe a porta -a empurrou-. Se tivesse baixado para faz-lo, no teria esperado.
-Obrigado -divertida, desceu.
-De nada -depois de introduzir a chave na porta dianteira, manteve-a aberta para ela.
Com expresso sria, Suzanna inclinou a cabea ao passar diante.
-Obrigado -Holt deixou que a mosquiteira se fechar. Com as sobrancelhas arqueadas, ela estudou a habitao-. Fez algo diferente.
-Limpei-a -murmurou.
-Oh. V-se muito bem. Sabe, Holt?, queria lhe perguntar se acredita que Livingston continua na ilha.
-Por que? Aconteceu algo?
-No -respondeu movendo-se pela habitao ante a resposta muito brusca dele-. Me perguntava onde estaria, qual poderia ser seu seguinte movimento -passou um dedo por uma das velas que Holt tinha comprado-. Tem alguma idia?
-No?
-Voc  o perito no tema.
-E disse que deixasse ao Livingston para mim.
-E eu que no podia faz-lo. Possivelmente comece a fazer indagaes por minha conta.
-Tenta-o, e a algemarei e a encerrarei em um armrio.
-A contrapartida urbana de atar a uma estaca -murmurou-. No teria que tent-lo se me contasse o que sabe. Ou o que pensa.
-De onde veio esse tema?
-Como dispomos de um pouco de tempo -moveu um ombro-, pensei que poderamos falar disso.
-Por que no se senta? -tirou o isqueiro.
-O que faz?
-Estou ascddendo as velas -sentia que os nervos se tensionavam-. O que parece que estou fazendo?
Ela se sentou e juntou as mos.
-Como o vejo to nervoso, tenho que assumir que sim conhece algo.
-No tem que assumir nada salvo que me est irritando -se dirigiu  equipamento de msica.
-Est muito perto? -perguntou quando um saxo encheu a atmosfera.
-No estou em nenhuma parte -como era uma mentira, decidiu moder-la com parte da verdade-. Acredito que anda pela regio porque faz umas semanas entrou aqui e mexeu em minhas coisas.
-O que? -levantou-se de um salto-. Faz algumas semanas e no me contou isso?
-O que iria fazer a respeito? -replicou- Tirar uma lupa e por um chape de caa?
-Tinha direito de saber.
-J sabe. Sente-se, sim? Volto em um minuto.
Quando ele saiu, ficou a caminhar pelo salo. Holt sabia mais que o que revelava, mas ao menos lhe tinha surrupiado algo. Livingston andava perto, o bastante perto para saber que possivelmente Holt conhecesse um pouco de interesse. O fato de que naquele momento Holt estivesse tenso como um arame esticado lhe indicava que lhe preocupava algo mais.
Com um sorriso, notou que as velas eram aromticas. No imaginava que tivesse comprado velas de jasmim de propsito. Pensou que possivelmente ajud-la com as flores comeava a p-lo nervoso.
Quando ele voltou, o sorriso da Suzanna adquiriu uma expresso desconcertada.
-Isso  champanha?
-Sim -estava profundamente aborrecido. Tinha imaginado que ela se mostraria encantada. Mas no deixava de question-lo tudo-. Quer um pouco ou no?
-Claro -o convite seco era to tpico dele, que no se ofendeu. Uma vez encheu as taas, e blindou com gesto distrado contra a do Holt-. Se estiver seguro de que foi Livingston quem entrou aqui, acredito que...
-Uma palavra mais -cortou com calma perigosa-, uma palavra mais sobre o Livingston e jogarei o resto da garrafa sobre a cabea.
Ela bebeu convencida de que teria que ir com cuidado se no queria desperdiar uma garrafa de champanha e terminar com o cabelo pegajoso.
-S tento fazer uma idia completa do quadro.
Ele soltou algo prximo a um rugido de frustrao e deu a volta. O champanha se agitou em sua taa enquanto ele ia de um lado a outro.
-Ela quer uma idia completa do quadro, e  cega como um morcego, tirei dois meses de p desta casa., comprei velas e flores, tive que escutar  um idiota me ensinar coisas sobre o champanha. Esse  o quadro, maldita seja.
Suzanna tinha querido lhe tirar informao, no enfurec-lo.
-Holt...
-Sente-se e se cale. Teria que ter imaginado que isso no daria certo. Deus sabe por que tentei  fazer dessa forma.
Uma luz se acendeu em seu interior e sorriu. Tinha estado muito centrada em seu prprio plano, sem notar que ele tinha preparado o cenrio.
-Holt,  muito doce por haver tomado tantas providencias. Lamento ter dado a impresso de no apreci-lo. Se queria que viesse esta noite para que fizssemos amor...
-No quero fazer o amor com voc -amaldioou com ferocidade-. Claro que quero fazer o amor com voc, mas no  isso. Estou tentando pedi-la em casamento, ento quer fazer o favor de sentar e ficar quieta?
Como as pernas dela se derretessem, deslizou para a cadeira.
-Isto  perfeito -ele bebeu o resto do champanha e novamente comeou caminhar-. Simplesmente perfeito. Tento lhe dizer que estou louco por voc, que no acredito que possa viver sem voc, e a nica que sabe fazer voc  me interrogar sobre minhas aes e um obsessivo ladro de jias.
-Sinto-com cautela, levou-se a taa aos lbios.
-E deveria sentir -conveio com amargura-. Estava preparado para ficar como um tolo por voc, e nem sequer me permite isso. Estive apaixonado por voc quase a metade de minha vida. Inclusive quando parti, no fui capaz de tir-la de minha mente. Voc estragou o resto das mulheres para mim. Quando comeava a me aproximar de algum... voc aparecia e comeava a comparar, e isso por que nunca consegui passar alm de sua porta de servio.
Apaixonado. Essa palavra dava voltas na cabea da Suzanna. Apaixonado.
-Pensei que nem sequer gostasse de mim.
-No podia lhe suportar -passou a mo livre pelo cabelo-. Cada vez que a olhava, desejava-a tanto que no podia respirar. Minha boca ressecava e sentia um n no estmago, e voc simplesmente sorria e seguia andando. Queria estrangula-la. Choca-se comigo, atira-me da moto e eu estou acostumado a sangrar e fico .. humilhado. Voc est inclinada sobre mim, cheira ao paraso e me percorre o corpo com as mos para ver se tenho algo quebrado. Um minuto mais e a teria atirado sobre o asfalto comigo -passou a mo pelo rosto-. Deus, s tinha dezesseis anos.
-E me encheu de desaforos.
A expresso dele era um quadro de ira e desgosto.
- obvio que a enchi de desaforos. Melhor isso que o que queria fazer -comeava a acalmar-se, pouco a pouco-. Me convenci mesmo de que unicamente se tratava de uma fantasia de adolescente. At que entrou em meu ptio. Olhei-a e  minha boca voltou a ressecar-se  e outra vez senti um n no estmago. J tnhamos deixado de ser adolescentes -deixou a taa ao mesmo tempo que notava que ela agarrava a suas com as duas mos. Seus enormes olhos estavam cravados nele-. Suzanna, isto no me d bem. Pensei que poderia conseguir. J sabe, preparar a atmosfera. E depois de que tivesse bebido suficiente champanha, convenceria-a de que poderia faze-la feliz.
-No necessito champanha e luz de velas, Holt -quis relaxar as mos mas no pde.
-Querida, nasceu para isso -sorriu um pouco-. Poderia metir e dizer que lhe darei isso todas as noites mas iria mentir.
Suzanna baixou a vista  taa e se perguntou se estava preparada para correr outra vez esse tipo de risco. Uma coisa era am-lo, e que ele a amasse resultava incrvel. Mas o matrimnio...
-Por que no me conta a verdade, ento?
aproximou-se para sentar-se no brao do sof e olh-la.
-Amo-te. No senti por ningum o que sinto por voc. Acontea o que acontecer, nunca voltarei a sentir isto por ningum. No h forma de eliminar o que passou a ambos nos ltimos anos, mas possivelmente possamos melhorar as coisas para ns. Para os meninos.
-Pode ser que no seja fcil. Bax sempre ser seu pai legal.
-Mas no ser ele quem os amar -quando os olhos da Suzanna se umedeceram, Holt moveu a cabea-. No vou us-los para chegar at voc. Sei que poderia, mas primeiro tem que ser entre voc e eu. Eu me afeioei a eles e se quiser... penso que me poderia me dar muito bem como pai deles, mas no desejo que se case comigo por eles.
-Nunca quis voltar a amar -suspirou-. E sob nenhum conceito queria voltar a me casar. At que apareceu voc -deixou a taa a um lado e tomou a mo-. No posso afirmar have-lo amado tanto tempo, mas voc no poderia me amar como eu amo voc.
Ele no se conformou com sua mo e a abraou. Quando ao fim conseguiu separar a boca de seus lbios, enterrou a cara em seu cabelo.
-No me diga que precisa pensar , Suzanna.
-No preciso pensar -no recordava a ltima vez que seu corao e sua mente tivessem estado to serenos-. Me casarei contigo -antes de que as palavras tivessem terminado de sair de sua boca, caiu com o Holt no sof. Ria enquanto se tiravam a roupa, e seguia rindo quando os movimentos febris os fizeram cair ao cho-. Sabia -lhe mordiscou o ombro-. Me trouxeste para fazer amor.
- minha culpa se for incapaz de manter suas mos longe de mim? -beijou-lhe o pescoo.
Ela sorriu e inclinou a cabea para lhe dar fcil acesso.
-Holt, de verdade pensou em me atirar ao cho quando caiu da moto?
-Quando me atropelou -corrigiu-. Sim. Deixa que te mostre o que tinha em mente.
Mais tarde se achavam no cho como bonecos de trapo, um matagal de extremidades. Quando pde, Suzanna levantou a cabea do peito do Holt.
-Foi melhor que no tenha feito isso h doze anos.
Com preguia. ele abriu os olhos. Lhe sorria e a luz das velas brilhava em seus olhos.
-Muito melhor. Minhas costas se esfolariam.
-Sempre me assustou um pouco -se moveu para olhar para o rosto do Holt-. Parecia to sombrio e perigoso. As garotas estavam acostumadas a falar de voc...
-Sim? O que diziam?
-Voute dizer isso quando tiver sessenta anos -a beliscou, mas ela somente riu e apoiou a face na sua-. Quando tiver sessenta anos, seremos um casal velho com netos.
-E voc continuar sem poder ficar com as mos longe de mim.
-E o lembrarei da  noite em que me pediu que me casasse com voc, quando me deu de presente flores e luz de velas, para logo se enfurecer e gritar comigo, conseguindo que o amasse ainda mais.

-Suzanna -a aproximou mais, comeou a ajust-la sob seu corpo e ento soltou um praga-.  por sua culpa -disse ao afast-la.
-O que?
-Imaginei que fosse ficar sentada, aturdida por minha destreza romntica -lutou para desembaraar os jeans e tirar o estojo do bolso-. Depois eu iria ficar de joelhos.
Com os olhos muito abertos, contemplou o estojo e em seguida o encarou.  
-No...!
-Sim. Ia me sentir como um idiota, mas ia faze-lo. S voc  a culpada pelo fato de estarmos tombados no cho, nus.
-Me trouxe um anel -sussurrou.
Impaciente com ela, Holt levantou a tampa.
-No queria lhe dar de presente diamantes -encolheu os ombros ao receber silncio. Suzanna continuava com a vista cravada no estojo-. Imaginei que j os tinha. Pensei em esmeraldas, mas as ter. E isto se parece mais com seus olhos.
Com viso imprecisa viu que havia diamantes, pequeninos e preciosos em forma de corao ao redor de uma safira intensa e brilhante. No eram frios como os diamantes que tinha vendido, e sim davam calor ao intenso fogo azul que circundavam.
Holt observou a primeira lgrima cair com bastante desconforto.
-Se voc no gostar, podemos troc-lo. Pode escolher o que goste.
- perfeito -afastou uma lgrima com o dorso da mo-. Sinto muito. Odeio chorar. Acontece que  to lindo me dar de presente isto por que me ama. E quando colocar isso em mim... -olhou-o com olhos alagados-... serei sua.
Ficou de frente com Suzanna. Essas eram as palavras que tinha querido ouvir. As que precisava. Tirou o anel do estojo e o ps.
- minha -lhe beijou os dedos, logo os lbios-. Sou teu -voltou a aproxim-la e recordou as palavras de seu av-. Eternamente.





Captulo 12

Pela manh Suzanna levou os meninos  loja. No podia contar a notcia ao resto da famlia antes de verificar os sentimentos de Alex e Jenny. Era um dia brilhante e ensolarado. Ao chegar, dirigiu-se  estufa para verificar algumas flores.
Deixou-os discutir um momento sobre que flores seriam as maiores ou as melhores.
-Gostam de Holt? -perguntou de forma casual, com os nervos tensos.
- legal -Alex se sentiu tentado a desviar o pulverizador sobre sua irm, mas a ltima vez que o fez se colocou em problemas.
-s vezes brinca conosco -interveio Jenny, que esperava impaciente seu turno- Eu gosto quando me atira para cima.
-Tambm gosto-Suzanna se relaxou um pouco.
-Ele a atira para o alto? -quis saber Jenny.
-No -riu e lhe revolveu o cabelo.
-Poderia. Tem msculos grandes -a contra gosto, entregou o pulverizador a sua irm-. Deixou tocar - Fez  uma careta e tensionou os seus.
Para agrad-lo, Suzanna tocou os diminutos bceps.
-Ora. Esto duros.
- o que ele disse.
-Perguntava-me... -secou umas mos nervosas sobre os jeans-. O que vocs achariam de t-lo conosco o tempo todo?
-Seria estupendo -decidiu Jenny-. Brinca conosco inclusive quando no  pedimos.
-Alex? -dirigiu-se a seu filho.
-Vai se casar, como C.C. e Amanda? -com o cenho franzido, o pequeno moveu os ps.
"Acabou a sutileza", pensou ela ao agachar-se.
-Estava pensando nisso. O que acham?
-Terei que voltar a pr aquele horrvel smoking?
-Provavelmente -sorriu e lhe acariciou a bochecha.
-Vai ser nosso tio, como Treny, Sloan e Max? -perguntou Jenny.
Suzanna se levantou para desligar o pulverizador antes de responder a sua filha.
-No. Seria seu padrasto.
Os irmos trocaram um olhar.
-E ele continuara gostande de ns?
-Claro que sim, Jenny.
-Teremos que ir morar em outra lugar?
-No -suspirou e passou os dedos pelo cabelo de Alex-. Ou ele viveria conosco em Las Torres, ou iramos viver em sua cabana. Seramos uma famlia.
Alex  meditou.
-Tambm seria padrasto do Kevin?
-No -teve que beij-lo, a me de Kevin  Megan, e possivelmente algum dia ela se apaixone e se case. Ento Kevin ter um pai.
-Apaixonou-se pelo Holt? -inquiriu Jenny.
-Sim -sentiu que Alex se movia incmodo e sorriu-. Eu gostaria de me casar com ele para que todos pudssemos viver juntos. Mas tanto Holt como eu queramos saber o que vocs pensavam.
-Eu gosto dele -anunciou Jenny-. Me deixa montar sobre seus ombros.
Alex encolheu os ombros, um pouco mais precavido.
-Acho que est tudo bem.
Preocupada, Suzanna levantou.
-Podemos falar disso um pouco mais. Vamos arrumar a loja.
Saram da estufa enquanto Holt se metia no estacionamento de cascalho. Sabia que havia dito a Suzanna que esperaria at o meio-dia, mas no tinha sido capaz. Despertou sentindo que preferiria entrar em outro beco antes que enfrentar-se a aqueles dois meninos que com tanta facilidade podiam recha-lo. Colocou as mos nos bolsos e tratou de aparentar indiferena.
-Ol.
-Ol -Suzanna quis abra-lo, mas seus filhos retinham suas mos.
-Pensei em dar uma volta por aqui e ... como vai tudo?
Jenny lhe ofereceu um sorriso tmido e se agarrou mais a sua me.
-Mame diz que vo se casar, que ser nosso padrasto e viver conosco.
Holt teve que conter a vontade de mover os ps.
-Esse  o plano.
Alex apertou os dedos de Suzanna enquanto olhava para Holt.
-Vai gritar com a gente?
Depois de olhar um instante para Suzanna, Holt se agachou at ficar  altura do pequeno.
-Talvez. Se precisarem.
Alex confiou na veracidade da resposta mais do que teria feito uma negativa absoluta.
-Bater? -recordou os socos que tinha recebido durante as frias. Tinham-no insultado mais que dodo, mas ainda o incomodavam.
Holt ps a mo sob o queixo do pequeno e a manteve com firmeza.
-No -respondeu, e a expresso dos olhos fez que Alex acreditasse-. Mas  possvel que lhes pendure pelos polegares ou que lhes meta em azeite fervendo. Se me enfurecer de verdade, porei-lhes sobre um formigueiro.
Alex teve vontade de sorrir, mas ainda no tinha terminado com o interrogatrio.
-Vai fazer mame chorar  como ele?
-Alex -comeou Suzanna, mas Holt a interrompeu.
-Talvez em alguma ocasio, se for um estpido. Mas no de propsito. A amo muito, assim quero faz-la feliz. s vezes talvez o magoe.
Alex franziu o cenho e pensou.
-Tambem vo se beijar a toda hora? Desde que Trent, Sloan e Max chegaram, sempre se vem beijos.
-Sim -Holt relaxou e sorriu-. vou beijar sim.
-Mas voc no gostar de faze-lo, n?-aventurou Alex com esperana-. O far somente porque a mame gosta.
-Sinto muito, mas eu gosto tambm.
-Cus -murmurou o pequeno, derrotado.
-Ento beijem agora -Jenny danou e riu entre dentes-. Beijem agora para que possa ver.
Desejoso de agrad-la, ergueu-se e se aproximou de Suzanna. Quando separou os lbios dos dela, Alex estava ruborizado e Jenny aplaudia.
-Odeio lhe dizer isso - comentou Holt  srio-, mas um dia voc tambm vai gostar.
-Mmm. Antes prefiro comer terra.
Rindo, Holt o levantou nos braos e se sentiu aliviado e encantado quando Alex lhe passou um brao ao redor do pescoo.
-Diga-me isso em dez anos.
-Eu gosto-insistiu Jenny, agarrando sua cala-. Eu gosto agora. Me beije -ele a elevou com seu outro brao e beijou seus lbios diminutos . Ela sorriu com expresso jubilosa em seus enormes olhos azuis-. Voc beijou mame de maneira diferente.
-Isso se deve ao fato dela ser a mame e voc a pequena.
Jenny gostava do modo que ele cheirava , como a sustentava em seu brao. Quando lhe acariciou a face, sentiu-se um pouco decepcionada de que esse dia estivesse suave.
-Posso cham-lo papai? -perguntou, fazendo que o corao de Holt quase saltasse do peito.
-Eu... h... claro. Se voc quiser.
-Papai  para bebs -comentou Alex aborrecido-. Mas pode ser pai.
-De acordo -olhou para Suzanna-. De acordo.
Holt desejou ter podido passar o dia com eles, mas havia coisas que fazer. Nesse momento tinha uma famlia, algo que ainda o assustava, e pretendia proteg-la. J tinha chamado a seus contatos de Portland e aguardava a verificao dos quatro nomes da lista do Trent. Enquanto esperava, chamou o Departamento de Trfico, e o  escritrio de crdito e da Fazenda, fazendo um pouco de presso ao dar seu antigo nmero de registro .
Entre informao e instinto, reduziu a dois os quatro nomes. Enquanto esperava que lhe devolvessem uma chamada, leu outra vez o diario de seu av.
Entendia os sentimentos que havia sob as palavras, a saudade, a devoo. Entendia a ira que havia sentido seu av ao inteirar-se de que a mulher a que amava tinha sofrido abuso nas mos do homem com o que se casou. Perguntou-se se era coincidncia ou destino que sua relao com a Suzanna tivesse tantas similitudes com a de seus antepassados. Ao menos nessa ocasio a histria teria um final feliz.
"Os diamantes de Suzanna", pensou, batendo os dedos sobre as folhas. "As esmeraldas de Bianca". Suzanna tinha escondido suas jias, o nico objeto material que acreditava que lhe correspondia pelo matrimnio, como segurana para seus filhos. Tinha que acreditar que Bianca fazia o mesmo.
"Ento, onde Bianca as escondeu?", perguntou-se.
Quando soou o telefone, respondeu ao primeiro toque. Antes de desligar, j no albergou dvidas de que tinha descoberto a seu homem. Entrou no dormitrio e verificou sua arma. A ajustou  pantorrilha.
Quinze minutos mais tarde, caminhava por entre o caos da ala oeste. Encontrou Sloan no que era uma sute de dois nveis quase acabada. Com um cinturo para ferramentas e jeans, fiscalizava a construo de uma nova escada.
-No sabia que os arquitetos brandiam martelos -comentou Holt.
-Tenho um interesse pessoal -Sloan sorriu.
-Quem  Marshall? -perguntou, olhando ao grupo de operrios.
Alertado, Sloan se desabotoou o cinturo.
-Est no andar superior.
-Eu gostaria de manter um bate-papo com ele.
-Acompanharei-o -esperou at que ficaram fora do alcance auditivo dos homens-. Acredita que  ele?
-Robert Marshall no solicitou um carteira de conduzir de Maine at seis meses atrs. Jamais pagou impostos com o nome e o nmero da segurana social que est usando. No est acostumado a verificar o Departamento de Trfico ou da Fazenda quando se contrata a algum.
Sloan amaldioou e flexionou os dedos. Ainda podia ver  Amanda correr pela terrao perseguida por um homem armado.
-Serei o primeiro.
-Compreendo o sentimento, mas ter que cont-lo.
Sloan fez um sinal para o capataz.
-Marshall? -perguntou com brevidade.
-Bob? -o capataz tirou um leno para secar o pescoo-. Acaba de sair. Disse para levar  Rick  ao pronto socorro. Ele cortou o polegar e precisava de pontos.
-H quanto que se foi?
-Uns vinte minutos, suponho. Disse-lhes que tomassem o resto do dia livre, j que pararemos s quatro- voltou a guardar o leno-. Algum problema?
-No -Sloan conteve seu mau humor-. Me faa saber como se encontra Rick.
-Claro -gritou a um dos carpinteiros e partiu.
-Preciso um carro-disse Holt.
-Trent se encarrega dos papis -partiram dali-. Vai entrega-lo  ao tenente Koogar?
-No -reps simplesmente.
-Bem.
Deram com o Trent no escritrio que tinha montado na planta baixa, tinha umas pastas perto e falava por telefone. Observou-os aos dois.
-Voltarei a chamar -disse ao telefone antes de desligar-. Quem ?
-Usa o nome do Robert Marshall -Holt tirou um cigarro-. O capataz o deixou sair mais cedo. Quero um carro.
Sem dizer nada, Trent se dirigiu a um arquivo para tirar uma pasta.
-Max est l em cima. Ele tambm participa disto.
-Ento v busc-lo -Holt repassou a pasta do Marshall-. O faremos juntos.
O apartamento que Marshall tinha alugado era no suburbio. Uma mulher encurvada abriu a porta ao terceiro golpe ensurdecedor do Holt.
-O que? O que? -demandou-. No quero nenhuma enciclopdia nem aspirador.
-Procuramos o Robert Marshall -explicou Holt.
-Quem? Quem? -esquadrinhou-o atravs dos cristais grossos de seus culos.
-Robert Marshall -repetiu.
-No conheo nenhum Marshall -grunhiu-. H um McNeilly na porta do lado e um Mitchell abaixo, mas nenhum Marshall. Tampouco me interessa comprar nenhum seguro.
-No vendemos nada -indicou Trent com sua voz mais paciente-. Procuramos um homem chamado Robert Marshall que vive nesta direo.
-J lhes disse que no h nenhum Marshall. Eu moro aqui h quinze anos, desde que esse homem intil com o que me casei faleceu e me deixou sozinha com dvidas. O conheo -disse de repente, apontando para Sloan com um dedo magro-. Vi sua foto no jornal -desviou a mo para uma mesa que havia junto  porta e agarrou um suporte de livros de ferro-. Roubou um banco.
-No, senhora. Casei-me com a Amanda Calhoun.
A mulher sustentou o suporte de livros enquanto refletia.
-Uma das garotas Calhoun.  mesmo. A mais jovem... no, essa no, a seguinte -satisfeita, deixou o suporte de livros na mesa-. Bom, o que querem?
-Ao Robert Marshall -repetiu Holt-. Deu este edifcio e este apartamento como seu endereo.
-Ento  um mentiroso ou um idiota, pois vivo aqui desde que o intil de meu marido pegou pneumonia e morreu. Hoje aqui, e amanh no -estalou os dedos-. Pouco perdi.
Pensando que era um beco sem sada, Holt olhou ao Sloan.
-Lhe d uma descrio.
-Tem uns trinta anos, um metro oitenta de altura, magro, cabelo negro at os ombros, bigode cheio.
-No o conheo.
-Deixe comigo -interveio Max e descreveu ao homem ao que tinha conhecido como Ellis Caufield.
-Parece meu sobrinho. Vive no Rochester com sua segunda mulher. Vende carros usados.
-Obrigado - Holt no surpreendeu que o ladro tivesse dado um endereo falso,  mas estava irritado. Ao sair do edifcio, tirou uma moeda de 25 centavos.
-Suponho que teremos que sperar at manh -dizia Max-. No sabe que o buscamos, assim aparecer pelo trabalho.
-J estou farto de esperar -se dirigiu a uma cabine Telefnica. Depois de colocar a moeda, discou um nmero-. Sou o detetive Bradford, do departamento de polcia do Portland, distintivo nmero 7375. Necessito de uma verificao -deu o telefone que aparecia na pasta do Marshall. Logo esperou com a pacincia de um policial enquanto a operadora punha em marcha seu computador-. Obrigado -desligou e se voltou por volta dos trs homens-. Bar Island -informou-. Iremos em meu barco.
Enquanto seus homens se preparavam para cruzar a bahia, as mulheres Calhoun se reuniam na torre de Bianca.
-E bem -comeou Amanda, com bloco de papel de notas e lpis-. O que  o que sabemos?
-Trent esteve verificando as pastas pessoais -contribuiu com C.C.-. Afirmou que havia algum problema com a reteno de impostos, mas  mentira.
-Interessante -murmurou Lilah-. Esta manh Max me impediu de ir  ala oeste. Minha inteno era ver como estavam as coisas, ele me deu todo tipo de desculpas brandas como o fato de no querer distrair os homens enquanto trabalhavam.
-E Sloan guardou algumas pastas em uma gaveta, e no me deixou ver -Amanda bateu o bloco de papel com o lpis-. Se esto verificando aos operrios, o que ser que esto nos escondendo?
-Acredito que tenho uma idia -comentou Suzanna. Pensei nisso o dia todo-. Ontem  noite me inteirei de que tinham entrado na cabana do Holt para espionar-as trs a metralharam de perguntas-. Esperem -elevou uma mo-. Holt estava irritado comigo, razo pela que saiu o tema. O qual o irritou ainda mais. Mas me contou, porque queria me assustar para que me inteirasse, que tinha sido Livingston.
-O que significa -concluiu Amanda- que nosso velho amigo sabe que Holt est relacionado com o assunto. Quem mais sabe alm de ns? -a sua maneira organizada, comeou a apontar nomes.
-Oh, esquece isso -indicou Lilah com um movimento displicente da mo-. Ningum sabe salvo a famlia. Nenhum de ns mencionou a ningum mais.
-Possivelmente o averiguou da mesma maneira que Max  fez-sugeriu C.C.-. Pela biblioteca.
- possvel -Amanda o apontou-. Mas tem os papis h semanas. Quando entrou na cabana do Holt?
-Faz um algumas semanas, mas no acredito que tenha realizado a conexo dessa maneira. Acredito que a obteve de ns.
Produziu-se uma discusso instantnea. Suzanna ficou de p e ergueu ambas as mos para cort-la.
-Escutem, j acordamos que ningum falou que sobre isso fora da casa. E conviemos que os homens tentam evitar que nos inteiremos de que esto investigando os operrios. O que significa...
-O que significa -interrompeu Amanda e fechou os olhos-, que o canalha trabalha para ns.  como uma mosca na parede, que pode conseguir pequenas peas de informao, dar uma olhada pela casa. Estamos to acostumados a ver operrios, que no lhe daramos uma segunda olhada.
-Acredito que Holt j chegou a essa concluso -Suzanna voltou a levantar as mos-. A questo , o que fazemos a respeito?
-Amanh vamos verificar os operarios e visitar a obra -Lilah se ergueu no mirante-. no sei que aspecto ter adotado desta vez, mas o conhecerei se me aproximar o suficiente -resolvido esse tema, voltou a recostar-se-. E agora, Suzanna, por que no nos contas quando o menino mau Bradford a pediu em casamento?
-Como sabia? -Suzanna sorriu.
-Mesmo sendo um ex-polcial, tem bom gosto nas jias -tomou a mo de sua irm para exibi-la ante as outras mulheres.
-Ontem  noite -respondeu enquanto a abraavam e beijavam-. Esta manh  dissemos aos meninos.
-A tia Cody vai subir pelas paredes -C-C. apertou o ombro da Suzanna-. As quatro casadas em questo de meses. Estar no cu das celestinas.
-A nica coisa que precisamos agora  colocar  esse doente detrs das grades e encontrar as esmeraldas -Amanda secou uma lgrima-. Oh, no! Do  conta do que significa isto?
-Que ter que organizar outro casamento-respondeu Suzanna.
-No s isso. Significa que vamos ter que ficar com a tia Colleen at que acabem os casamentos.
Holt retornou s Torres de mau humor. Tinham dado com a casa vazia. No tiveram dvidas de que Livingston vivia ali. Tinha entrado com sigilo para inspecionar o lugar com meticulosidade. Tinham encontrado os papis Calhoun roubados, as listas que tinha feito o ladro e uma cpia dos plantas originais de Las Torres.
Tambm tinham localizado uma cpia datilografada da agenda semanal de cada uma das mulheres, junto com comentrios manuscritos que no deixavam dvidas sobre o fato de que Livingston tinha seguido e observado  cada uma delas. Havia um inventario dos cmodos que tinha inspecionado e dos artigos que considerava valiosos o bastante para roubar.
Tinham esperado uma hora por sua volta, logo, incmodos por ter deixado s mulheres sozinhas, transmitiram a informao a Koogar. Enquanto a polcia submetia a vigilncia a casa alugada de Bar Island, Holt e seus companheiros retornaram s Torres.
Agora s tinham que esperar. Era algo que tinha aprendido a fazer bem durante seus anos no departamento de polcia. Mas nesse momento no se tratava de um trabalho, e cada momento o crispava mais.
-Oh, meu querido rapaz -Cody voou para ele ao entrar na casa.
A sustentou pelos robustos quadris enquanto ela o enchia de beijos.
-Ah... -foi a nica coisa que pde dizer enquanto a mulher chorava sobre seu ombro. Notou que seu cabelo j no era negro, mas sim de um vermelho fogo-. O que fez ao seu cabelo?
-OH, era hora de mudar -recurou a fim de limpar o nariz com o leno que levava na mo, para logo voltar a cair em seus braos.
Impotente, Holt lhe acariciou as costas e olhou para os homens sorridentes que o rodeavam em busca de ajuda.
-Ficou bonito seu cabelo -assegurou, perguntando-se se chorava por isso-. De verdade.
-Voc gosta? -voltou a afastar-se e o olhou-. Pensei que precisava de  um toque divertido, e o vermelho  to charmoso -enterrou a cara no leno empapado-. Sou to feliz -soluou-. To feliz. Verdade, j tinha esperado por isso. E as folhas de ch indicavam que funcionaria, embora no pudesse evitar a preocupao. Ela sofreu tanto, e tambm seus doces e pequenos filhos. Agora tudo vai sair bem. Pensei que poderia ser Trent, mas C.C. e ele formavam um casal to perfeito. Logo Sloan e Amanda. Depois, quase antes de que pudesse piscar, nosso queridos Max e Lilah.  estranho que me sinta afligida?
-Suponho que no.
-E pensar que faz tantos anos voc trazia lagostas  entrada de servio. E naquela ocasio em que trocou para mim uma roda de meu carro e foi muito orgulhoso para deixar que lhe desse uma comepnsao. E agora, agora, vai se casar com minha pequena.
-Felicidades -Trent sorriu e bateu nas costas do Holt enquanto Max tirava um leno seco para Cody.
-Bem-vindo  famlia -Sloan ofereceu uma mo-. Imagino que sabe no que te est entrando.
-Comeo a compreend-lo -reps Holt enquanto estudava  chorosa Cody.
-Deixem de dar tantos miados -Colleen desceu pela escada-. Podia ouvir suas choramingaes at em meu quarto. Pelo amor do cu, leve esse arbusto de cabelo vermelho  cozinha -indicou com a bengala-.Dem ch at que recupere a prudncia. Fora, todos vocs -acrescentou-. Quero falar com este moo.
"So como ratos abandonando um navio que se afunda", pensou Holt enquanto o deixavam sozinho. Colleen lhe indicou que o seguisse e se dirigiu ao salo.
-Ento acha que vai se casar com minha sobrinha neta.
-No. Vou casar me com ela.
-Vou lhe dizer uma coisa, se no se comportar melhor que esse lixo com a que se casou a primeira vez, responder ante mim -se sentou, contente com a reao do jovem-. Quais so seus planos?
-Meus o que?
-Planos -repetiu com impacincia-. Nem sonhe que vai herdar meu dinheiro quando se casar com ela.
Ele entrecerrou os olhos, o que a satisfez ainda mais.
-Pode pegar seu dinheiro e ...
-Muito bem -assentiu com aprovao-. Como pensa mant-la?
-Ela no precisa  que a mantenham. E no necessita que voc nem ningum mais se meta em suas assuntos. Tem se sado muito bem por sua conta, melhor que bem. Saiu do inferno e conseguiu recompor sua vida, cuidar de seus filhos e iniciar um negcio. A nica que vai mudar  que vai deixar de matar-se de trabalhar, e os meninos tero algum que quer ser seu pai. Pode ser que eu no seja capaz de lhe dar diamantes nem lev-la a festas sofisticadas, mas a farei feliz.
Colleen bateu os dedos sobre o punho da bengala.
-Far-o. Se seu av se parecia um pouco com voc, compreendo porque minha me o amava. Ento... -foi levantar se, mas nesse momento viu o retrato sobre o suporte. Onde tinha estado a cara severa de seu pai se via a beleza de sua me-. O que faz isso a?

Holt colocou as mos nos bolsos.
-Pareceu-me que esse era seu lugar natural.  onde  meu av teria querido que estivesse.
-Obrigado -deixou-se cair outra vez na poltrona. Tinha a voz abafada, mas seu olhar permanecia intenso-. E agora saia. Quero ficar sozinha.
Deixou-a, surpreso de ver que comeava a afeioar-se a ela. Embora no desejasse participar de outra cena, foi  cozinha  perguntar a Cody onde podia encontrar Suzanna.
Mas ele mesmo a encontrou seguindo a msica que chegava at o saguo. Estava sentada ao piano e tocava uma melodia cativante que Holt no reconheceu. Embora a msica fosse triste, Suzanna sorria. Quando ela ergueu  o olhar, seus dedos ficaram quietos, mas no perdeu o sorriso.
-No sabia que tocava o piano.
-Todas recebemos aulas. Eu fui a nica que continuou estudando-tomou a mo de Holt-. Esperava que tivssemos um momento a ss, para que pudesse lhe dizer como foi maravilhoso esta manh com os meninos.
Sem lhe soltar os dedos, estudou o anel que tinha lhe dado.
-Estava nervoso -riu um pouco-. No sabia como iam reagir. Quando Jenny me perguntou se podia me chamar papai...  maravilhosa a rapidez que se pode apaixonar. Acredito que agora compreendo o que sentiria um pai e o que faria para garantir que seus filhos estivessem a salvo. Eu gostaria de ter mais. Sei que precisar pensar, e no quero que pense que Jenny e Alex vo importar menos para mim.
-No tenho que pensar -  beijou sua face -. Sempre quis ter uma famlia grande.
Abraou-a e Suzanna apoiou a cabea em seu ombro.
-Suzanna, sabe onde era o quarto dos meninos quando Bianca vivia aqui?
-No segundo andar desta ala. Agora usamos como armazm -se ergueu-. Acredita que escondeu o colar ali?
-Acredito que o escondeu em algum lugar onde Fergus no olharia. E no imagino passando muito tempo no quarto dos meninos.
-No, mas o lgico  que algum o tivesse encontrado. No sei por que digo isso -corrigiu-. O lugar est cheia de caixas e mveis velhos.
Era pior do que ele tinha imaginado. Era um desastre, inclusive passando por cima das teias de aranha e o p. Caixas, tapetes enrolados, mesas rotas, abajures sem telas, isso e mais cobria cada centmetro de espao. Mudo, voltou-se para a Suzanna, que lhe sorriu com acanhamento.
-Acumulam-se muitas coisas em oitenta  anos -o informou-. Quase tudo que era  valioso j vou tirado, e muito se vendeu quando estvamos... bom, quando as coisas eram difceis. Esta janela permaneceu fechada muito tempo, j que no podamos nos permitir o luxo de ter calefao aqui.
-Ser melhor que comecemos.
Trabalharam durante duas fatigantes e poeirentas horas. Encontraram um guarda-sol quebrado, uma assombrosa coleo de objetos erticos do sculo dezenove, um ba cheio de roupa mofada dos anos vinte e uma caixa cheia de brinquedos, uma locomotiva em miniatura e uma boneca de trapo triste e descolorida. Entre essas coisas havia uns bonitos contos de fadas que Suzanna separou.
-No acredito que Fergus tinha a casa muito organizada depois da morte da Bianca. Algumas destas coisas pertenciam a seus filhos, a baba deve ter arrumado tudo. Ele no se importava.
-Sim -lhe tirou uma teia de aranha do cabelo-. Por que no descansa um pouco?
-Estou bem.
Era intil lhe recordar que estava trabalhando durante todo o dia, de modo que empregou outra ttica.
-Eu gostaria de beber algo. Acredita que Cody ter algo frio na geladeira... e possivelmente um sanduiche para acompanh-lo?
-Claro. irei ver.
Sabia que sua tia insistiria em preparar o lanche, por isso Suzanna disporia desse momento para sentar-se e no fazer nada.
-Que sejam dois -acrescentou, lhe dando um beijo.
-Bem -se levantou e se estirou-.  triste pensar nesses trs meninos, deitados aqui sabendo que sua me nunca mais voltaria a agasalh-los. Falando nisso, ser melhor que v agasalhar os meus antes de voltar aqui.
-Lev o tempo que quiser -j tinha comeado a abrir outra caixa.
Saiu sentindo-se melanclica pelos filhos de Bianca. O pequeno Seam, que logo que engatinharia ento; Ethan, que cresceria para ser pai de seu pai, e Colleen, que nesse momento se achava abaixo sem dvida questionando algo que tinha feito Cody. No sabia como alguma vez tinha sido uma pequena doce...
"Uma pequena". pensou, detendo-se no patamar do primeiro andar. A filha maior teria tido cinco ou seis anos quando sua me morreu. Trocou de direo e bateu na porta de sua tia av.
-Entre, maldio. No penso em me levantar.
-Tia Colleen -entrou, divertida ao ver que a anci se achava enrodilhada lendo uma novela romntica-. Lamento te incomodar.
-Por que? Ningum mais o lamenta.
Suzanna se mordeu a lngua.
-Queria saber se o vero... aquele ltimo vero, ficava no quarto dos meninos com seus irmos?
-No era um beb; podia ter meu proprio quarto.
-Era perto do quarto de seus irmos? -insistiu, tentando conter o entusiasmo.
-Na outra extremidade desta ala. Estava o quarto dos meninos, a da bab, o quarto de banho dos meninos, e os trs dormitrios que se reservavam para filhos de convidados. Meu quarto era no alto da escada -observou o livro carrancuda-. O vero seguinte passei para um dos quartos de convidados. No queria dormir no quarto que minha me tinha decorado para mim, sabendo que jamais voltaria a entrar para ver-me.
-Sinto muito. Quando Bianca te contou que iam, o fez em seu quarto?
-Sim. Deixou que escolhesse algum de meus vestidos favoritos, logo foi ela quem os guardou na mala.
-Suponho que depois... voltariam a tir-los.
-Nunca mais usei aqueles vestidos. No quis faz-lo. Coloquei-os no ba sob minha cama.
-Compreendo -havia esperana-. Obrigado.
-Estaro devorados pelas traas -grunho Colleen quando Suzanna partia. Pensou em seu vestido favorito de musselina branca com bandagem de cetim azul e com um suspiro saiu a caminhar pelo terrao.
Suzanna subiu as escadas  carreira. Os sanduichees teriam que esperar. Empurrou a porta do velho dormitrio de Colleen. Tambm tinha sido escolhido para armazenar coisas, por ser menor que o quarto dos meninos, achava-se menos cheio.
No se incomodou com as caixas. Procurava um ba de viagem, adequado para uma menina pequena. "Que melhor lugar que esse?", pensou enquanto afastava uma caixa com a etiqueta de "Cortinas de Inverno". Fergus no tinha se importado com sua filha, em particular quando o dito ba tinha sido guardado por uma menina traumatizada.
Sabia que podia estar em qualquer parte. Mas o melhor lugar para comear para busc-lo era sua fonte original.
O corao palpitou com fora quando deu com um ba velho com correias de couro. Abriu-o e encontrou cilindros de tecido envoltos em papel fino. Mas nenhum vestido de menina. Nem esmeraldas.
Como a luz ia minguando, levantou-se e se dirigiu para a porta. antes de continuar chamaria  Holt e procuraria uma lanterna. Na penumbra, bateu a perna com tudo em algo duro.Amaldioando, abaixou o olhar e viu o ba.
No passado tinha sido de um branco resplandecente, mas nesse instante se via apagado pelo p e tempo. Umas caixas empilhadas em cima quase o ocultavam. ajoelhou-se  luz tnue e o limpou. Dobrou os dedos trementes e o abriu.
Invadiu-a o aroma a lavanda, selada no interior possivelmente dcadas. Elevou o primeiro vestido, um objeto de musselina branca com volantes, com uma descolorida bandagem azul  cintura. Depositou-o com cuidado a um lado e tirou outro. Havia meias-calas e cintas, laos bonitos e uma camisola com laos. E ali no fundo, junto a um ursinho de pelcia, um estojo e uma caixa.
Levou-se uma mo trmula aos lbios e devagar a baixou para levantar o livro.
"Seu diario", pensou enquanto as lgrimas lhe nublavam os olhos. O dirio da Bianca. Quase sem respirar, passou a primeira pgina.

Bar Harbor, Maine. 12 de junho de 1912
Vi-o sobre os penhascos que davam ao Frenchman Bay

Soltou o ar e apoiou o livro no colo. No era algo que devesse ler sozinha. Esperaria at que toda a famlia estivesse reunida. Com o corao saltando no peito, introduziu a mo para erguer o estojo. Com olhos midos o abriu e descobriu as esmeraldas de Bianca.
Pulsavam como gotas de guas verdes, cheias de paixo e vida. Levantou o colar, suas trs fileiras gloriosas e sentiu o calor nas mos. Oculto durante oitenta anos, com esperana e desespero, nesse momento era livre. A penumbra da habitao no era rival para suas pedras.
Ao ajoelhar-se com o colar pendurando sobre os dedos, colocou a mo no estojo e tirou os brincos . Virtualmente os tinha esquecido. Eram lindos, perfeitos, mas o colar dominava.
Aturdida, contemplou o poder que havia em suas mos. Compreendeu que no era somente jias. Distavam muito de ser unicamente pedras bonitas. Representavam a paixo, a esperana e os sonhos de Bianca. Do momento que guardou o estojo at nesse instante, quando as tinha encontrado uma de seus descendentes, tinham aguardado at voltar a ver a luz.
-Oh, Bianca.
-Que viso maravilhosa.
Ergueu a cabea com brutalidade para ouvir a voz. Achava-se na soleira, pouco mais que uma sombra. Quando entrou no quarto, viu o brilho da pistola que sustentava na mo.
-A pacincia d seus frutos -disse Livingston-. Vi voc e o policial entrando no quarto do outro lado do corredor. Perdi muitas horas de sonho para investigar estes quartos de noite.
Olhou-o fixamente enquanto se aproximava. No se parecia com o homem que Suzanna recordava. A cor de cabelo no era a mesma, tampouco a forma do rosto. Levantou-se muito devagar, segurando o diario e os brincos em uma mo e o colar na outra.
-No me reconhece. Mas eu te conheo. Conheo todos vocs.  Suzanna, uma das mulheres Calhoun que tanto me devem.
-No sei do que est falando.
-Trs meses de meu tempo, e mais alguns problemas. Depois est a perda do Hawkins, certamente. No era um grande scio, mas era meu. Igual a elas so minhas -baixou a vista s esmeraldas e sentiu-se salivar
 Deslumbraram-no. Eram mais que o que tinha sonhado e imaginado. Eram tudo o que queria. Os dedos que empunhavam a arma tremeram um pouco ao estemder a mo. Suzanna se afastou. O homem arqueou uma sobrancelha-. De verdade acredita que vai poder me negar isso? Seu destino  ser minhas. E quando assim for, tudo o que so e representam ser meu -se aproximou mais e, enquanto ela procurava a melhor maneira de fugir, a agarrou-a pelo cabelo-. Algumas pedras tm poder -lhe explicou com suavidade-. A tragdia entra nelas e as fortalece. A morte e a dor as aviva. Hawkins no compreendeu isso, mas se tratava de um homem simples.
-O colar pertence aos Calhoun -afirmou ela, dando-se conta de que enfrentava a um louco-. Sempre foi assim e sempre o ser.
Ele a sacudiu com fora. Suzanna teria gritado, mas nesse instante ele lhe cravou o canho da arma no pescoo.
-Pertencem-me . Porque fui  bastante inteligente e paciente para aguardar que casse em minhas mos. Assim que li sobre o colar soube. E esta noite em fim  minha.
Suzanna no sabia que teria feito, se lhe entregaria ou tentaria  raciocinar. Mas nesse momento sua pequena apareceu na porta.
-Mami -a voz tremia enquanto esfregava os olhos -. H troves e chove. Quando tem troves voc vem para meu quarto.
Aconteceu depressa. Ele se voltou com a arma. Com todas suas foras, Suzanna o empurrou para lhe bloquear a viso.
-Corre! -gritou para Jenny-. Va procurar  Holt -o empurrou e correu atras de sua filha. Teve que tomar uma deciso ao chegar a porta. Assim que viu que Jenny girava  direita e, isso esperava,  segurana, ela se lanou na direo oposta.
Disse-se que o outro a seguiria a ela, no a sua filha. Porque ainda tinha o colar. A seguinte deciso teve que tom-la ao chegar  escada. Baixar para ir de encontro a sua famlia e submet-la ao mesmo risco em que se encontrava ela ou subir, e estar sozinha.
Achava-se a metade de caminho da ascenso quando o ouviu persegui-la. sobressaltou-se quando uma bala impactou no estuque a centimtros de seu ombro.
Sem ar, continuou subindo, e nesse instante ouviu os troves que tinham assustado  Jenny. Seu nico pensamento era pr tanta distncia como fosse possvel entre esse louco e sua filha. Suas pegadas ressonaram nos degraus metlicos da escada que conduzia  torre da Bianca.
Ao sentir os dedos dele no tornozelo, soltou um grito de terror e fria e deu uma patada para liberar-se, logo concluiu a subida para encontrar que a porta estava fechada. Esteve a ponto de chorar ao lanar o peso de seu corpo contra a grosa madeira. Cedeu com dolorosa lentido, logo lhe permitiu cair em seu interior. Mas antes de poder fech-la, ele conseguiu transpo-la.
Suzanna se preparou para o pior, convencida de que em segundos sentiria a bala. O outro ofegava, suava e tinha os olhos frgeis. Um tic lhe movia a comissura dos lbios.
-De-me isso - a arma tremia ao aproximar-se. O resplendor de um relmpago fez que olhasse com expresso selvagem em torno da habitao em penumbra-. Me de isso agora.
Ela compreendeu que o ladro tinha medo. Desse quarto.
- J esteve aqui antes.
Assim era, e tinha fugido apavorado. Havia algo naquele lugar, algo que odiava. Rastejava como gelo por sua pele.
-Me d o colar e os pendentes ou a matarei.
-Esta era seu quarto -murmurou Suzanna, sem tirar os olhos de cima dele -. O quarto de Bianca. Morreu quando seu marido a atirou por essa janela -incapaz de resistir, ele olhou para o vidro, logo afastou a vista-. Segue vindo aqui, para esperar e contemplar os penhascos -ouviu, tal como tinha sabido que aconteceria, os passos do Holt subindo a toda carreira-. Agora mesmo est aqui. Tome  -estendeu as esmeraldas-. Mas no vai deixar que parta com elas.
O rosto do ladro estava branco como os ossos e o banhava uma camada de suor quando estendeu a mo para as jias. Tomou o colar, mas em vez do calor que tinha sentido Suzanna, s experimentou frio. E terror.
-Agora so minhas -estremeu.
-Suzanna -murmurou Holt da porta-. Afaste-se dele -sustentava sua arma com ambas as mos-. Afaste-se -repetiu-. Devagar.
Ela retrocedeu um passo, logo dois, mas Livingston no prestou ateno. Passava a mo que empunhava a arma pelos lbios ressecados.
-Acabou-disse Holt-. Solte a arma e afaste-a de voc com o p -mas Livingston seguia contemplando o colar com respirao entrecortada-. Solte-o -Holt se aproximou-. Saia daqui, Suzanna.
-No, no penso em deix-lo.
No tinha tempo para amaldioar. Embora estivesse preparado para matar, viu que o homem no se preocupava com a  arma que o apontava nem com a idia de fugir. S observava as esmeraldas e tremia.
Holt estendeu a mo para agarrar a mo do outro que sustentava a arma.
-Acabou-repetiu.
-So meus -selvagem pela ira e o medo, Livingston deu um salto.
Disparou uma vez para o teto antes que Holt o desarmasse. Inclusive ento se debateu, mas a luta foi breve. Ao soar o seguinte trovo, emitiu um uivo no momento em que outros entravam no quarto. Desorientado ou apavorado, aturdido pelo murro que Holt lhe havia dado no queixo ou fora de sua conscincia, virou-se e correu.
Ouviu-se o estrpito do vidro quebrando-se. Logo um som que Suzanna jamais esqueceria. O grito de um homem assustado. Quando Holt saltou atrs dele com a inteno de salv-lo, Livingston atravessou a janela quebrada e caiu sobre as rochas banhadas pela chuva.
-Deus meu -Suzanna pressionou as costas  parede, com as mos sobre a boca para evitar seus prprios gritos. Havia braos a seu redor e vozes misturadas. Sua famlia entrou no quarto. Agachou-se junto a seus filhos e lhes encheu a cara de beijos-. No foi nada -os tranqilizou-. J terminou tudo. No h nada que temer -ergueu os olhos para o Holt. Olhava-a com o espao negro a suas costas, o resplendor das esmeraldas a seus ps-. Tudo est bem. Levarei-os l para baixo.
-Levaremo-los abaixo -Holt embainhou a pistola.
Uma hora mais tarde, quando os meninos dormiam outra vez tranqilos, tirou-a do abrao e a levou ao terrao. Todo o medo e a fria que havia sentido desde que Jenny tinha aparecido correndo e gritando pelo corredor se manifestaram nesse momento.
-Que diabos acreditava que fazia?
-Tinha que mant-lo longe de Jenny -pensou que estava calma, mas as mos comearam a tremer-. De repente tive uma idia sobre as esmeraldas. Foi muito simples. E as encontrei. E ento apareceu ele... e Jenny. Tinha uma arma e, Deus, Deus, pensei que ia matar a minha pequena.
-Certo, certo -murmurou Holt. Ela se agarrou a ele com o rosto banhado pelas lgrimas que no quis conter-. Os meninos esto bem, Suzanna. Ningum vai fazer lhes fazer mal. Nem a voc.
-No sabia o que outra coisa fazer. No tentava ser valente ou estpida.
-Foi ambas as coisas. Amo-a -lhe emoldurou a cara entre as mos e a beijou-. Ele te fez mal?
-No -se secou os olhos-. Me perseguiu at a torre e ento... quebrou-se. J viu como se encontrava quando entrou.
-Sim -ao meio metro dela, com uma pistola na mo. Holt fechou os dedos sobre os ombros da Suzanna-. No volte a me assustar desta maneira.
-Trato feito -esfregou o rosto dele contra o seu-. Acabou mesmo?
Deu-lhe um beijo no rosto.
-Agora ns vamos comear.


Eplogo

Era tarde quando a famlia se reuniu no salo. A polcia ao fim tinha concludo e os tinha deixado tranqilos. Formavam um frente slido e unido sob o retrato de Bianca.
Colleen estava sentada, com um co aos ps e as esmeraldas no colo. No tinha derramado nenhuma lgrima quando Suzanna lhe tinha explicado como e onde as tinham encontrado, mas a consolava dispor dessa pequena e prezado lembrana de sua me.
No se falou de morte.
Holt manteve  Suzanna prxima. A tormenta tinha passado e tinha sado a lua. O salo estava banhado de luz. O nico som era a voz baixa e clara da Suzanna enquanto lia o diario da Bianca.
Passou a ltima pgina e pronunciou os pensamentos de Bianca enquanto se preparava para ocultar as esmeraldas.
"Ao as tirar e as sustentar nas mos para observar seu brilho  luz do abajur, no pensei em seu valor monetrio. Seriam um legado para meus filhos, e para seus filhos, um smbolo de liberdade e de esperana. E com o Christian, de amor.
Ao amanhecer, decidi as guardar, junto com este diario, em um lugar seguro at que volte a me encontrar com Christian."
Devagar, Suzanna fechou o diario.
-Acredito que agora se reuniu com ele. Acredito que j esto juntos.
Sorriu quando Holt tomou a mo. Olhou ao redor da estadia, viu suas irms, aos homens que estas amavam, a sua tia sorrir atravs das lgrimas, e  filha da Bianca, contemplando o retrato que tinha sido pintado com um amor imortal.
-Mais que as esmeraldas, foi Bianca quem nos reuniu. Eu gostaria de pensar que ao encontrar as esmeraldas, ajudamos a que eles voltem a se encontrar.
Fora da casa, a lua brilhava sobre os penhascos, muito por cima de onde o mar liberava seu constante batalha com as rochas. O vento sussurrava entre as flores silvestres e dava calor aos amantes que ali passeavam.

FIM

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